BRAUNSCHWEIG – DA ALEMANHA MEDIEVAL À VIZINHANÇA COM A VOLKSWAGEN


BRAUNSCHWEIG – DA ALEMANHA MEDIEVAL À VIZINHANÇA COM A VOLKSWAGEN

…passando por Hitler e pela Guerra Fria

Acordei de um sono profundo e, na janela do quarto de hotel, só conseguia enxergar a silhueta negra das flores na jardineira. Já era noite. Vestido contra o frio, passei pela recepção ecoando um “guten tag” e avancei escuridão adentro. Sombras cinzas e sombras úmidas cortadas por tímidos fachos de luz adornavam meu percurso, no piso irregular de granito torneado pelo tempo. Percebi ruínas de uma muralha, atravessei o arco de uma ponte de pedra que cobria um riacho cansado de tanto escorrer por ali séculos afora.  Um arrepio de frio avisou que eu havia voltado a um passado.  A praça do mercado, vazia, o castelo, uma coluna coroada por um leão coroado e a bruma de final de inverno pareciam não deixar dúvidas que aquele passado era medieval.  Braunscheweig fica no Norte da Alemanha, mas também  fica na Idade Média. Encontrei a pequena cervejaria mal iluminada por velas, atravessei a porta torta e baixa e encontrei meus colegas da IBM Germany que, todas noites, tomavam umas canecas pós-expediente naquela birosca secular. Diante dos colegas gigantescos, as dimensões do estabelecimento afirmavam que o alemão medieval era muito baixo. A certeza veio quando uma lanterna na escadinha para o segundo andar incendiou meus cabelos.

 O túnel do tempo que me levara até ali partira naquela manhã do aeroporto de Hannover, prosseguiu por uma autobahn  vertiginosa, no BMW de meu colega Frank Gündel e me largara na porta daquele simpático hotelzinho estilo enxaimel com jardineiras floridas na janela. Enquanto a robusta e rosada recepcionista me cobria de sorrisos e de willkommen’s, Frank me recomendou repouso pela longa viagem e marcou o encontro na cervejaria logo após o trabalho. Quando a recepcionista finalmente me entregou a chave do quarto e parou de falar, um banho me projetou no meio daquele mar de penas de ganso em forma de travesseiros, colchão e edredon. Nocaute imediato de sono.

Aquela viagem no tempo foi uma surpresa. Corria o ano de 1986 e eu estava na IBM Brasil como Gerente da Conta Volkswagen (interessante como o verbete “gerente” desapareceu das carreiras modernas, hoje todos são “executivos” de alguma coisa, com excesso de peso na pose e de vácuo de conteúdo), responsável pelos negócios da Big Blue com a montadora alemã em território nacional. A viagem tinha cunho político e comercial. Por um lado, estávamos negociando a modernização do parque de informática em três fábricas brasileiras, por outro, o relacionamento junto aos tomadores finais de decisão era fator crítico de sucesso. Em Braunschweig ficava o endereço da Unidade de Negócios da IBM junto à sede mundial da Volkswagen, em Wolfsburg. Duas cidades vizinhas, interdependentes, mas separadas por séculos em suas fundações.

Braunschweig vem do século VII, foi palco de lides medievais e até capital do império alemão. Já Wolfsburg foi fundada em 1938, para abrigar a então pequena Volkswagen, que logo virou engrenagem importante na produção industrial da Alemanha de Hitler. Braunschweig foi sede da 31ª. Divisão de Infantaria da Wermacht e recebeu milhares de prisioneiros do leste europeu para trabalhar nas linhas de montagem da Volkswagen. Essa unidade do exército nazista participou das invasões da Polônia, Bélgica, França e União Soviética e foi praticamente destruída na retirada da estepes russas geladas. Com esse papel na guerra e com sua vizinhança industrial, Braunschweig sofreu muito com bombardeios aliados. Sua parte mais antiga foi bastante atingida. Milagrosamente, ficaram de pé algumas igrejas, residências, parte do principal castelo e a praça do mercado.

O primeiro registro sobre Braunschweig aparece em um documento encontrado numa de suas igrejas. Datado de 1031, fala da fusão de duas aldeias, uma liderada pelo Duque Bruno II e a outra, pelo Conde Dankward. Seu primeiro nome, Brunswick homenageava Bruno e os rios que conectavam ao região ao Mar do Norte. Com tal localização, a vila logo se transformou em centro comercial, onde produtores e comerciantes se encontravam para beber cerveja, descansar e fazer negócios. Em torno do castelo Dankwarderode, do Duque Henry the Lion surgiu a praça do mercado e a coluna de Henry como leão coroado. Braunschweig passou a ser conhecida como Cidade do Leão, principalmente quando o filho de Henry, coroado imperador Otto IV, a fez centro da Europa, em 1209, ao torná-la capital e Cidade do Imperador.

Nos intervalos das negociações técnicas e comerciais sobre os data centers da Volkswagen do Brasil, numa época sem internet e sem celulares, meus colegas alemães me apresentaram à Ala 54, então uma das mais modernas linhas de montagem do mundo, totalmente robotizada, à cerveja escura Mumme, produzida há 600 anos em Braunschweig, tentaram –sem sucesso – me fazer comer joelho de porco gelatinoso, e me levaram até à antiquíssima Hornburg, ali na beirada da fronteira com a Alemanha Oriental. A vila de Hornburg surgiu no ano 994 e cresceu em velocidade inferior à passagem do tempo.

Suas construções centenárias de 400, 600 anos, com estrutura de madeira e paredes de massa parecem obra de arquitetos e pedreiros bêbados. Deformadas, embarrigadas, tortas, com janelas quase niveladas com a rua, são o resultado de guerras que nunca passaram por ali, de séculos de paz em plena Alemanha.

E disfarçam suas arestas da Guerra Fria, pois estradas rurais que chegam e partem de Hornburg exibiam temíveis placas de ACHTUNG!  Foi assim minha apresentação à Alemanha dividida de 1986. Vi cercas de arame farpado, imensos campos minados, com torres de observação e até bunkers, e tive minha curiosidade retribuída pelos binóculos de guardas armados de metralhadoras, e cães pastores alemães.

Dar as costas à Alemanha comunista ao voltar a Wolfsburg foi uma sensção de alívio acompanhada por prosits pelo sucesso das negociações. Se havia chegado à Alemanha dirigindo-me a todos, como de praxe, formalmente, por Herr,  parti liberado para dirigir-me a eles (e vice versa) pelo primeiro nome. E, naturalmente, trouxe na bagagem uma belíssima coleção de miniaturas de veículos Volkswagen/Audi e a autorização para formalizar a proposta da IBM.

Lá se vai mais de um quarto de século desde essa viagem. O muro de Berlim caiu, as Alemanhas se unificaram, a Ala 54 se obsoletou, a Volkswagen de Wolfsburg ganhou prêmios de arquitetura pelos seus novos e belíssimo edifícios de vidro, eu me aposentei da IBM, minha vida mudou, a sociedade mudou e Hornburg entrou em Hollywood (detalhes abaixo, no Caderno de Anotações).

