NOSSA SENHORA DO DESTERRO, ILHA DE SANTA CATARINA


NOSSA SENHORA DO DESTERRO, ILHA DE SANTA CATARINA

Uma centena de praias e uma dúzia de fortalezas vesgas

 

Na primeira vez, olhei e não vi. Na segunda, também. Turista alienado, ficava contando praias e catando conchas. Na terceira vez, fui para ficar três anos, em missão profissional:  colocar a Filial Santa Catarina da IBM na liderança do mercado de Tecnologia da Informação no estado. Santa Catarina era o único estado brasileiro dominado pela concorrência (Fig1).

Cheguei a Florianópolis em janeiro, afobado para conseguir vaga em colégio para minha filha. Saí a pé pelo Centro, sob uma tempestade de verão, para entrevistas em duas escolas tradicionais. O Colégio Catarinense e o Colégio Coração de Jesus. Espanto. Em primeiro lugar, o assunto foi resolvido rapidamente. Pompa e circunstância do cargo executivo, em uma comunidade de menor porte, com certeza ajudaram na matrícula. Além disso, veio a surpresa do casario antigo que se alinhava pelas ruas estreitas de paralelepípedos achatados pelos anos. Me lembrei de Petrópolis, de Três Rios.

Na busca por moradia, aprendi mais sobre o lugar, sua centena de praias reduzidas a 42, preço pago aos aterros do progresso. Me instalei na Avenida Beira Mar Norte, o mais recente aterro, em apartamento tão grande quanto barato, com vistas para o mar até do banheiro de empregadas. Como vizinho, tinha uma pequena chácara com muro de pedra; lembrança de quando o mar chegava até ali. Fui atrás de clube para integração social e saí em visita a praias magníficas para lazer de fim de semana. Assim conheci a geografia de Florianópolis. Capital do Estado, localizada na ilha que deu o nome ao próprio. Ilha de Santa Catarina. Bem próxima ao continente em seu ponto mais estreito, divide-se em duas partes, a Baía Norte e a Baía Sul (Fig.2). No leste, diante do Oceano Atlântico, descobri a Lagoa da Conceição e suas dunas bordejadas por artesãs de renda de bilro. Formada por duas metades, como a baía da Ilha, a Lagoa é um espelho do céu. De um lado, águas sempre agitadas pelo vento, que, em contrapartida faz da outra metade um permanente remanso. Em constante troca de posições (Fig.2).

Ficava admirado e cismado com aquele verde clorofila dos caminhos para as praias, manchando montanhas de granito exposto onde árvores e palmeiras desenhavam sombras. Já rever aquela fortaleza colonial em ruínas, no extremo Norte da Ilha, foi uma experiência de auto-flagelo, pela constatação da minha insistente ignorância sobre sua origem. Para piorar, como era difícil entender o linguajar chiado e cantado que a turma falava, o tal do “idioma ilhéu”, língua oficial dos “manezinhos da ilha” (tanto os ricos quanto os remediados).

A ficha caiu. Diante daquela combinação de natureza esplendorosa com arquitetura de 300 anos e um acervo cultural escancarado, em vez de turista passivo, eu tinha de virar Viajante na História. Isso me ajudaria na integração com a comunidade e seria fundamental para entender a cultura e o comportamento de meus clientes e da sociedade. E foi assim que, quanto mais vivia, mais aprendia e sabia. Entrei em uma jornada que mudou minha vida…

Os primeiros habitantes da Ilha de Santa Catarina foram os selvagens sambaquis. Há mais de 5.000 anos. Sambaqui, palavra guarani que significa monte de conchas, é um sítio arqueológico formado pela população dos sambaquis na medida em que iam jogando e acumulando cascas de moluscos e restos de outros alimentos durante centenas e até milhares de anos (Fig.2).  Os monturos de sambaquis podem alcançar até 30 metros de altura e 120 deles foram encontrados na Ilha. Riquíssimo material arqueológico, permite identificar a  grande diversidade da dieta alimentar e dos hábitos e afazeres daquela gente. Além das conchas de ostras e mariscos, foram encontrados ossadas de peixes como bagre, badejo, anchova, cocoroca e cação; ossadas de mamíferos marinhos como boto, baleia, lontra, leão marinho e lobo do mar; de mamíferos terrestres como capivara, gambá, ratões do banhado, tatu, paca, anta, porco do mato, veado, jaguatirica, onça; de aves como o albatroz, pingüim e gavião, e ainda de répteis como o jacaré. Muitos destes ossos, dentes e conchas haviam sido transformados em ferramentas, armas de caça e pesca, ou em objetos de adorno. Restos de cerâmica com inscrições rupestres (Fig.2) e pedras gravadas indicam a presença mais recente dos sambaquis. Eles apareceram e sumiram da Ilha sem razão aparente. Talvez a chegada dos índios carijós, vindos do continente, no século XIV, tenha acabado com eles.

