POMPÉIA


POMPÉIA, UM RESORT DO IMPÉRIO ROMANO

Morta e preservada pelas forças da Natureza

 

O final do fim e o começo do início

A madrugada do dia 24 de agosto do ano 79 D.C. estava absurdamente quente. Perto do meio dia, o ar estremeceu sob um trovão apavorante. Os habitantes de Pompéia, na Itália, viram o Monte Vesúvio, um vulcão inativo, explodir diante de seus olhos. Uma chuva de pequenas pedras brancas incandescentes caiu na cidade. Em seguida chegaram as cinzas, tirando a visão e sufocando gargantas e pulmões das pessoas. Até o ar rarefeito virou raridade. Teve gente se abrigando nos cantos das residências, outros correram para o mar. Mas poucos chegaram até as areias. Junto à muralha da cidade, no portão de Nocera, uma família que deixara sua villa, como tantas outras, tentava desesperadamente sair da cidade. Seu escravo, caminhando com os patrões, procurava se proteger da chuva vermelha usando uma telha. Implacável e mortal, a cinza assassina ia se acumulando. Alcançou janelas, bloqueou passagens e logo chegou aos telhados. Enterrou Pompéia.  O pavor dos habitantes teve fim com a morte: homens, mulheres, crianças e animais viraram estátuas do tempo em sua agonia final. Quase dois mil anos depois, em 1961, o arqueólogo italiano Amedeo Maiuri encontrou aquela família. O escravo ainda segurava a telha que imaginara salvadora; mulheres e crianças continuavam caídas, de mãos dadas; um homem, apoiado em um cotovelo, ainda tentara, num esforço final se levantar e salvar seus queridos. Todos transformados em estátuas.

 

Pompéia, a vida

Quando foi soterrada pelo Vesúvio, a Pompéia já tinha quase 800 anos. Fundada no século 7 A.C pelos Óscos, povo da Itália central, era convergência de várias rotas comerciais e porto utilizado por gregos e fenícios. Foi tomada pelos gregos, depois pelos etruscos da Toscana e, finalmente, pelos romanos. No ano 80 A.C foi oficialmente denominada Colonia Cornelia Veneria Pompeianorum. Localizada na Baía de Nápoles, integrava uma área de lazer e comércio, formada por Capri (residência do imperador Tibério durante 25 anos), pelo balneário praiano de Herculano e pela Costa Amalfitana.

Uma região de veraneio de romanos ricos, pontilhada por villas inacreditáveis que, hoje, poderiam ser naturalmente consideradas resorts.

A economia de Pompéia girava em torno da agricultura (azeite e vinho), comércio e produção locais (pesca, artefatos, padarias, lavanderias, empréstimos) e turismo. Assim, a sociedade de Pompéia era formada pelos muito ricos – os romanos nobres, os políticos, os latifundiários, pelos ricos – os comerciantes e industriais bem sucedidos, pelos pobres – trabalhadores agrícolas, pescadores e pelos escravos.

As mulheres das famílias de posses tinham voz ativa na sociedade. Eram cabos eleitorais de seus candidatos protegidos e preferidos, casavam para poderem se divorciar e se divorciavam para poderem casar. Tinham propriedades, jóias e mais jóias e escravos. Esses cuidavam de sua higiene, beleza e alimentação. Altíssimo nível de mordomia. Os escravos dos ricos, nas residências, paparicavam seus amos. Cama, mesa e banho. Nas atividades comerciais, os escravos eram trabalhadores não sindicalizados, com salário em alimentação, habitação e vestuário. Uma classe especial de escravos ou alguns jovens aventureiros adotavam a carreira de gladiadores. Com isso ganhavam status de celebridade e de símbolo sexual. Recebiam treinamento e cuidados especiais em academias de combate. As crianças tinham aulas pela manhã, no Fórum, complementadas, dependendo das posses da família, por lições clássicas de algum escravo de fina estampa. Como seus pares de hoje, tinham seus bonecos, brincavam de lutas, de pega-pega e já jogavam par-ou-ímpar.