Mas duas coisas permaneceram. Tive a Volkswagen como cliente por 27 maravilhosos anos e ainda mantenho amizades que lá cultivei. Aliás, são poucas as vezes em que eu entre ou saia de minha residência sem voltar àquela primeira noite na Braunschweig medieval. Uma gravura alemã, pendurada junto à porta está sempre me chamando.

Caderno de anotações

1.A moderníssima sede da Vokswagen A.G. pode ser vista em cenas do filme “Trama Internacional” (The International), com Clive Owen e Naomi Watts. É um thriller de ação em alta velocidade, com personagens como Audis, Passats e Touaregs. Fora o edifício principal da montadora, que faz o papel da matriz de um banco em Luxemburgo.   http://www.imdb.com/title/tt0963178/

2.A antiquíssima Hornburg entrou para Hollywood. Foi cenário do segundo filme da trilogia “O Senhor dos Anéis”. A fortaleza fictícia de “Helm’s Deep” é inspirada no Castelo de Hornsburg. No filme aparece na sequencia “A batalha de Hornburg”, conforme projetada por J.R.R. Tolkien, autor de “Lord of the Rings”.

 

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TANGO TRICOLOR


TANGO TRICOLOR EM CORDEL PARA GARDEL

(Pelos repentistas Lamparina & Caititu e Capitão Raimundo Nonato – Chefe de Bando)

 TangoTricolor

Pois óia aqui, ó seu minino: fubecaram o Timão argentino.

O Fluminense das três colores carcou Boca Juniors no fiofó.

Bombonera virou circo dos horrores, Maradona chorava cheirando seu pó.

Astromar e Claudio Graça, sem medo de desgraça,

arrasaram na Argentina, com taxista, doleiro e inté minina.

Usando modelitos do Fluminense, coloriram a Calle Florida.

Aos berros de Nense, Nense, Nense, celebraram com River, Vélez, e a própria torcida.

Mas El Palacio de La Papa Frita ficou na saudade dos anos 60 e das viagem de trabaio.

Com comida gordurenta e estafe centenário,

levaram o povo pra outros bares na milonguenta Buenos Aires.

Pois o melhor bife da cidade, supimpa qui nem carne de sol, nem mais, nem menas,

é o bife de chorizo, receita lá do Las Nazarenas.

Disfarçados de vovôs-garotos, de bermuda, camiseta chique e tênis de corrida,

lá se foram os grisalhos brotos, de táxi, pro estádio de morte ou vida.

Carioca malandro levado da breca, Claudio Graça levou birita na cueca.

Passou tranqüilo pela policia argentina, que preferia apalpar as partes das minina.

Primeiros a entrarem na Bombonera, no calor furibundo de sertão nordestino,

até começar a batucada brasileira, ficaram zé pelados da cintura pra cima.

Uniformes e bandeiras tricolores, gritavam as cores do coração,

xingando os argentinos já perdedores, que o céu iluminava com um luar do sertão.

Vitória épica maior não tinha, coisa do Profeta e do amigo Gravatinha.

E a torcida do Boca, com cara de pum, pela carcada do Flu por dois a um.

Sem voz, sem água, quase sem ar… Pobre coitado do Professor Astromar,

desceu as escadas fedidas de pipi, tomando uísque quente, igual nunca vi.

Lá fora a polícia argentina tratou a tricolagem como gente fina.

Mas avisou “Vayan com Diós, rápido como locos,

porque lla viene la tsunami de Boca, asesina como pocos”.

Como corredores que são de maratona e ex-conquistadores de moça e dona,

Astromar e Claudio dispararam por 2km de avenida.

Túnel de bocalinos atravessaram, até que um taxi lhes salvou a vida.

Sem sono pela carga de adrenalina,

comeram sanduíches de empanada com sopa de alfajores,

mais dulce de leche com vitamina,

felizes crianças tricolores.

Depois de 25 anos de estádios ausente,

vem uma vitória do Flu, de coração e mente.

Sem dúvida, Astromar, “es un pé caliente”.

P.S. Tudo bem, muito bonito. Mas cangaceiro arresorve nadica no grito. Si nóis tuvesse na Bombonera,  furava esses Boquete com tiro de fusível e golpe de peixeira.

Onjasiviu, sô! Vá pra FIFA que pariu!

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AZAY-LE-RIDEAU, PORTAL PARA OS CASTELOS DO LOIRE


AZAY-LE-RIDEAU, PORTAL PARA OS CASTELOS DO LOIRE

 

Segundos após atravessar o majestoso portão secular, desliguei os faróis do pequeno Renault Clio vermelho e o castelo se iluminou. A silhueta elegante de Madame Céline nos aguardava para as boas vindas diante de uma escadaria de mármore que  atestava a nobreza de Le Gerfault. Na vastidão dos castelos do Vale do Loire, Le Gerfault parecia até modesto em suas dimensões. Mas era magnífico. Três lances de escadas de madeira antiga carregando malas foi um esforço quase despercebido, facilitado pelas incríveis peças que faziam meus olhos revirarem 360 graus. Troféus de caça e quadros nas paredes, imagens e retratos a óleo de personagens severos, afetados ou orgulhosos, em suas perucas, brocados e fivelas, fora lanças, espadas, punhais, arcabuzes e “pistolets”, porcelana com “côte d’armes”, prataria. Um mergulho no túnel da História, um retorno ao tempo dos rococós e mesuras da pomposa França de sonsa realeza. Tudo como prefácio aos inacreditáveis aposentos para turistas. “Une chambre royale” quase toda em amarelo, decorada com afrescos nas paredes e no teto, acolhendo gigantesco leito adornado pelo tradicional baldaquim com cortinado de rendas, móveis com gavetões pesadíssimos e, naturalmente, algumas concessões à modernidade. Encanamento exposto, para água quente e fria, um discreto “pissoir” e uma banheira dourada. Os janelões do quarto se abriam para os decibéis de silencio da imensa propriedade. E, do acesso ao pequeno terraço, jorrava um  facho de luz noturna projetado pelo  deslumbrante luar do Loire.

O castelo Le Gerfault, na província Pays de Azay-Le-Rideau, foi uma feliz escolha da amiga fluente no Francês (o meu, sepultado numa Alliance Française de1960, só foi retomado recentemente). Em um catálogo de pousadas de charme, se destacava , com discrição, das demais opções. Partimos da  Normandia, encantados com a calmaria secular do interior da França, deixando o Renault Clio rodar por estradas vicinais, em crescente semelhança com os caminhos das antigas carruagens. Verdadeiros túneis vegetais formados por árvores atemporais. Centenas de estradas iguais a essas convergem para Azay-le-Rideau, uma pequena vila milenar, endereço de Le Gerfault, no Vale do Loire.