Os carijós ocuparam densamente a Ilha, espalhando aldeias de porte variado, de trinta até oitenta cabanas. Seu legado maior foi a arte da cerâmica, aplicada em utensílios domésticos e em vasos funerários. Mas em 1600 a Ilha já estava desabitada, segundo relato de missionários jesuítas. Os carijós resolveram abandonar o local onde viveram 300 anos com a consciência de sua crescente vulnerabilidade diante daquela gente suspeita, xexela e barbuda que passava pela Ilha, em freqüência e quantidade cada vez maiores, pedindo coisas. Informações, alimentos, mão de obra, mulheres.

Eram os primeiros europeus. Exploradores, navegadores, náufragos. Portugueses, espanhóis, franceses,  ingleses, alemães e até russos. Os portugueses, colonizadores oficiais, em função de sua descoberta do Brasil. Os espanhóis, em direção a suas novas províncias, Montevidéu e Buenos Aires. Os demais, a caminho do mundo do Oceano Pacífico. Em 25 de novembro de 1526, o navegador italiano Sebastian Caboto, a serviço da coroa espanhola, refugiou-se na Ilha após naufrágio próximo à hoje surfista Praia da Joaquina. Pela graça recebida dos céus, batizou a providencial ilha com o nome da santa daquele dia : Santa Catarina da Alexandria. Acabava de nascer, mesmo desabitada, a Ilha de Santa Catarina, a Ilha da Magia.

Os primeiros colonizadores fixos foram os portugueses, preocupados com o domínio dos mares pela Invencível Armada espanhola, agravado com a secular discussão originada pela dúbia interpretação do Tratado de Tordesilhas (1494). Segundo os espanhóis, as coordenadas da Ilha de Santa Catarina faziam dela sua possessão. Para os portugueses, era uma cachopa, praticamente virgem, de sua nova colônia do Pau Brasil. Assim, em 1673, Francisco Dias Velho, acompanhado por um grupo de gajos deserdados, desterrados, criminosos e desocupados, chegou à ilha e fundou um povoado que, por razões óbvias, batizou de Vila de Nossa Senhora do Desterro. Nasceu assim a elite catarinense.

Paralelamente, a Ilha ia formando sua vocação de servir como porto de abrigo, de recuperação de embarcações e de estadia para almirantes, marujos, náufragos, desertores e piratas, em pleno processo de globalização. A terra era rica em madeira, frutas exóticas, fauna variada e explosivamente colorida, água corrente, praias lindíssimas e frutos do mar. Um meio termo entre um paraíso e um resort.

Cada expedição náutica trazia também cientistas e artistas, que faziam constar de seus diários de bordo as experiências e as imagens de sua estadia na Ilha de Santa Catarina. O livro “Ilha de Santa Catarina – Relato de Viajantes Estrangeiros nos séculos XVIII e XIX” , editado em 1979 pela Assembléia Legislativa de Santa Catarina e pela Universidade Federal de Santa Catarina, traz o relato ilustrado de 20 diários de bordo produzidos por viajantes europeus, de 1708 a 1824 (Fig.2). Além da descrição, com imagens, dos panoramas da Ilha, de sua vegetação e de seus habitantes (gente, mamíferos, répteis, insetos, aves, crustáceos e peixes) a obra permite constatar a evolução de Nossa Senhora do Desterro ao longo de mais de um século.