O dia das elites era dividido em três partes. Pela manhã, recebiam, em suas residências, seus “clientes”, aqueles que lhes davam prestígio e apoio político em troca de favores de todo tipo (uma prática até hoje escancarada na Câmara e no Senado do imperador Inassius Lula Mindinus). À tarde, reuniam-se com seus pares em uma das quatro termas de banho da cidade. Ali fechavam negócios, fofocavam e traçavam artimanhas.

A noite chegava com a principal refeição do dia e com a principal atividade social da comunidade: nas confortáveis e finamente decoradas residências aconteciam os jantares intermináveis, muitas vezes terminados nas antológicas orgias romanas.

Nas ruas comerciais, estabelecimentos de todo tipo fervilhavam servindo fregueses. Padarias onde o trigo era moído e transformado em pão em engenhosos fornos, biroscas “fast food”, precursoras do MacDonald’s ou dos restaurantes “por quilo” de hoje, lavanderias onde os tecidos eram pisoteados por escravos em tanques cheios de ácido úrico – ótimo removedor de gorduras, coletado publicamente dos transeuntes em pinicos gigantescos postados na entrada da loja e até mesmo um serviço 7×24. Em operação durante as 24 horas de todos os sete dias da semana, os lupanares de Pompéia atendiam freguesia com tara ou sem tara, tímidos ou sapecas nas práticas libidinosas, mas oficializadas e regulamentadas da prostituição.

Em casas de dois andares, divididas em cubículos com leitos de alvenaria e ilustrações das especialidades da casa, moças de difícil vida fácil exerciam a profissão mais antiga da humanidade.

As ruas de Pompéia seguiam o modelo típico de uma cidade romana. Pavimentadas com pedras irregulares, exibem, em sulcos, as cicatrizes do tráfego secular de milhares de carroças. As calçadas eram decoradas, como as de Copacabana e, as cidadãs não precisavam se preocupar em molhar as barras de suas túnicas em caso de enchente em tempestades: pedras altas ajudavam na travessia de um lado para outro da rua, enquanto as águas escorriam, levadas por ralos para galerias subterrâneas  de esgotos.

Mens sana in corpore sano” estavam presentes na sociedade pompeiana. No primeiro caso, na religião e nas artes. Nos templos ou nos oratórios particulares das villas se prestavam sacrifícios e orações, principalmente a Apollo e a Ìsis e, no anfiteatro de acústica perfeita, peças e recitais de poesia e canto divertiam a população.

Parece que Nero se apresentou lá, com sua harpa, pouco antes de tocar fogo em Roma. Já os melhores exemplos de corpore sano, além das termas públicas e das atividades de alcova, eram a academia dos gladiadores e a piscina olímpica onde se preparavam para as lutas na formidável arena de Pompéia, localizada do outro lado da rua. Com capacidade para 20.000 espectadores sentados, a arena foi palco, no ano 59 D.C., de um espetáculo de violência similar ao que hoje vemos entre as mais delinqüentes torcidas organizadas do nosso futebol. Durante uma exibição de gladiadores de Pompéia contra os de Nocera, espectadores das duas cidades se pegaram numa batalha sangrenta pelas arquibancadas, deixando centenas de mortos e, obrigando o imperador, como nosso Supremo Tribunal da Justiça Desportiva, a fechar a arena durante 10 anos.

 

Pompéia, a morte

Os habitantes de Pompéia não sabiam que o Monte Vesúvio era um vulcão. Sua devastadora erupção, 1.500 anos antes, ficara perdida no tempo, sem registros. O terremoto do ano 62 D.C., que destruiu boa parte da região, levou alguns moradores a se mudarem para outras cidades, enquanto a maioria se dedicava à reconstrução. Roma subsidiou várias empreiteiras e muita propina rolou pela desgraça alheia. Tipo Bolsa Família, Pecuária do Renan e Ranário do Jader.

Mas, quando veio a erupção definitiva, às 12 hs do dia 24 de agosto de 79 D.C., a morte de Pompéia foi rápida. Em dezoito horas, estava soterrada e desaparecida. O calor do manhã foi o primeiro sinal, seguido de tremores cada vez mais fortes, que chegaram a derrubar prateleiras em casas e lojas. Finalmente uma explosão fantástica atirou cinzas, pedras incandescentes e gases a 15 km de altura. Um jato vertical e mortal de 100 milhões de toneladas.