O cenário da região é de conto de fadas, com uma concentração incrível de castelos de todo tipo. Cercados por muralhas medievais, protegidos por pontes levadiças, avançando rio adentro, vizinhos dos próprios bosques de caça, coloridos por jardins deslumbrantes, inspiraram histórias famosas como ”A Bela Adormecida”, “Os Três Mosqueteiros” e “As Aventuras de Tintin”. Localizado no centro da França, a apenas 120 km de Paris, o Vale do Loire é de fácil acesso. Existem até excursões “bate-e-volta” que, seguramente, são um insulto à região mais poética da França. Natureza exuberante, histórias de reis e rainhas e astral absolutamente romântico promovem a suave força de seus diferenciais. A jornada até os dias de hoje começa com a vocação militar dos castelos medievais do Loire cedendo vez ao ambiente político e de lazer incentivado pelos reis franceses da Renascença  que, convocando  grandes arquitetos da Europa, deram forma a um conjunto maravilhoso de obras dos grandes mestres.

Senti de imediato um carinho enorme por Madame Céline, administradora de Le Gerfault. Mulher forte com aparência frágil, certamente com mais de 70 anos vividos, lembrava, e muito, minha tão querida avó materna.  Cabelo grisalho sempre arrumado, vestida de cinza ou de variações de violeta, discreto colar de pérolas, era ela quem preparava o “pétit déjeuner” movido a ”croissant”, baguetes, manteiga, ovos, queijos. E as geléias que ela mesmo fazia, como as de minha avó. Enquanto nos servia, ia descosturando histórias. De seu marido, arquiteto rural, de sua filha pintora, de seu filho violinista da “Orchestre de Paris”. De Laurent, seu papagaio brasileiro que voava solto pela propriedade, assoviando os primeiros acordes de “La Marseilleuse”. Contava que o Le Gerfault pertencia, desde 1910, à mesma família de marqueses e que mantinha uma produção agrícola.  Às voltas com seu “tricot”, falava, como que para si mesma, dos estragos que a Revolução Francesa havia feito aos castelos, das dificuldades para manutenção das propriedades e da alegria da visita dos netos.

A tradição caçadora da nobreza francesa e a busca da proximidade ao poder e do poder às suas amantes casadas fizeram crescer a constelação de castelos do Vale do Loire, pois a temporada de veraneio real dirigia os movimentos das altezas, excelências, eminências e , naturalmente, cortesãs. O rei escolhia onde passar a temporada, e a corte o seguia. Assim, a maioria dos castelos dispunha de aposentos reais e dezenas e dezenas de quartos sem banheiro para acomodar majestades e sua “entourage”.  Vem daí a idéia das suites imperiais e presidenciais de hotéis e motéis mundo afora.

Na Revolução Francesa, incendiado pelos “bonnets rouges” ou “sans coulottes”, uma espécie de MST da época, o povão destruiu e saqueou muitos castelos. Tesouros mudaram de mãos. O empobrecimento das elites ou dos herdeiros de ricaços guilhotinados fez com que muitos dos entãos trezentos castelos fossem demolidos. Como dizem que a história se repete, corre à boca pequena que Louis XIV, o Rei Sol, tem sua versão nordestina em Lula da Silva, o Nunca Antes. Isso provoca uma esperança de vê-lo alcançar o mesmo destino do comilão Louis XVI, decapitado, com torcida e tudo, na Place de La Concorde. Durante a I Grande Guerra e a II Guerra Mundial, castelos foram ocupados por militares que ali fizeram seus quartéis-generais. Hoje, os remanescentes do esplendor daquela era são considerados Patrimônio Mundial pela UNESCO, ainda que propriedades particulares ou do governo francês.  Alguns abertos à visitação pública e outros transformados em pousadas ou hotéis.

Madame Céline foi fundamental nas recomendações sobe meu  “rallye” no Vale do Loire. Os castelos se dividem entre os de visita obrigatória e os outros. Têm histórias parecidas. Um detalhe aqui, outro ali, chamam a atenção para esse ou aquele da segunda lista. Duas visitas por dia, para poder aproveitar a região. E assim foi. Da incrível lista de Madame, brotariam decisões. Amboise, Blois, Chinon, Saumur, Chambord, Villandry, Tours, Chenonceau, Chéverny, Azay-le-Rideau.

Chenonceau – O mais espetacular . Localização sobre o Rio Loire, projeto excepcionalmente criativo, jardins seculares irrepreensíveis, coleção riquíssima de objetos de arte (quadros de Tontoretto, Rubens, Murillo, Van Loo, tapeçarias de Flandres), fora o mobiliário e a decoração. Até hoje, sempre foi administrado por mulheres. Construído em 1513, teve em Catarina de Médici sua segunda gestora e em Madame Dupin sua dama de ferro que enfrentou e venceu os vândalos da Revolução Francesa.

 

Chambord – O mais conhecido castelo em todo o mundo, devido à sua arquitetura renascentista. Dizem que foi projetado por Leonardo da Vinci. Ainda mais por conta da genial escadaria em espirais que nunca se encontram. Construído de 1519 a 1547, gigantesco, é o maior entre todos no Vale do Loire. Capricho do Rei François I para ficar próximo de sua concubina, Condessa de Thoury, cujo marido caçava ali perto e colecionava galhadas e mais calhadas … de cervos. Chambord era a “cabana de caça” do rei, que preferia suas residências em Bois e em Amboise para o dia a dia. Anos mais tarde, seu piro-megalomanaco descendente, Louis XIV, acrescentou a Chambord estrebarias para 1.200 cavalos, apenas para, afetado e amuado, abandonar a propriedade logo depois. 

 

Cheverny – Imaginar que essa propriedade está nas mãos da mesma família há sete séculos é aventurar-se em uma das mais incríveis e inimagináveis histórias de sobrevivência política da humanidade. Essa gente sobreviveu, pelo menos, à Revolução Francesa, a Napoleão, a duas Guerras Mundiais a monstruosas crises econômicas e, certamente, a centenas de milhares de intrigas. Jóia rara, ainda habitada por seus donos, o castelo está absolutamente preservado, como no dia da inauguração. Nada foi mexido.  Cheverny está aberto à visitação pública desde 1914, proporcionando ao turista admirar-se com suas coleções de móveis, tapeçarias e objetos de arte. E, naturalmente, com um canil que, mesmo de longe, permite ver a agitação de caudas de ponta branca rabiscando nada: a linda e agitada matilha de setenta cães, religiosamente exercitados duas vezes por semana, em caçadas nos bosques de seus dono.

Amboise  pertence ao horizonte. Ou vice-versa, o horizonte pertence a Amboise. Do alto de um morro, às margens do Loire, domina a cidade abaixo e quase toda a região. Pode ser visto por quilômetros no deslocamento entre outros castelos. Data de 1515 e, segundo fontes da história, teria também sido projetado por Leonardo da Vinci. Amigo do rei François I, Leonardo ali passou seus últimos três anos de vida. Foi sepultado em uma capela do castelo e, segundo desejo deixado em testamento, teve o funeral acompanhado por sessenta mendigos.