Mas é do ano de 1803 que data um dos textos mais impressionantes sobre a região. Material redigido pelo médico alemão Georg Heinrich Von Langsdorff (1774 – 1852) que, naquele ano, comandou uma expedição bancada por recursos da Rússia e percorreu a costa brasileira, deixando em suas pegadas um olhar rico em detalhes e descrito com paixão, sobre a Ilha de Santa Catarina. 
(…) “O panorama da paisagem à nossa frente, coberta por uma roupagem de um verde vivo, semeada de flores multicolores, prometia-nos a todo instante o maior prazer durante a nossa estada naquele lugar e o mais confortável bem-estar. A Ilha de Santa Catarina e a parte firme da América, situada à sua frente, apresentam elevações; entretanto, os mais elevados cumes alcançam apenas uma altura mediana e se acham cobertos de arvoredos; as subidas são íngremes e interceptadas por diversos vales. Notamos ao longo da costa muitas enseadas e ilhas, encontrando-se a terra abundantemente regada por uma quantidade de fontes, riachos, torrentes, rios e pântanos. As margens são, em parte, arenosas e inacessíveis, limitadas por rochas inatingíveis, devido ao furioso quebra-mar. A visão de qualquer terra, ou mesmo do rochedo mais estéril, é encantadora após uma viagem marítima de dois meses: ainda mais quando é o caso de uma terra que foi agraciada pela natureza em todos os sentidos, uma terra onde tudo viceja com inexcedível beleza e garbo inimagináveis. Da praia, junto ao mar, emergia uma paisagem maravilhosa, onde o verde das montanhas sobressaía mais pela coloração rubra do sol poente. (…). Excitado por tão belas imagens de minha fantasia, mal poderia aguardar o retorno do sol para visitar a região paradisíaca. Confesso que minhas idéias eram exageradas e tensas, mas apesar disto, quanto mais eu me aproximava da terra, a realidade excedia minha expectativa. A floração, tão variada em cores, tamanho, constituição e variedade, exaltava na atmosfera uma mistura de perfume agradável, que a cada inspiração fortifica o corpo e vivifica o espírito. (…). Tudo o que via ao meu redor causava-me admiração por sua novidade e dava-me a impressão tal que só pode ser sentida, nunca descrita”.

Em sua viagem o ilustrador francês Choris, procurou dar imagens à narrativa de Langsdorf (Fig.3).

A imigração açoriana, a partir de 1748, trouxe para a Ilha de Santa Catarina um casario colonial português, o ofício da pesca profissional e o artesanato da renda de bilros. Fora, é claro, o sotaque chiado e cantado, tão bem preservado pelos atuais “manezinhos da ilha”, seus descendentes.

Com novas levas de imigrantes e com o crescimento de Nossa Senhora do Desterro, Portugal entrou em pânico com a pendenga espanhola sobre a posse da Ilha. Precavendo-se de uma incerta invasão dos compatriotas de Don Quijote de La Mancha, a coroa portuguesa incumbiu o Engenheiro militar e Brigadeiro luso José da Silva Paes de fortificar a Ilha de Santa Catarina. Com mãos à obra e olhos no mar, Silva Paes projetou e construiu, armou e guarneceu doze fortalezas. Estrategicamente  distribuídas no Norte da Ilha, em ilhas da Baía Norte e em pontos do continente, os baluartes da defesa portuguesa deveriam criar uma barreira de fogo intransponível, com o inimigo sendo crivado de tiros de canhão vindos dos dois lados (Fig.3). Mas, dois probleminhas ocorreram : por um lado, o brigadeiro, falho na tabuada (ao contrário de seus conterrâneos do futuro , donos de padaria e botequim), criou uma artilharia inofensiva, já que a balística de nenhum canhão atravessava da ilha ao continente e vice-versa. Ou seja, de Norte a Sul, da amplitude da ponta da Ilha até o trecho mais estreito, havia um canal de sossego onde qualquer embarcação, de qualquer porte, poderia singrar as águas despreocupada com as baterias vesgas dos canhões d’Alentejo. Para piorar, as guarnições militares dos fortes eram compostas de jovens agricultores e de futuros surfistas, amantes do sol e mar. Passavam os dias no preguicê. Os espanhóis sabiam disso tudo.   

Assim, em 24 de fevereiro de 1777, o almirante Don Pedro de Zeballos, comandando uma esquadra espanhola (Fig.4), apodera-se da Ilha de Santa Catarina sem disparar um único tiro e sem perder um único homem. A armada invasora era composta de 6 galeões, 7 fragatas, 7 navios de outros tipos e 100 embarcações com tropas de desembarque. O poder de fogo dos espanhóis era absurdamente maior; as 647 peças de artilharia de sua esquadra representavam pelo menos sete vezes mais que as defesas de todas as fortificações da Ilha. Diante desse poderio, e com a moral dos gajos em frangalhos foi natural que a invasão tenha ocorrido sem luta.