O dia virou noite, as marolas da baía viraram tsunamis. O povo corria sem direção. O vento levou os dejetos na direção de Pompéia, enquanto a vizinha Herculano continuava tranqüila em mais um dia de sol e mar. Meia hora após a explosão, pedras-pome, cheias de ar e já resfriadas começaram a cair em Pompéia. Vinham acompanhadas de rochas maiores, verdadeiros projéteis, em queda livre a 200 km/h. O acúmulo dos debris nos telhados trouxe risco de desabamento. As cinzas impediam a visão. Dos 20.000 habitantes de Pompéia, 15.000 fugiram para locais seguros mais distantes. Os demais resolveram apostar no abrigo de suas casas.

Durante a noite, um lado da montanha cedeu e uma avalanche incandescente de cinzas superaquecidas e de rocha derretida, temperaturas de 500 a 1.000 graus centígrados, desceu sobre Herculano. Pessoas se desintegraram, a cidade pegou fogo. Tudo virou carvão. Aquela noite de Herculano ficou pintada de vermelho e negro. A cidade submergiu sob 25 metros de lava.

Nas primeiras horas da manhã seguinte dois terremotos explodiram o lado da montanha próximo a Pompéia. A nuvem negra da morte descia junto com a lava do inferno, em direção à cidade, à absurda velocidade de 100 km/h. Milagrosamente as muralhas de defesa pararam o fluxo destruidor.

Mas não impediu a passagem de cinzas e gases venenosos espalhando-se pelas ruas e casas. Os pompeianos remanescentes morreram sufocados. Como a família que tentou escapar carregando telhas, deixando para trás seu cachorro, acorrentado. Como Stephanus, tintureiro rico, dono de lavanderias, que deixou em casa sua esposa Fortunata para curtir uma manhã de sexo com sua escrava Hedone.

Com o desabamento do precursor de motel, abandonou-a sob escombros e escafedeu-se com seu cofre entupido de ouro. Apenas para logo tossir e engasgar com as cinzas, sentar-se na calçada, cobrir o nariz e morrer sufocado ao lado de sua riqueza. Enquanto isso, Fortunata procurara consolo em seu amante Cedalus, gladiador trácio, na academia dos gladiadores. Morreram abraçados.

Assim, Pompéia e Herculano sumiram debaixo de 10 bilhões de toneladas de detritos. Uma testemunha ocular e sobrevivente dessa tragédia, Plínio, o Jovem, escreveu ao historiador Tacitus uma narrativa detalhada e emocionada desse dia em que o tempo parou para a História. Seus textos podem ser encontrados na Wikipedia e respectivos links.

 

Pompéia, a descoberta

Nos primeiros dias após a erupção, alguns sem-teto voltaram para retirar material emergente do topo do aterro de depósitos vulcânicos, em tentativa de reconstruir pelo menos um abrigo.  Roma ainda enviou auxílio, mas nada havia para ser auxiliado. Pompéia sumiu do mapa. O mato cresceu sobre os detritos, surgiram árvores, pastores apareceram com suas cabras ruminantes naquele pasto adubado por elas mesmas e pelo Vesúvio. O nome Pompéia se perdeu; muitos se referiam àquela área simplesmente como La Citá. Mas, em 1599, enquanto escavava um fosso para irrigação, um agricultor topou com uma pedra. Escavando mais, descobriu que era uma cabeça. Ajudado por colegas, fez surgir uma estátua que, por sua vez, estava em cima de um telhado. Eureka! Cáspite! Com mil demônios! Depois de 15 séculos, Pompéia voltava à luz. As primeiras escavações foram eventuais, mas predatórias. Depenaram um pouco a cidade. No entanto, em 1748, Charles de Bourbon, Rei de Nápoles, contratou arqueólogos para transformarem a depredação em escavações científicas e históricas. Método, respeito e ciência passaram a predominar naquela fuzarca tipo queromeu de Brasília. Durante os primeiros trabalhos foram descobertos restos humanos em áreas ocas nas camadas de cinzas. Em 1860, o arqueólogo Giuseppe Fiorelli percebeu que esses buracos eram espaços deixados pelos cadáveres decompostos das vítimas do vulcão. Dessa descoberta ele desenvolveu a técnica de preencher os espaços com massa de gesso e cimento, alcançando um resultado inacreditável ao reviver indivíduos da Antigüidade nas posições, vestes e expressões faciais de seus últimos segundos de vida. 