Chinon – Um magnífico sobrevivente da Idade Média, muito marcado pela presença de Henrique II, o Plantagenet, rei da Inglaterra, que ali faleceu em 1189. Pai de Ricardo Coração de Leão, Henrique II ocupou uma das quatro sepulturas postadas aos pés do altar da catedral gótica da Abadia de Fontevraud (objeto de artigo deste humilde literato em 23 de maio de 2008). Foi ali também que, em 1429, Joana D’Arc demonstrou sua lealdade ao futuro rei da França, Charles VII.

Saumur – Originalmente fortaleza do século XIII, compõe uma belíssima foto de cartão postal. às margens do Loire e está no caminho para a Abadia de Fontevraud. Apesar de agora ser apenas um museu municipal, é reverenciado pela extensão de mansões renascentistas que protegem sua base. Especialmente uma delas, Hotel Anne d’Anjou, esplandescente em seus afrescos italianos, seus jardins e sua scada veneziana em ferro fundido.

Mas é no passeio descompromissado de um fim de tarde pelas ruelas de Azay-le-Rideau que os tempos de muito antigamente retomam a vida, seja pelos logotipos comerciais de outrora ainda avisando a clientela de agora, seja no entra e sai despercebido das pequenas casas,ou  no barulho de água que passa ou cai e no toque libertino de brisas em folhas. Por ali, o relógio volta ao homem troglodita, que deixou para trás suas fazendolas, seus utensílios toscos, seus esconderijos subterrâneos. Ressurge Azay Ridel, cavaleiro francês do século X, que construiu a primeira fortaleza da região e originou o nome Azay-le-Rideau. Ecoam ainda os xingamentos dos residentes à passagem da carruagem de Charles VII, em 1418, respondidos com o massacre de 351 habitantes e com o incêndio da até hoje pequena vila (em decorrência então apelidada de Azay-le-Brûlé).  Testemunha desses acontecimentos, o castelo Azay-le-Rideau, também obra prima renascentista comissionada por François I, pode ser visto no caminho para o restaurante Les Grottes.

Lugar ideal para qualquer tipo de romance. Falado, olhado, escrito , fotografado, filmado, ou até mesmo degustado, o jantar no Les Grottes marcou minha última noite em Azay-le-Rideau. Posicionado dentro de uma autêntica gruta troglodita, tem serviço e cardápio de ótima qualidade, do tipo que deixa saudade antes de sair somada com vontade de voltar.

Na manhã seguinte, passei mais uma vez pelo túnel de árvores formado já do enorme portão de ferro de Le Gerfault. Outro treino de 10km pelo corredor de abóbadas verdes que se repartiam em incontáveis de outros, num labirinto  onde confusos pontos cardeais  acabaram por me trazer de volta ao ponto de partida, pingando suor, vencendo o relógio e vendendo saúde, mas então saudado de forma inconfundível pelos acordes nacionais do papagaio Laurent. Os momentos de despedida em Azay-le-Rideau passaram pelo fechamento de malas e carregamento do carro, antes do último “pétit dejeuner” com Madame Céline. Reparei, com atenção, suas mãos de vovó pilotarem profissionalmente a maquineta de cartão de crédito, antes de ser brindado com mais um sorriso afetuosamente protocolar. O suficiente para vencer a vergonha de meu francês das “Organizações Tabajara” e, num esforço supremo, fazer a pergunta que me alfinetava desde o primeiro dia: “Madame Céline, qui êtes vous?” Bingo. Agora sim, num sorriso como quase o de minha avó, ela respondeu, “Je suis Madame la Marquise”.

Passagens

A vida dá voltas que surpreende até o próprio destino. Coração esvaziado, um ano depois cruzava o Loire em companhia de meus pais, em uma travessia da Normandia até Genève. Havíamos deixado Saumur naquela manhã, após meu pai ter realizado o sonho de ver o túmulo dos Plantagenets, na Abadia de Fontevraud. De repente, os quilômetros devorados pelo Vectra negro começaram a me parecer familiares. Placas familiares. Túneis vegetais familiares. Parei o carro. A seta não deixava dúvidas. Azay-le-Rideau, 3 km. Logo adiante estava defronte daquele portão de ferro tão conhecido. Le Gerfault, na minha frente. Coração doeu. Saí triste na foto. Foi a última foto que meus pais tiraram de mim. Dali a algumas semanas, meu coração se despedaçou com a partida deles. Mas a vida dá voltas que surpreende até o próprio destino. Pouco mais de um mês depois da perda, apareceu a doutora cirurgiã que recolheu os cacos de meu coração, cuidou dele e iluminou minha vida para sempre.

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MANASSAS – 150 ANOS DA PRIMEIRA BATALHA DA GUERRA CIVIL AMERICANA


MANASSAS – 150 ANOS DA PRIMEIRA BATALHA DA GUERRA CIVIL AMERICANA

…mas os fantasmas continuam lá

O galope dos cavaleiros confederados era um espetáculo lindo. Atravessavam a ravina levantando poeira, sabres reluzindo ao sol de um céu azul imaculado. Mas não havia qualquer ruído, nem dos cascos dos cavalos, nem de metais, nem dos tiros de pistolas e nem o imortal “rebel yell” (o estridente grito de guerra confederado). Um bosque estreito separava a cavalaria da Interstate 29, a Battlefield Parkway, com seu tráfego de caminhões e vans. Os cavaleiros entraram no bosque e sumiram. Não deixaram rastros pelo caminho. Evaporaram. Depois de alguns minutos, chegamos à conclusão que, mais uma vez, havíamos vistos fantasmas.

Os Estados Unidos estão comemorando os 150 anos da Guerra Civil Americana. Entre 12 de abril de 1861 e 9 de abril de 1865, 3 milhões de soldados e 600.000 mortos depois, uma nação dividida se unificou para sempre. Em discussão, os direitos de cada estado, a cultura sulista e a instituição escravocrata.  Os primeiros tiros foram disparados, por canhões, contra o Fort Sumter, South Carolina. Os inimigos Norte e Sul, ainda verdes e inexperientes, trocaram salvas de artilharia até esgotar a munição do forte. Entre mortos e feridos, todos se salvaram, menos uma mula de carga, abatida com estilhaços de uma explosão.

Após essa escaramuça, os inflamados discursos políticos foram substituídos por um ruidoso espírito marcial varonil. Multidões de voluntários, oriundos de fazendas, lavouras, oficinas, escritórios, lojas, mansões se apresentaram para os combates. Os dois lados esperavam uma guerra fácil e rápida, talvez até resolvida em uma única batalha. Cada um achava que o inimigo era fraco e covarde. Um festival de bravatas que faria de Luiz Inácio Lula da Silva um cônego orador. Não tinham noção do que era ou do que seria uma guerra. Despedidas emocionadas separaram pais, filhos, sobrinhos e amigos do seio de suas famílias. Bailes e festas, convescotes e saraus, paradas e bandas marciais agitaram cidades e vilas antes da partida dos verdes combatentes.