A crônica da invasão pode ser resumida assim: dia 20 de fevereiro, a esquadra espanhola fundeia na enseada de Canasvieiras; dia 22, o comando da fortaleza de São José da Ponta Grossa avisa ao quartel-general português que os espanhóis se preparam para atacar e que não dispunha de homens para a defesa; dia 23, os espanhóis, sem encontrar oposição, desembarcam seis regimentos e 12 peças de artilharia e ocupam São José da Ponta Grossa (Fig.4); no mesmo dia, cinco navios colocam-se em posição para atacar Anhatomirim; dia 24, é ocupado o Forte de Santa Cruz de Anhatomirim (Fig.4), onde apenas o comandante, dois soldados e cinco escravos se rendem. Fim de papo. Nocaute sem soco e vitória por W.O. Das tropas portuguesas, somente 523 homens haviam permanecido na Ilha. Foram remetidos para Buenos Aires como prisioneiros. Após as punições determinadas por Lisboa pela vergonhosa derrota, apenas um oficial obteve reabilitação: foi Miguel Gonçalves de Leão, comandante da fortaleza de Santa Cruz do Anhatomirim; de todos, o único que não abandonou o posto na hora da luta. Os demais adotaram  a prática da avestruz, com a cabeça enterrada na areia, herdada pelo nosso querido PT. A ocupação castelhana da Ilha de Santa Catarina durou um ano, 4 meses e 25 dias. Por força do Tratado de Santo Ildefonso de 1° de outubro de 1777 – assinado e confirmado em 11 de março de 1788 – a Ilha de Santa Catarina foi devolvida a Portugal em 31 de julho de 1778.

Durante o século XIX, a vocação de Nossa Senhora do Desterro começou a mudar. A agricultura e a extração de madeira transformaram a paisagem da Ilha. Pedreiras começaram a brotar onde antes havia mata virgem. A madeira foi sendo usada na construção e no reparo de embarcações, na construção de engenhos, de moradias e de móveis. E torrada como lenha doméstica ou industrial, em lares, curtumes, olarias. O espaço para ocupação urbana estava aberto. E a economia, na virada para o século XX, já era tocada pelo comércio portuário, pela pesca, pela agricultura e pelos afazeres burocráticos da recém nascida República Federativa do Brasil. A cidade perdeu até o nome. Em 1894, em polêmica homenagem ao Marechal e Presidente da República Floriano Peixoto, desterraram Nossa Senhora do Desterro para surgir Florianópolis.

O tráfego de embarcações entre o continente e a Ilha foi substituído pelo de carroças e automóveis, com a inauguração da Ponte Hercílio Luz, em 1926 (Fig.5). Florianópolis aderiu também ao processo de urbanização predadora, acompanhado de incontrolável êxodo rural, que afetou as capitais e cidades brasileiras, principalmente a partir dos anos 50. Desde então, a cidade, já totalmente improdutiva em suas tradicionais atividades de décadas passadas, começou a apresentar uma nova fisionomia urbana, basicamente burocrática, com comércio e serviços ajustados apenas aos novos interesses. As conseqüências ao patrimônio natural e cultural foram imediatas e devastadoras. Os recantos mais escondidos da Ilha começaram a ser cortados por estradas e loteamentos e as tradicionais mas decadentes comunidades agrícola-pesqueiras transformaram-se em balneários. Na cidade, edifícios e espigões substituíram a maior parte das construções seculares de estilos e épocas diversas. As encostas e as periferias urbanas foram sendo intensamente ocupadas. Para atender às novas exigências do tráfego na cidade, as autoridades municipais e estaduais dos anos 70, optaram pela execução do aterro sobre a Baía Sul. Logo seguido por outro, em parte da Baía Norte, para construção da via expressa da Beira-Mar Norte (Fig.5). Num estalo, o número de praias caiu de 100 para 42 e as baías da Ilha, poluídas, expulsaram os freqüentadores de tantos séculos. Desde o final da década de 80, Florianópolis, que perdera em 50 anos a sua original personalidade, adotou com sucesso seu novo perfil, o turístico.