Enterrada sob sete metros de doze camadas de entulho vulcânico, Pompéia foi encontrada quase intacta. A causa de sua destruição foi a mesma de sua preservação. A cidade fornece uma fotografia da vida no Império Romano durante o século I, com data e hora. Sua vida, seus dramas, seu dia-a-dia voltaram de um passado de dois mil anos para um presente estupefato. Trouxe memórias e conhecimento que jamais seriam compartilhados sem a sua tragédia.

 

Pompéia, morta e viva

As escavações de Pompéia atravessaram séculos e fizeram ressurgir a cidade. Inteira, mas morta.

Seus hábitos e costumes saltam aos olhos, sem testemunhas vivas para um papo no túnel do tempo. Nem de fantasmas se tem notícias. Ânforas se acumulam aos montes, fontes públicas de água se espalham pelas principais ruas, o nome Pompei aparece nas fachadas dos prédios, os afrescos das vilas exibem o vermelho vivo característico da região (uma fórmula secreta de argamassa e tinta criada para durar milênios e jamais revelada).

A arquitetura romana explode em Pompéia em todo o seu vigor, pelo estado de preservação das edificações. Residências podem ser visitadas, muitas delas com seu jardim interno com fontes, com pias impecáveis de alabastro (a pedra de luz de Volterra, mais durável que o mármore), afrescos mostrando os hábitos ou retratos dos proprietários e um caleidoscópio de mosaicos de piso ou parede, destacando-se dentre tantos o mundialmente conhecido e copiado “CAVE CANEM” (Cuidado com o cão).                         

Objetos e adornos domésticos e até alimentos foram encontrados aos borbotões. Máscaras teatrais e armamento de gladiadores também. Mas uma das principais características da arte pompeiana são os trabalhos eróticos. Afrescos, lâmpadas de óleo, mosaicos, estátuas, aos milhares, passam a falsa impressão que a cidade era um gigantesco bacanal. Não, não era. A arte erótica de Pompéia tem origem religiosa e venera a virtude da fecundidade. Tanta pornografia, falsa para a época, era uma representação singela de votos de sorte e proteção. Em sua quase totalidade, esses objetos estão hoje expostos no Museu Arqueológico de Nápoles, para onde foram levados também muitos dos corpos petrificados dos cidadãos.

Fortunata e seu gladiador trácio, com suas jóias, enfeites e armas estão em Nápoles.

As jóias da infeliz escrava Hedone também. Já o tintureiro Stephanus e a desafortunada família fugitiva permaneceram em Pompéia.

Uma das grandes e exclusivas descobertas de Pompéia foram os democráticos graffiti. Em primeiro lugar, seu latim diferenciava-se daquele dos textos conhecidos que chegaram até nós. Era um latim popular, semelhante ao nosso idioma na formação de frases, no posicionamento de sujeito, predicado e adjetivos e com palavras idênticas às nossas. Foram encontrados cerca de 10.000 dessas manifestações populares. Algumas de caráter pornográfico, outras de provocação a desafetos, muitas como propaganda política e tantas e tantas declarações de amor.

Vejam exemplos delas:

Política

·          “A namoradinha de Claudius está trabalhando para sua eleição como magistrado.”

·          “Vote em Lucius Popidius Sabinus. Sua avó trabalhou bastante por ele nas últimas eleições e ficou satisfeita com os resultados”.

Amor

·          “Marcus ama Spendusa”.

·          “Thyas, não ame Fortunatus”.

·          “Tire seus olhos e seu desejo da mulher de outro cidadão. E ponha decência nessa cara!”

Sexo

·          “O meu é o maior de Pompéia! Lucius Albucius”.

·          “Serei sua por 2 dinheiros, pagos adiantado. Íris, prostituta”.

Provocação

·          “Ampliatus Pedania é ladrão”.

·          Stronnius é um ignorante”.