Em Washington, capital do Norte e em Richmond, capital do Sul, entre bebedeiras e muita ordem unida, os exércitos passaram a Primavera de 1861 em um processo de transformação de nada em coisa nenhuma. A pressão política sobre Abraham Lincoln disparou o movimento das tropas do Norte, na chegada do Verão. “On to Richmond!”, gritavam manifestantes, multidões e manchetes de jornais defensores da causa nortista. “Hooray for Dixie!”, ecoavam os partidários do Sul.

Um alarido tomou conta das ruas de Washington, quando, em 16 de julho de 1861, regimentos e mais regimentos, somando 35.000 soldados, marcharam em direção a Richmond, na invasão dos estados rebeldes. Para começar e acabar com a guerra. Colhendo amoras e framboesas pelo caminho, parando em riachos para encher cantis na sombra do arvoredo, a tropa seguia mais em ritmo de picnic  do que de combate. Tanto que políticos, madames e proles resolveram acompanhar, em charretes familiares, a enorme procissão, levando lanches, sombrinhas, champagne e refrescos para assistir ao belicoso espetáculo que se aproximava. Por outro lado, um pouco mais sério e inferiorizado numericamente, o exército confederado percebeu a posição estratégica do vilarejo de Manassas, entroncamento ferroviário que poderia receber comboios de reforços do interior da Virginia, onde tropas já estavam aquarteladas há meses.

E foi assim que, casualmente, Norte e Sul se encontraram a 40 km de Washington, no dia 18 de julho, separados por uma aprazível ponte de pedra sobre o simpático e piscoso riacho Bull Run. Olha daqui, olha dacolá, sem saber o que fazer, os comandantes dos dois exércitos deixaram o tempo passar. Melhor para os rebeldes sulistas, que conseguiram aprovação do comando para o deslocamento de reforços a Manassas e começaram a operação de transporte ferroviário.

Mas não deu tempo desse povo chegar mais cedo. Às 5:30 da ensolarada manhã de 21 de julho, o troar de canhões espantou a passarada matinal, anunciando o início da batalha.  Os confederados se confundiram com a barulheira e se perderam nas estradinhas rurais daquela região bucólica, dando chance à cavalaria e à infantaria do Norte se posicionar melhor e atacar primeiro. A suave ondulação dos campos mostrou, durante toda a manhã, o avanço nortista e o recuo do Sul. Nos espaços abertos pelos movimentos das tropas ou com a dispersão da fumaça de tiros de artilharia e de fuzis, o quadro de horror de uma guerra começava a aparecer. Gente morta, gente despedaçada, gritos de feridos, pedaços de montarias e sangue, muito sangue.

O odor da morte chegava para ficar. Improvisados hospitais de campanha, na retaguarda dos exércitos, uniam feridos e cirurgiões em amputações a frio e em série.  Salas de jantar, salas de visita, estábulos, sombra de árvores, espaços viravam centros cirúrgicos. Portas e tábuas apoiadas em cavaletes ou barris serviam como mesas de cirurgia. No entorno desses pontos de atendimento iam sendo empilhados membros e mais membros amputados. Pedaços de gente. Tamanha  destruição humana era resultante do avanço dos armamentos diante das táticas de cavalaria e infantaria. Se baionetas e espadas ainda eram armas em uso no corpo a corpo, rifles e fuzis atingiam suas vítimas a 200 metros de distancia, com a potência de um novo projétil, a “minnie ball”, que destroçava qualquer osso atingido. Se o ferimento não fosse mortal, a alternativa era amputação.  Fora os projéteis de canhões, que pulverizavam pessoas.

Por volta do meio dia, em vantagem, o Norte parou seu avanço para melhor organizar os ataques. Pecado mortal. Regimentos e mais regimentos confederados desembarcaram de trens em Manassas e  alcançaram o campo de batalha em pouco tempo. O quadro mudou por completo:

– Os rebeldes equilibraram numericamente as forças dos dois exércitos.

– Com generais profissionais do lado sulista enfrentando políticos nomeados generais pelo lado da União, o domínio intelectual foi fundamental na reversão do rumo da batalha. Thomas Jackson, professor de artilharia do Virginia Military Institute, manteve sua brigada firme em posição defensiva diante da retomada do ataque inimigo. Calmamente chupando limões em cima de seu cavalo, Jackson inspirou outros generais a contra-atacarem. Foi comparado a um “muro de pedras” por um colega. Ali nascia a lenda de Thomas “Stonewall” Jackson, um dos maiores generais da história americana. Líder carismático e fanático religioso.

– A padronização dos uniformes dos dois exércitos em cinza rebelde e azul federal só viria depois. No primeiro confronto, havia de tudo. E isso decidiu a batalha. Um regimento de artilharia federal, vestido de azul, viu tropas se aproximando de fardamento da mesma cor. Imaginando tratar-se de parceiros, esperaram os “colegas” se aproximarem. Erro. Os rebeldes “celestes” dominaram o regimento inimigo, tomaram-lhe as armas e inverteram a posição e a mira dos canhões.  A surpresa e o fogo cruzado desnortearam o Norte. Um recuo lento e gradual virou uma corrida desenfreada, uma fuga apavorada e incontrolável. Acabou-se o picnic dos civis, que se misturaram no pânico dos militares. Um quadro patético de armas, cavalos, canhões e suprimentos abandonados pelas estradinhas de volta a Washington. Gigantesco e grotesco engarrafamento de gente andando, correndo, chorando e olhando sempre para trás, procurando o inimigo em seus calcanhares. Durante dois dias as pernas em Washington tremiam como varas verdes. Mas nada aconteceu; os confederados, surpresos com o próprio desempenho e também assustados com a carnificina, voltaram para seus quartéis e acampamentos.

Com 4.900 baixas em 10 horas de combate, estava encerrada a primeira batalha da Guerra Civil Americana e, com ela, as bravatas de um desfecho rápido e glorioso. Mais quatro primaveras de sofrimento e destruição aguardavam o agora dividido país.

A História sempre fica mais verdadeira quando ilustrada com detalhes. Um incontável volume de narrativas e de experiências individuais dos participantes e testemunhas daquele dia atravessaram 150 anos até nós. Difícil caber em poucas linhas, mas alguns depoimentos aparecem em qualquer literatura.

– Uma semana antes da batalha, o Major Sullivan Ballou, do estado de Rhode Island, escreveu uma carta  para sua esposa. Falava de seu amor por ela e pelos filhos. Tinha confiança na vitória nortista mas, se porventura alguma coisa lhe acontecesse, prometia voltar do além para estar sempre por perto de sua família. Seria ele o vento que afagaria seu rosto, seria ele o vento que refrescaria suas noites no verão, que manteria o fogo aceso diminuindo o vazio do lar, no inverno. Premonição. Sullivan Ballou morreu na batalha, atingido por estilhaços de artilharia. Sua carta foi entregue à família e hoje é um dos documentos mais emocionados, conhecidos e emocionantes da guerra.