Mas o passado ainda está presente. Quatro daquela dúzia de fortalezas vesgas passam por heróica restauração, comandada pela Universidade Federal de Santa Catarina. O sotaque açoriano vive, mas restrito agora à reduzida população ilhoa. Argentinos, gaúchos, paranaenses e paulistas são os novos cidadãos da Ilha de Santa Catarina. Ribeirão da Ilha mantém intacto seu cartão postal colonial português (Fig.5). O Mercado Público não mudou nada. Só ficou longe do mar (Fig.5).

E a pesca da tainha ainda traz toneladas de peixe em arrastões no inverno da Ilha (Fig.5).

Não consigo deixar de me emocionar cada vez que me torro sob o sol de Jurerê Internacional (Fig.6), que nado no espelho d’água da Lagoa da Conceição (Fig.2), que corro atrás de siris e tatuís na Praia Brava (Fig.6), que me deixo levar flutuando pelas ondas inofensivas da Praia da Lagoinha (Fig.6), que desço as barrancas da Praia Mole (Fig.6), que vejo o mar sereno de Pontas das Canas (Fig.7) invadir, de forma implacável, o espaço dos quiosques comerciais, ou que observo uma menina-moça fazer piruetas de body-boarding na Praia dos Ingleses (Fig.7).

Foram três anos inesquecíveis que vivi em Santa Catarina. Aprendi que o estado é um mosaico de culturas: pescadores portugueses, agricultores italianos e franceses, industriais alemães e pecuaristas gaúchos. Santa Catarina é um espelho do nosso país; a ponto de, se fizermos uma rotação de 90 graus para a esquerda em seu mapa, vai parecer que estamos diante do mapa do Brasil (Fig.7).

Ao contrário de outras Viagens na História, onde sempre tive um papel passivo, sei que deixei uma marca na Ilha. Minha filhota Patricia colecionou troféus no tênis catarinense. Clone de Gabriela Sabatini, era a raquete número 1 juvenil feminina (Fig.7), dividindo o favoritismo com um coleguinha de colégio, de equipe e de treinador, o número 1 juvenil masculino. Um tal de Gustavo Kuerten. E há alguns anos, a Ilha literalmente pára, em um fim de semana de maio, para a realização do Ironman de Florianópolis. Uma prova internacional de triathlon, classificatória para sua matriz, no Hawaii (Fig.7). Mas o primeiro triathlon da Ilha de Santa Catarina ocorreu num sábado, 22 de dezembro de 1990, com o patrocínio da IBM e com a participação desse viajante na História (Figs.8 e 9). O primeiro triathlon também nunca se esquece.

Transferido pela IBM para outras escalas de comando, voltei à Ilha algumas vezes. Fosse para participar das provas seguintes de triathlon, fosse para rever amigos de negócios e de esporte. Floripa está cada vez mais diferente. Mas, com os olhos do coração, continuo a enxergar a mesma ilha dos diários de bordo dos viajantes estrangeiros que por lá passaram séculos atrás.

Sei que a Ilha de Santa Catarina é uma paixão que me acompanhará até meu último dia. A Ilha da Magia só existe na magia da Ilha. Eu conquistei esse carma, pois tive o privilégio de trabalhar e morar em um lugar onde as pessoas passam férias.

 

Observação

Esse texto é dedicado a Claudio Silva, o colunista Miro, do jornal O Estado, de Florianópolis. Falecido prematuramente em janeiro de 2004, Miro foi um grande parceiro meu. Com ele tive a prática da relação com a imprensa. Eu era fonte dele, ele era minha fonte. E a IBM aparecia nos jornais. Miro comentou meu acidente em sua coluna e depois divulgou meu retorno às atividades profissionais e esportivas. Em sua última citação, às vésperas de minha partida, ele escreveu :

“O comandante da IBM catarinense volta para São Paulo com missão cumprida. Ao contrário da derrocada ilhoa na invasão espanhola, sua IBM, pioneira da informática em nosso estado, mas ultrapassada por empresas que para cá vieram depois, resistiu às tropas da concorrência e acaba de assumir a liderança de mercado, com 12 novos clientes conquistados durante sua gestão.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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19 respostas para NOSSA SENHORA DO DESTERRO, ILHA DE SANTA CATARINA