·          Apollinaris, médico do Imperador Tito, deu uma grande cagada aqui!”. Parede de latrina pública.

Esportes

·          “Vinte pares de gladiadores de Decimus Lucretius Satrius Valcus e dez pares de gladiadores de Decimus Lucretius Valens, seu filho, lutarão em Pompéia nos dias 8, 9, 10, 11 e 15 de Abril. Teremos também combates com animais selvagens e coberturas de lona para o público. Aemilus Celer pintou esse aviso sozinho, sob a luz da lua”.

Curiosamente, a abertura dos episódios do seriado “Roma” exibe graffitis originais animados pela produção do filme.

E, paradoxalmente, se não fosse a erupção assassina do Vesúvio, pouco ou quase nada disso teria chegado até nós. Pompéia teria evoluído para se transformar em uma cidade italiana comum, com sinais da ocupação romana aqui e acolá.

 

Astromar em Pompéia

Estive em Pompéia duas vezes. Na primeira, como integrante de uma excursão esbórneo-cultural do 4º. ano de Engenharia da PUC/RJ. Ficamos quase 2 meses na Europa e chegamos a Pompéia para um bate-volta vindos de Roma, de ônibus. Naquela época, o museu de objetos ficava na cidade e haviam partes de visitação proibida a mulheres.  Uma delas era o lupanar. A outra era uma imagem de Príapo, avantajado deus da fecundidade, oculta sob porta metálica na entrada da Casa dos Irmãos Vettii, comerciantes ricos e baladeiros. O carabinieri encarregado de mostrar pornografia aos turistas do sexo masculino avisou que ia abrir a portinhola por 30 segundos, “senza camera fotografica,prego”! Não deu outra. Mal ele escancarou a sexo-imagem e o Sertã, colega de Colégio, Faculdade e Marinha disparou sua implacável Olympus Trip. O guarda deu uma porrada na porta e fez um alarido querendo confiscar a o filme do delinqüente turista estudantil. Lembro-me que Schneider e eu escoltamos o Sertã de fininho até dentro da proteção do ônibus da Polvani. E a heróica foto hoje corre pela Internet.

Na segunda viagem, já executivo da IBM e muito bem acompanhado, cheguei a Nápoles de trem, vindo de Roma. Dali nos acomodamos em um quase bonde, da Cia.Circumvesuviana, que sacolejou por uma hora sob a sombra sinistra daquele monstro assassino certamente prestes a explodir. Ficamos na magnífica Sorrento, em villa renascentista cravada no cume de um interminável penhasco. Mergulho em linha reta no mar turquesa da mediterrânea Baía de Nápoles. Outro trem-bonde nos deixou, em minutos, na entrada de Pompéia. Vi diferenças. Percebi, atrás de calçadas, barrancos com vegetação. Eram partes ainda não escavadas. Dava para reconhecer as pedras vulcânicas que ocultavam quase metade da cidade. Terminara a segregação feminina. No lupanar e na imagem do magno Príapo, mocinhas colegiais davam risinhos e apontavam para o outrora proibido. Os corpos petrificados ainda provocam espanto, mas não tanto quanto a cratera estilhaçada do Vesúvio ao fundo do foro romano da redescoberta Pompéia. Vou voltar lá uma terceira vez. Tenho de ver a Pompéia que foi levada para Nápoles. Farei isso a caminho da Grécia.

 

Pompéia, perspectivas

Pompéia já sobreviveu quase dois mil anos após sua morte. Soterrada sob detritos vulcânicos, sem ar e sem umidade, ficou protegida de novas ameaças. Mas elas chegaram e vêm danificando esse Patrimônio da Humanidade da UNESCO. Bombardeio aliado na  Segunda Guerra Mundial, por engano. Poluição. Turistas predadores. Terremotos. Por isso, há uma discussão entre os arqueólogos se seu trabalho não deveria se ater somente à manutenção do que já foi escavado. O que ainda está enterrado deveria ficar preservado para futuras gerações, quando as tecnologias arqueológicas estiverem mais avançadas, com garantia de maior proteção e preservação. Mas a maior ameaça ainda é o Vesúvio. Ele não está extinto. Permanece ativo e fumegante. Em 1944 uma grande erupção despejou lava na vizinha San Sebastian. Vinte e sete mortos no desabamento de residências. E, segundo relato de meu pai, meses depois as árvores de Copacabana estavam cobertas de cinzas do Vesúvio. Cientistas garantem, com 98% de certeza, que uma grande erupção ocorrerá nos próximos 100 anos.