– Henry Hill, a colina onde ficava a residência rural da família Henry, esteve no centro dos acontecimentos Pela sua posição estratégica, trocou de mãos várias vezes. A casa foi atingida por todo tipo de tiros, de  pistolas, rifles e canhões. Um projétil entrou pela janela de um quarto, explodiu e matou a octogenária matriarca da família, acamada com pneumonia.

– A insipiente arte da fotografia foi até Manassas, por meio de fotógrafos de Washington. Mas não voltou. Os  “laboratórios de campo” foram abandonados a meio da vergonhosa fuga em disparada dos nortistas (até hoje conhecida como “The Great Skedaddle”). Todas as fotos se perderam. As imagens registradas naquele dia aparecem, portanto, em desenhos feitos pelos próprios combatentes ou por jornalistas-desenhistas, que acompanhavam os exércitos como narradores repórteres.

– Charles Norris era um cadete de 17 anos, aluno de “Stonewall” Jackson no Virginia Military Institute. Em Manassas, foi para o campo de batalha usando seu azulado uniforme escolar. No avanço para dominar  os canhões nortistas, comandando seus colegas, caiu fulminado por um tiro no peito. Recolhido por seu professor foi  enterrado no pequeno cemitério da família, que guardou sua jaqueta militar perfurada pela bala inimiga.

– Wilmer McLean mudara-se com a família para a região de Manassas em 1853, estabelecendo-se como hábil fazendeiro e esperto comerciante. De repente, viu sua propriedade engolida pela guerra. Oficiais confederados ocuparam a residência, transformada em quartel general. Podia assistir à luta sentado na cerca do quintal. Ao final do dia, o paiol da fazenda havia sido transformado em hospital de campanha e prisão. Nos dias seguintes, apavorada, a família McLean mudou-se para um minúsculo e sossegado povoado, no interior da Virginia, longe da guerra e até de gente. Não adiantou, quatro anos depois, o exército confederado apresentou rendição em sua sala de visitas.

Eu já fui a Manassas. Passei um dia lá, como parte de um circuito automobilístico por campos de batalha e locais importantes da Guerra Civil Americana, cruzando Pennsylvania, Maryland, Washington D.C. e Virginia, até North Carolina.  A Virginia é linda. Bucólica e histórica, com suas colinas ondulantes, flores e pássaros de todas as cores, emoldurando o espírito confederado ainda vivo nas bandeirolas rebeldes penduradas nos pórticos de um sem número de residências rurais. Dizem que “Virginia is for lovers”. Concordo.

O campo de batalha de Manassas é impressionante. Administrado pelo Manassas Battlefield National Park, preserva a maior parte das áreas, pontos e “milestones” onde tudo aconteceu, em 21 de julho de 1861. O silêncio de hoje contrasta com os terríveis ruídos daquele dia. A passagem do tempo constrói silêncio. Mesmo no inverno, o céu da minha visita estava completamente azul. Está tudo lá, os canhões tomados por “Stonewall” Jackson para decidir a batalha, Henry House, a ponte de pedra onde os exércitos se encontraram pela primeira vez, as estradinhas poeirentas da fuga desenfreada para Washington. O campo está todo assinalado por monumentos patrocinados pelos veteranos combatentes, até o último deles, falecido em 1946. Emocionante. O museu apresenta um vídeo magnífico sobre a batalha e mostra um sem número de objetos da época. A destacar, a jaqueta de Charles Norris perfurada no coração e ainda com manchas de sangue, ordens de combate manuscritas por “Stonewall” Jackson, equipamentos médicos de campanha, diários de soldados, bandeiras de regimentos, armamento, projéteis disparados, espadas, rifles, baionetas, carretas de transporte, etc.. Sem falar naquele  staff especial permanente, nem sempre visível.

Staff especial? A cavalaria fantasma do primeiro parágrafo desta narrativa faz parte dele. E existem muitos outros. Ao contrário dos assustadores fantasmas de filmes de Hollywood, os do staff especial circulam durante o dia. 

Não acredito em fantasmas, mas estive com vários no circuito pelos campos de batalha e sempre com testemunhas, tão testemunhas quanto eu, que não me permitem mentiras ou devaneios.  Um pouco antes de deixar Manassas, naquela paisagem marcada pelo dourado do sol do fim de tarde, chamou atenção o redemoinho alto por onde girava um enxame de folhas em variados  tons pastéis do outono-inverno. Não despregava os olhos daquela cena. Como a estradinha do parque fazia um cotovelo, o redemoinho, então à minha esquerda, ficou adiante do carro. E à medida que me aproximava dele, o vento que provocava o movimento ia amainando, fazendo as folhas perderem velocidade e altura, para, gradativamente, entrarem em queda. Quando estacionei, todas as folhas estavam no chão, em torno de uma placa de pedra castigada pelo tempo. Fora ali que o Major Sullivan Ballou, profetizando seu destino na carta à esposa, havia perdido a vida e virado vento.

Caderno de Anotações

1. O filme “Gods and Generals”, superprodução americana de 2003, destaca a Batalha de Manassas e o personagem de Thomas “Stonewall” Jackson. http://www.imdb.com/title/tt0279111/

2. A íntegra da carta de Sullivan Ballou à sua esposa pode ser lida no link http://www.pbs.org/civilwar/war/ballou_letter.html

3. Em Manassas, 1861, o exército nortista, com 35.000 soldados, foi derrotado pelo sulista, com 33.000.

4. Durante toda a Guerra Civil, o Norte nomeava as batalhas pelo nome da cidade ou vila mais próxima, enquanto que o Sul adotava o nome do acidente geográfico mais próximo e importante. Assim, Manassas tem esse nome nos registros federais e é chamada de Bull Run, pelos rebeldes.

5. Os episódios de aparições que contei me deixam com uma dúvida. De qual batalha de Manassas ou Bull Run vieram aqueles espíritos? Sim , porque pouco mais de um ano depois, de 28 a 30 de agosto  de 1862, os dois exércitos tornaram se encontrar naquele exato local, com nova vitória confederada e uma carnificina muito maior.