  1. Fabricio disse:

    Além dessa novidade das fortalezas vesgas, já estou sabendo da outra…falei com a Lais agora! 9kg a menos e chegando aos 3:54/km!Parabéns pelas duas novidades, ambas são brilhantes.Fabrício

  2. Patrícia disse:

    1 – Muito interessante toda sua passagem por lá e seu trabalho, sempre meticuloso, como Historiador.
    2 – Minha xará é tenista, então? Muito chique :)
    3 – Não sabia sobre o acidente.
    4 – Gostei muito das fotos, especialmente as do atleta.
    5 – Beijos.
     
    S.
     

  3. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Têja parabenizado com essa estória dos sambaquis que ficou sem terra, virou o primeiro MST do Brasil, adispois deram uns tiro de zóio cruzado na torcida do flamenco e que tu botou tudim pra corrê, nadá feitio tainha e pedalá de velocípidio.
    Aqui no cangaço, num sabe, tem parecido diferente. Pra comêsso de convercê, Sambaqui Sambacolá é o forró do Tio Pancrácio, lá pras banda da Vila da Mamona Doce. Dia de sábado nóis sempre tá lá prum arrasta pé mais bate coxa c\’as minina fia dos coroné de engenho que acoita nóis. Pois eu mais a turma fiquemo foi aperreado com esses portuga baitola que saiu fugido da Ilha de Santa Catarina (sua bença, minha santa) se borrando todo por causa de umas jangada espanhola metida a besta. Diga lá pra eles, meu Professô, que no Nordeste a coisa foi diferente. Os nordestino, cabra macho sem frescura de vesguice, lascou fogo no rabo daqueles tarado holandês mais francês que fala de biquinho i que tarra querando tumá o Nordeste e carcá estrovenga nas nossa índia e nas negrona. S\’escafedeu tudim, mas deixou pra trás aqui acolá uns minino rucim de zóio azul, barrigudim de embigo estufado e nariz escorrendo. Tem um cabra do bando que tem sangue desses xexelento fidumaégua, o Albino Sarará. Todo 7 de Setembro e todo Sábado de Aleluia nóis enche ele de maizena mais melaço pra comemorá a vitória dos nordestino contra aqueles galego safado.
    E em homenage a tu, pajé do triatlio das catarina, nós vai fazê uma prova dessa aqui no Angico. Primeiramente, tem a travessia no Ribeirão das Piranha (natação de costas, pois em rio que tem piranha jacaré nada de costas). Em seguidamente, tem a parte da montaria, de riba d\’uma égua no cio, rola um rebolado diante de três alazão garanhão doidão, seguido de sarve-se quem pudé. Afinal, quem tem cu tem medio. E nos finalmente, vem a corrida: nóis vai tocá fogo naquela casa de marimbondo africano e saí correndo pela caatinga afora. Ganha o triatlio quem chegá primeiro no Inferninho da Prima Caldeira com menas ferroada e carcá treis veis a Sandrona do Buraco Quente. Mas como ainda não temo patrosino pra premiassão, vamo assaltar a agencia do Santander de Murici nas Alagoas, onde o Renan Calheiros guarda a grana da comilança da Monica Veloso. No bando nóis vai levá um cabra pra pegá o safado do Renan se ele aparecê por lá:o mestre da peixeira, Cabôco Capa Dócil.
    A sua bença, professô.
    Capitão Raimundo Nonato

  4. Luz de Pedra disse:

    MARAVILHOSO! Me pareceu uma homenagem à sua filha Pat que lá cresceu. "A Ilha da Magia só existe na magia da Ilha". Essa frase é de arrebentar.