Como a população de Pompéia, os 3,5 milhões de habitantes da Baía de Nápoles não se preocupam com o Vesúvio. O resgate preventivo dessa gente levaria no mínimo uma semana. O Vesúvio não espera tanto tempo depois que explode.

Mas, enquanto isso, o que fazer com Pompéia ? Sigo a corrente de quem diz que Pompéia deve ficar isolada na sua cápsula do tempo. Deixem Pompéia descansar, enterrada.

 

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20 respostas para POMPÉIA

  1. Delicado da Kibon disse:

    Um concorrente de Tacius, Mestre Astromarus, proferiu mais uma aula riquíssima de história, tornando o lado mais positivo da cidade e dos habitantes de Pompéia num "clin d’oeil" de modernidade com seu característo humor mordaz. Não conheço ninguém capaz de dar uma aula dessas!
    DK 

  2. Raspa do Tacho disse:

     
    O passado de Pompéia é muito rico mas, para mim, Pompéia é, como vc tb viveu, o início de uma excursão esbórneo-cultural (mto bom isso) organizada pela PUC que eu ia na aba pois ainda estava no segundo grau.
    Morria de vontade de ver aqueles escravos petrificados, a civilização soterrada pelas cinzas implacáveis do vesúvio mas o navio ancorou em Nápoles atrasado e perdi esse passeio.
    Mandaí a foto pornofossilizada do Sertã.
    Estamos de partida para Buenos Aires e caso o sr. deseje algo das terras portenhas, please, be my guest.
    Saludos cordiales
    Raspa do Tacho

  3. Sertã, o Paparazzo de Pompéia disse:

    Sensacional!! Eu particularmente sempre tive muito interesse pelas coisas romanas e gregas e Pompéia é um excelente exemplo de como as duas culturas se misturaram. Faço apenas duas ressalvas com relação à minha participação naquele inesquecível episódio da foto, ambas de importância quase nula. A primeira é que não fui seu colega na Marinha já que não servi ali. E a segunda é que a câmera realmente era uma Olympus mas não do modelo Trip. Como vê, coisas totalmente sem importância e que não tiram o brilho e a qualidade do seu sensacional relato.
    Um grande abraço.
    R.Sertã

  4. Professor Astromar disse:

    Thanks, Sertã, imortal Paparazzo de Pompéia. Esclareço que o quesito Marinha deve ser debitado à geriatria 3Colores. Já o modelo Trip, da Olympus, foi uma malandragem do autor. Era o modelo da minha, o único que me lembrava daquela época … E também deixei de fora o detalhe do sobretudo do Schneider, réplica da capa do Inspetor Clouseau, desafeto da Pantera Cor de Rosa.

  5. Sertã, o Paparazzo de Pompéia disse:

    Aquele sobretudo realmente era uma coisa!!!! E o Xeineider uma figuraça, mas que funcionou admiravelmente, tal como vc, como escudeiro para este locutor que vos fala conseguir escafeder-se com aquela preciosidade (na época) de foto.
    Abs,
    R.S., o P.de P.

  6. Luz de Pedra disse:

    Adorei, adorei. Já fui ver vôos para ir a Pompéia…….
    Gostei de saber da sua 3ª ida + Grécia. Ano que vem?