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AS DUAS COLINAS DE MUNIQUE


AS DUAS COLINAS DE MUNIQUE

Entre cores, sombras e surpresas

 

Já havíamos percorrido cerca de 100 km de bicicleta pela cidade, quando começamos a subir. O sol, que ainda iluminava a noite daquele dia de verão em Munique, derretia meu rosto. Lá do alto, parei sob a cúpula espetacular do Estádio Olímpico. Ainda na bike, vislumbrei um passado que voltava, à medida que meu olhar descia pelas arquibancadas vazias do confete formado pelas multidões, até chegar à pista de atletismo. As visões magistrais de 1972 retornavam ao presente. A liderança da final dos 5.000 metros trocando de dono por três vezes a 200 metros da chegada, até a vitória do finlandês Lasse Viren.  O mesmo atleta que, dias depois, caiu na pista nas primeiras voltas da final dos 10.000 metros, ficou para trás, e retornou à corrida para vencê-la, batendo o recorde mundial. Na volta da vitória pela pista, foi cumprimentado pelo americano Frank Shorter, sexto colocado, o mesmo que levaria o estádio ao delírio, uma semana depois, ao vencer a Maratona Olímpica e dar início ao crescimento frenético das corridas de rua em todo o mundo. Mas, alguns dias antes da Maratona, uma emocionante cerimônia fúnebre havia sido realizada ali. E foi também naquele gramado que a Alemanha de Beckenbauer venceria a laranja mecânica da Holanda, por 2×1, conquistando, em casa, a Copa do Mundo de 1974.

Bernd, meu amigo da IBM Alemanha, nascido e criado em Munique, companheiro de pilotagem  de um premiadíssimo projeto internacional de consultoria na Volkswagen do Brasil, esperou meu estupor diminuir, para então afirmar: “Existem apenas duas colinas em Munique. E as duas são artificiais. Esta, do Estádio Olímpico, e aquela outra ali”. E apontou para um morrote mais abaixo, coberto de grama, já tomado pelas sombras do dia que se encerrava. As mesmas sombras que avançavam em direção à Vila Olímpica.

Munique, capital da Bavária, é a terceira maior cidade da Alemanha (atrás de Berlim e Hamburgo), tem cerca de 1.300.000 habitantes e está situada aos pés dos Alpes, em uma planície cortada pelo Rio Isar. Seu passado remonta a 1158, quando uma ponte foi construída, próxima a um acampamento de monges beneditinos. Em alemão arcaico, “München” significa “lugar dos monges”, justificando o emblema da cidade. Se a imagem de Munique é de alegria, sua auto-avaliação, “Tradição e Modernidade”, seu marketing, “Paraíso da Alemanha” e seu slogan turístico, “Munique gosta de você”, sofrimento e sombras também se apresentam em sua trajetória. A cidade foi bombardeada e reconstruída nas duas Guerras Mundiais. Dali surgiram Adolf Hitler e o Nazismo. Dachau, o primeiro campo de concentração, está localizado a apenas 16km de suas avenidas.  E o assassinato de 11 atletas e treinadores israelenses, por terroristas do “Setembro Negro”, manchou de forma definitiva os Jogos Olímpicos de 1972.

Estive três vezes em Munique. Na primeira, ainda estudante de Engenharia, minha estadia foi rápida o suficiente para tomar o maior porre da minha vida. Não tive forças para contar se foram dois ou três canecões de litro servidos por louronas de vários litros na Hofbräuhaus, a mais famosa cervejaria do mundo. Ficou também a vaga lembrança de que o mictório era imenso, como o do Maracanã. A segunda vez foi meio kafkiana. Executivo da IBM, passava por Paris em meados de Setembro, a trabalho, quando fui chamado para uma reunião em Munique. Tipo bate-volta. Cheguei no início da noite a um Holiday Inn básico, próximo das instalações da IBM, na periferia da cidade. Querendo voltar à cervejaria do porre monumental, pedi orientações na recepção do hotel, pois obviamente não tinha mais idéia do nome do imponente estabelecimento. Muito gentil, o atendente sugeriu: “Por que o senhor não vai à Oktoberfest?”.  Do alto de minha cara de planta, e conhecedor da homônima de Blumenau, ainda retruquei “mas, senhor, estamos em Setembro…”. Não esperei resposta, agradeci e entrei no táxi. Também gentil, o taxista explicou que a primeira Oktoberfest aconteceu em 12 de outubro de 1810, celebrando matrimônio de príncipe com princesa. Mas a tradição pegou mesmo em outro calendário e se estende por duas semanas a partir de Setembro, para terminar no primeiro domingo de Outubro (ou seja, a Oktoberfest catarinense é mais Oktober que a original). Situada em um parque de diversões imenso, com roda gigante e tudo, a Oktoberfest atrai milhões de visitantes para suas incontáveis tendas de rodízio de cerveja, em mesas comunitárias enormes, animadas por berros, saudações, “prosits” e pelas contagiantes bandas folclóricas de bochechas rosadas. Em minutos, era irmão íntimo de umas quinze pessoas entusiasmadíssimas. Sem porre desta vez, pois assuntos automotivos me esperavam na manhã seguinte, na IBM. Afinal, na modernidade da região de Munique contam-se as sedes da BMW e da Audi.

A terceira viagem a Munique ocupou uma semana de férias no verão alemão. Aí sim, consegui sentir a cidade. Ciceroneado por Bernd Riedel, da IBM Alemanha e, na época, triatleta de competição, como eu, percorria de 100 a 200 km diários de bike. Sempre cobrindo uma agenda de cores, sombras e surpresas.

Os cartões postais coloridos de Munique saltam aos olhos sem esforço, ajudados pela configuração quase plana da cidade. A começar pela distante muralha imponente, formada pelos Alpes nevados, vistos de qualquer ponto cardeal.  Os parques vêm a seguir. Olympiapark, investimento para os Jogos Olímpicos de 1972, ímã permanente de visitas e eventos por quase 40 anos. O Englischer Garten, maior que o Central Park de Nova York, regado pelo corcoveante Rio Isar, contribuinte de quilômetros de retas e curvas ao percurso da Maratona de Munique. Fora os biergartens, mistura de balada com happy hour pela manhã, tarde e noite, e oásis de cerveja gelada, sob brisas e árvores, nos pit-stops do turismo de bike. Um pedal de 6km a partir do biergarten, em direção noroeste,  permite um abençoado borrifo de água nos chafarizes do Schloss Nymphemburg, gigantesco castelo à imagem de Versailles, considerado uma das mais lindas residências reais da Europa.