  5. Voyeur de Wayzata disse:

     
    Caro Tchicha,
     
    Ainda em quarentena familiar, obrigo-me a um resumo resumido.
    Materia histórica mais fresca que as usuais mas não menos interessante. O recheio do registro pessoal, de merecido orgulho. Tanto sucesso profissional merecia uma aposentadoria menos precoce…
    Curiosidade : um amigo prestes a se aposentar, vivendo em Miami, acaba de adquirir um terreno de 10 mil m2 com uma casinha em uma das ilhas perto de Floripa. Uma gracinha, acesso só de barco. Antes de fechar o negocio, perguntou minha opinião, no que disparei sem titubeio :
    - " Fecha essa escritura e aproveite a vida ! ".
    E ele :
    - " Escritura ? Que escritura ? Tem escritura não… Vou comprar o ponto de um médico…"
    Eu :
    - "Ponto ? Que ponto, cara ?! " .
    Ele :
    - " O direito de estar, ô meu !"
    Eu :
    - " Vais comprar mas não te pertence ????
    Ele:
    - " Na verdade, a ilha pertence a uma familia açoriana que arribou nos primordios das conquistas portuguesas, e que hoje lá vive em uma parcelinha. Os terrenos são apenas negociados entre pessoas, que constroem suas casas e ali vivem sob os olhos da familia que, na ausência dos pretensos "proprietarios", a maioria não-residentes, ainda presta serviços de limpeza, manutenção e criadagem, pra defender algum…Ah, e ainda preparam uma comidinha caseira, se solicitados…"
    Eu :
    - " Fala serio…"
     
    Moral :
     Nada melhor para uma boa aposentadoria do que a informalidade ilegal.
     
    Moral 2 :
     Invista no que não é seu : venha para o Brasil.
     
    Que saudades do jeitinho…
     
    BJKS
    Voyeur
     

  6. Marcelo Amin disse:

    Triatletas da Ilha

    Jayme, que saudade !!!
    Parabéns Professor Astromar.
    Um grande abraço, Marcelo.

  7. Luz de Pedra disse:

    NO CANGAÇO DO CAPITÃO RAIMUNDO NONATO
    "Aqui no cangaço, num sabe, tem parecido diferente". 

    (isso é um oxímoro!)

  8. Luz de Pedra disse:

    Esclarecimento a pedidos. O que é Oxímoro ?

    Oxímoro ou oximoro (do grego ὀξύμωρον, composto de ὀξύς "agudo, aguçado" e μωρός "estúpido") é uma figura de linguagem que harmoniza dois conceitos opostos numa só expressão, formando assim um terceiro conceito que dependerá da interpretação do leitor.
    Dado que o sentido literal de um oximoro (por exemplo, um instante eterno) é absurdo, força-se ao leitor a procurar um sentido metafórico (neste caso: um instante que, pela intensidade do vivido durante o mesmo, faz perder o sentido do tempo). O recurso a esta figura retórica é muito frequente na poesia mística e na poesia amorosa, por considerar-se que a experiência de Deus ou do amor transcende todas as antinomias mundanas.
    O contrário de oximoro é pleonasmo.
    Exemplos de oximorosinocente culpa – lúcida loucura – silêncio eloqüente – gelo fervente – tácito tumulto – ilustre desconhecido – Movimento apolítico (Pois todo movimento social é político)

    E, naturalmente, do oximorista Raimundo Nonato "Aqui no cangaço, num sabe, tem parecido diferente". 

  9. Escola de Natação Tutu Barão disse:

    Que saudades, guri!
    Que bom se vieres aqui. 
    Quem sabe em uma des nossas provas de triatlo para relembrarmos os "bons tempos".
    Naida Freitas

  10. Luz de Pedra disse:

    Para o oximorista Nonato, alguns pleonasmos …
    Você sabe o que é tautologia?
    É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na  repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido (mais freqüentemente chamados "pleonasmos  viciosos").
    Exemplos clássicos são os famosos "subir para cima" ou "gritar alto". Mas há muitos outros, como você pode ver na lista a seguir:
    elo de ligação / acabamento final / certeza absoluta / quantia exata / nos dias 8, 9 e 10, inclusive /  juntamente com / expressamente proibido / em duas metades iguais / sintomas indicativos / há anos atrás / vereador da cidade / outra alternativa / detalhes minuciosos / a razão é porque / anexo junto à carta / de sua livre escolha / superávit positivo / todos foram unânimes / conviver junto / fato real / encarar de frente / multidão de pessoas /  amanhecer o dia / criação nova / retornar de novo / empréstimo temporário / surpresa inesperada / escolha opcional / planejar antecipadamente / abertura inaugural / continua a permanecer / a última versão definitiva /  possivelmente poderá ocorrer / comparecer em pessoa / gritar bem alto / propriedade característica / demasiadamente excessivo / a seu critério pessoal / exceder em muito .
    Note que todas essas repetições são dispensáveis.