  7. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Confeço que eu mais a turma aqui fiquemo tudo cabreiro com essa história de cidade fantasma enterrada por vulcão. Tem cangaceiro dormindo fazendo xixi nas perneira por causo das estauta de gente caveira. É que nóis se alembra do cabra Tiro Fedido, que caiu na cratera do Morro do Ralo Podre e sumiu. Pois tu num sabe que a Xica Tarada do Tarô, a mãe-de-santo mais véia do Nordeste, veve dizendo que o morro é um vulcão apagado quando o sertão inda era mar. Por isso, o fumacê amarelo, com jeitim e cheirim de enxôfre que sai pela boca do Ralo Podre, é peido do demo digerindo o coitado do cumpadi.
    Boa essa idéia de Cave Canem pra avisá os inxirido pra tomá cuidado. Tár quár, já espalhemo um montão de praca aqui acolá pra esse povo se cuidá. Que que tu acha ?  Na subida da cratera, Cave Peidus. Na entrada do acampamento, Cave Nonatus. No curral das vaca, Cave Renan. No matagal da beira do riacho, Cave Siris & Pirilampus.
    Já o caboco negão Tição da Estrovenga anda dizendo que esse Príapo de avantajado num tem nadinha. Garante que se o metido passá uma noite aqui cum nóis sai de manhã falando fino, desmunhecando que nem o Cordoviu, rebolando igual anta no cio, pedindo emprego no lupanário da Neuzona do Buraco Quente e cantarolando Ave, ave, aviado ! 
    Mas vosmecê devia visitá nóis pra fazê uns arqueologizamento dos grafiti feito com carvão grafite que arrodeia as pedra aqui em volta, acoite de cangaceiro desde os tempo do bisavô do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. Olha só o que já achemo: 
    - Padim Ciço é pedófilo.
    - Os marimbondo de fogo do Zé Sarney, só tem fogo é na bunda
    - Lula bebe, ronca, e num alevanta nem com tapioca de viagra.
    - Dona Marisa tá tão esticada, que sua aranha negra virou cavanhaque na papada.
    - Marta é tarada. Dá pra argentino, pra político e até pra torcida organizada.
    - Hugo Chaves é lobo viado. Fala grosso, mas sacode a rabo.
    - Zé Dirceu, nóis num se esqueceu: tua rosca tu já deu.
    - PT & você, si elegê vai sifudê.
    - Sem terra, sindicalista e mensaleiro, se borra de medo dos cangaceiro justiceiro.
    - Pras história pudê contá, só na Escolinha do Astromar.
    Como dá pra vê, seu professô, quando tu tá indo, nóis já fumo e vortemo.
    Sua bença,
    Capitão Raimundo Nonato
    -
     

  8. Luz de Pedra disse:

    As gloriosas do Nonato
    - estauta de gente caveira
    - peido do demo digerindo o coitado do cumpadi.
    - Garante que se o metido passá uma noite aqui cum nóis sai de manhã  falando fino- cantarolando Ave, ave, aviado !- quando tu tá indo, nóis já fumo e vortemo.

  9. Voyeur de Wayzata disse:

    Querido Professor,
     
    Acabo de chegar de uma visita ao Science Museum, acompanhado de meus netos. Levei-os para ver a exposição http://www.smm.org/pompeii/ . Apesar de haver visitado a cidade, nos mesmos termos que você, ou seja, em viagem de prospecção de sacanagem, a consciência não era a mesma. Hoje saí reflexivo e prometendo-me buscar literatura mais detalhada. Cheguei, sentei no PC, li a sua chamada pro blog, vim, vi e… Precisa dizer mais ?…
     
    Obrigado outra vez. V. é um vulcão de LUZ.
     
    VOYEUR

  10. Patrícia disse:

    Maravilhoso este texto, toda a pesquisa e didática do Professor encantam. Io sonno profondo impresionata!
    Que riqueza magnífica de detalhes e imagens.
     
    Obrigada, Professor, por partilhar seu conhecimento.
    Receba meu beijo e minha mais sincera e absoluta admiração.

  11. Gaita disse:

    E pensar que quando você foi a Pompéia pela primeira vez, os siris e os pirilampos ainda não tnham se encontrado nas areias e no mar de Inema. Eu me lembro dessa história. Você me contou na varanda.
    Gaita

  12. Raspa do Tacho disse:

     
    A Rodinha
    Professor que é bom tem aqueles alunos fiéis, que se regozijam das lições que aprendem.
    O senhor tem uma rodinha de pupilos muito divertida. Todos comentam, adquirem conhecimento,mas o melhor de tudo é o divertimento que as suas viagens proporcionam!
    É muito om ver os comentários da galera!