  11. Faustinho disse:

    Meu caro professor,
    que bela aula de história. Desconhecia alguns detalhes que me farão enxergar a ilha de outra forma. Só estive lá uma vez e confesso que fiquei surpreso lendo seu texto. Inclusive me fez pensar muito na colonização portuguesa. Teria sido melhor a espanhola??? Quem pode garantir? Estou lendo o livro 1808 do Laurentino Gomes e é fantástico, recomendo a leitura. Você vai ficar louco. Gostei também de saber que sua filha deixou marcas por lá. Ainda bem que ela não seguiu os rumos de caráter do coleguinha dela, o tal de Gustavo Kuerten, baladeiro nas horas erradas e arrogante também nas horas erradas. Desde que ele cuspiu na cara de um jornalista, perdeu o meu respeito.
    Forte abraço e parabéns!!!

  12. Delicado da Kibon disse:

    Quando vim morar nessas paragens helvéticas achando que chocolate Lindt seria melhor do que Delicado da Kibon (doce ilusão!), o Professor Astromar já brilhava na IBM.  De longe, eu tentava acompanhar o percurso de moradias que ele, a trabalho, fez durante vários anos por algumas cidades do Brasil e do exterior. New York, Campinas, Florianópolis, São Paulo, mas sempre com encontro marcado em Petrópolis, “noblesse oblige”. Conheci Campinas e São Paulo. Florianópolis continuo sem conhecer, mas aprendi a gostar.O último capítulo de Viagens na História, sobre a Ilha das Fortalezas Vesgas, é prova disso.Uma descrição de qualquer lugar do mundo feita pelo Professor deixa o leitor com água na boca. É aula de História misturada com família, é enciclopédia viva misturada com sarcasmo ferino, é português castiço com safadezas de Raimundo Nonato, é cultura com lascas de coração. Assim é a viagem de Florianópolis, tem tudo lá. Parabéns e obrigada, Professor!
    Delicado da Kibon

  13. Raspa do Tacho disse:

    Gostei do Congelado dizer que tanto sucesso profissional não merecia a aposentadoria tão precoce.
    Ele está certo.
    Mas ao mesmo tempo é graças à aposentadoria precoce que as histórias nos bordejam, como diria o professor.
    Raspa do Tacho

  14. Raspa do Tacho disse:

    Muito bom seu texto sobre Florianópolis.

  15. Luz de Pedra disse:

    "Ofício do Clã das Adagas Redatoras anuncia que acaba de chegar, por terra, mar e ar, o primeiro livro do Professor Astromar. SIRIS & PIRILAMPOS E OS MISTÉRIOS DA MEIA NOITE – EMBALOS LITERÁRIOS DO PROFESSOR ASTROMAR."
    Destaque para esse "terra, mar e ar…".

  16. Narciso Rujol disse:

    Caro Astromar,
    Estarei em SP na 1a.quinzena de dezembro, quando espero poder encontrá-lo e comprar sua obra, devidamente autografada…
    Parabens pelo release..
    abs,
    Narciso

  17. Raspa do Tacho disse:

    "Ofício do Clã das Adagas Redatoras anuncia que acaba de chegar, por terra, mar e ar, o primeiro livro do Professor Astromar. SIRIS & PIRILAMPOS E OS MISTÉRIOS DA MEIA NOITE - EMBALOS LITERÁRIOS DO PROFESSOR ASTROMAR."
    Adagas redatoras é metáfora de texto cortante, de faca só lâmina, de João Cabral! Chegou só o ofício ou a primeira edição?????

  18. Voyeur de Wayzata disse:

     

    "Ofício do Clã das Adagas Redatoras anuncia que acaba de chegar, por terra, mar e ar, o primeiro livro do Professor Astromar. SIRIS & PIRILAMPOS E OS MISTÉRIOS DA MEIA NOITE – EMBALOS LITERÁRIOS DO PROFESSOR ASTROMAR." Congrats ! Acende um charuto e brinda !!

  19. Noblesse Oblige disse:

    "Ofício do clã das Adagas Redatoras…"
    Bravo, Professeur! Quelle chance, je vais l’avoir bientôt dans mes mains… entourée de petits neveux et Delicados da Kibon.
    NO

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