  13. Voyeur de Wayzata disse:

    Banner de SIRIS & PIRILAMPOS…

    Tás com um olhar fulminante, pior que o do Mainardi…

  14. Raspa do Tacho disse:

    Do livro SIRIS & PIRILAMPOS E OS MISTÉRIOS DA MEIA NOITE – EMBALOS LITERÁRIOS DO PROFESSOR ASTROMAR
    Meu querido irmão Professor
    Dando uma folheada no livro, nas dedicatórias, nas recordações, nos títulos inesquecíveis das matérias, no canto da saudade, já ensopei o livro de lágrimas.
    É a sua biografia, sem dúvida, escrita com a lâmina afiada, com o coração apaixonado, com a visão do céu e do inferno.
    Deixando de lado a armadura do Astromar, que não esconde nada, ao contrário, expõe um escritor engraçado, perspicaz, está o meu irmão mais velho, com seus tombos vida afora e sua visão daquele universo que cada um de nós viveu à sua maneira. Você, por ser o mais velho, o único homem, com um peso muito maior.
    Vida que segue, filhos para criar, amigos mundo afora, mindinhos devorados, parabéns.
    Nossos pais iriam adorar o livro, bem escrito, bem diagramado, uma vida.
    Um beijo
    Sua irmã Raspa do Tacho

  15. Faustinho disse:

    Meu caros professor,
    demorei a ler o texto porque queria fazê-lo com calma. Confesso que fiquei impressionado. Pompéia sempre foi um assunto muito instigante. E este, com certeza, foi o melhor texto histórico que você já escreveu. Claro, na minha opinião. Acho até que ele deveria abrir o seu próximo livro. Fiquei supreso também com a história de Herculano. Não sabia que ela também tinha sido atolada. E eu concordo inteiramente com a corrente que defende a idéia de deixar Pompéia enterrada para as futuras gerações. Parabéns, você se superou. Abraços.

  16. Luz de Pedra disse:

    Recebi seu livro hoje. Achei MARAVILHOSO. Está um livro de mãos cheias.

    Parabéns.
    Só de folhear assim rapidinho já me escangalhei de rir tudo de novo.
    Você caprichou nesses anos todos e é muito bom ver esse trabalhão reunido.
    Tem sobrando para a gente comprar????????????????????????????????
    Linda a dedicatória, me emocionou.
    Obrigada
    Luz de Pedra

  17. Narciso Rujol disse:

    Caro Astromar,

    Me lembrei de 1964, e minha visita, como Guarda-Marinha, com o Galli e outros a Pompéia . Subimos o Vesuvio, com o auxílio de uma espécie de cajado. Na descida, descobrimos que teríamos que pagar pelo aluguel do cajado, e simplesmente nos descartamos dele, antes de chegar de volta ao ponto de partida. Parabéns pelas reportagens…

    abs,

    Narciso

  18. Sou Demais disse:

    Meu tão querido Professor Astromar, adorei essa sua história sobre Pompeii! Mas tenho algumas dúvidas:
    1. Quanto tempo demorou essa coisa devastadora?
    2. No dia seguinte, já estava tudo coberto, ou o espirro do vulcão ainda fazia efeito?
    3. Além de Pompéia e Erculano, alguma outra cidade recebeu a visita do gás tóxico ou de outra coisa cuspida pelo vulcão?
    4. Quando as pessoas morriam, suas cuecas, ou outras roupas, evaporavam ou se decompunham? O que acontecia com elas?
    Bom, essas eram minhas dúvidas, e fiquei pensando,todas as histórias que você conta sobre cidades, você já havia visitado elas, então é óbvio que você visitaria Pompéia! Você é DEMAIS, sempre admirei você, e sua capacidade de contar histórias maravilhoras.
    Parabéns!!
    Sou Demais

  19. Pistoleiro do ds disse:

    Meu querido Professor Astromar…
    O vulcão explodiu de dia ou de noite? Porque na foto do blog está muito escuro…
    Bom…não tenho mais perguntas, mas vou fazer comentários.Parece que a fumaça do vulcão foi um cara que saiu correndo em alta velocidade, entrou dentro do Vesuvio lá no fundo e soltou um pum tão, mas tão fedido, que parecia um gás tóxico e todo mundo desmaiou!
    Pistoleiro do DS

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