Mais 20km e chegamos às trevas do meio dia, nos portões de Dachau. Ali, ficaram prisioneiros e foram mortos os primeiros judeus vítimas do nazismo. Dachau foi uma espécie de protótipo para o Holocausto. Diante dos portões, da cerca, dos galpões, dos crematórios, engasguei. Não tive coragem de avançar e seguir os trilhos da abandonada ferrovia; o ambiente pesava toneladas e o silêncio dos gritos do passado era ensurdecedor.  Em rimo acelerado, pedalamos embora para, quase uma hora depois, entrar no Olympiapark e passar pela Vila Olímpica, antes de subir a colina do Estádio. O ataque do “Setembro Negro”, em 5 de setembro de 1972, ainda sacode a alma para quem conhece o episódio. Placas indicam aqui, ali os eventos daquele dia. Mas, o inconfundível terraço do apartamento israelense onde um dos  integrantes do grupo terrorista, encapuzado, aparecia e observava as reações e negociações, derrama sombras sobre aquele colorido impressionista.  Episódio encerrado com a morte dos onze reféns e de cinco dos oito terroristas. A tradição do minuto de silêncio toma conta daquele espaço, e é sugada para dentro do estádio onde, nas poucas horas em que os jogos olímpicos ficaram interrompidos, emocionante cerimônia fúnebre foi realizada, com a presença de atletas de quase todas as delegações. Países simpatizantes do “Setembro Negro” não compareceram, nem baixaram suas bandeiras a meio pau, protestando contra o luto. Aplaudiram, assim os “Jogos Olímpicos do Terror”, o banho de sangue do “Setembro Negro”. Não existem quase filmes passados em Munique, mas duas obras-prima retratam a tragédia olímpica. “Munique” (2005), de Steven Spielberg, candidata a Oscar e “Onde Day in September”, (1999) Oscar de melhor documentário. Nesse último, as cenas de violência são tão chocantes quanto a postura política e confusa das autoridades alemãs.

Pedaladas pela Munique medieval produzem efeito de retomada da alegria, do alvoroço. O magnetismo da Marienplatz, sede da prefeitura, é contagiante, principalmente às 11 e às 15 horas. Naquela praça imensa, um quase mutismo anuncia a espera da coreografia mecanizada do secular do relógio bávaro. Os olhares para o alto transformam as pessoas em peregrinos da história, com suas faces de todas as raças iluminadas pelo transe do encantamento infantil. Performance encerrada, cardumes de turistas seguem seus roteiros, enquanto outros, de residentes, retomam seu trabalho. Todas as esquinas  agora traçam caminhos medievais. Seja até para um MacDonald’s travestido de residência de Lohengrin, ou talvez para o Museu de História de Munique (Stadtmuseum) ou para as torres da Frauenkirche, construção mais alta da cidade.

Datada de 1488, inicialmente gótica, a catedral de Frauenkirche mantém seu exterior original. Já o interior, reformado para o barroco do século XVII, acabou destruído pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. O espaço, hoje totalmente sem adereços e vitrais artísticos, chama atenção pela impressão em bronze da “Pegada do Diabo”. Diz a lenda que o arquiteto da Igreja fez um pacto com Belzebu para conseguir ajuda na construção do edifício. Ali não haveria janelas, era a condição. Mas, as janelas foram dispostas de tal forma, que deixavam um ponto cego no centro da nave. Dali, não se viam as entradas de luz. Enganado, Satanás teve um chilique e bateu com pé direito no chão, eternizando sua fúria. Dizem que seu calçado é tamanho 42. Munique recebeu atenção especial aliada na reconstrução da Alemanha. Sumiram as cicatrizes expostas da guerra; mas, pela sua característica de obra-prima,  Frauenkirche, só ficou pronta em 1994. Os 109 metros de altura da igreja são o gabarito para construções em toda a cidade. A moderníssima sede da BMW, um dos marcos construídos para a Olimpíada, é 8 metros mais baixa.

Outra referencia automotiva mundial fica em Ingolstadt, a poucos quilômetros de Munique. Mais importante centro de produção de meu desejo de consumo: Audi. Não podia não ir até lá. Reunião de trabalho saboreada com o tradicional “café com bolo” alemão, envolvendo a fábrica da Vokswagen em Curitiba, onde viria a ser produzido o Audi A3. Em aderência à disciplina alemã de pontualidade entre os limites de horário de trabalho e prazer, Bernd  e eu passamos um fim de dia em um biergarten às margens do rio. Como cada cidade alemã tem suas próprias marcas de cerveja, tomei uma Herrnbrau light , conseguindo, assim, condição técnica para voltar a Munique pilotando um incandescente Audi TT.  

No retorno à cidade, o trajeto para meu hotel passava obrigatoriamente por uma belíssima avenida emoldurada por um arco do triunfo quase romano. Como uma versão alemã da francesa Champs Elysées, a ampla Leopoldstrasse recebe o Siegestor (Portão da Vitória), um dos remanescentes da arquitetura nazista em Munique. Com olhar treinado e preparado, os sinais do nazismo podem ser facilmente identificados. Defronte à Führerbau, antiga Residência Oficial de Hitler estão as ruínas bombardeadas do Templo de Honra, sepulcro de dezesseis integrantes do Partido Socialista, mortos no golpe de 1923, que levou Hitler à prisão, à sua obra “Mein Kampf” e a seu ódio universal. Durante anos, uma guarda de honra da SS, em seu uniforme de gala negro, ali postou vigilância, 24 horas por dia. A magnífica Galeria de Arte, a Haus der Kunst, projetada para 2.000 anos de arte alemã, foi uma das meninas dos olhos de Hitler. Teve sua pedra fundamental lançada em 1933, em espetacular cerimônia de propaganda nazista, não menos impressionante que as festividades de sua inauguração, celebrada em 1937, com mares de tropas, oceanos de estandartes vermelhos e swastikas, desfilando durante dois dias, diante dos líderes nacionais. Logo após a guerra, em 1946, a Haus der Kunst foi utilizada como centro de distribuição de suprimentos para as tropas aliadas. Atualmente é local nobre para exibições especiais como a Mostra de Tutankamon e a Coleção Farnese, já que o antigo acervo foi transferido para a Nova Pinacoteca. Tive oportunidade de visitar a coleção Farnese, trazida de Roma e de Florença. Entre pinturas renascentistas e estátuas gregas e romanas, não pude deixar de reparar na imensidão ariana dos espaços do prédio e até perceber, no teto, disfarçados mosaicos estilizados com swastikas.

Um dos logotipos da Alemanha é o Castelo Real Neuschwanstein, do Rei Ludwig II, um nobre infeliz misteriosamente afogado no magnífico Lago Starnberg, que banha Munique.  Existem aí duas curiosidades: o castelo pouco foi usado pelo rei, mas serviu de inspiração para um dos lugares mais visitados de todo o mundo. Além disso, pode ser visto à distancia, a partir uma das “praias” de grama de Munique, à beira do imenso lago. Sol de verão, praia lotada, fui a nocaute. Estavam todos, todos pelados. No máximo, um boné.Tradição alemã ignorada por aborígene brasileiro. Tinha de tudo, de todos os tamanhos e de todas as idades, em colóquios animadíssimos ou espalhados na grama em forma de escancaradas e indiscretas estrelas. Bernd se dobrava de rir com meu mico. Duas simpáticas guias turísticas, Helga e Birgit se dispuseram mostrar a região e os lagos ao assustado e já bronzeado brasileiro. Não me lembro direito das explicações, apenas que a água do lago tinha temperatura nordestina e que eu queria sair daquele convescote de partes íntimas o mais rápido possível. 

 

Depois de uma noite naturalmente mal dormida, saí cedo para um treino longo de corrida pelas margens do Rio Isar. Fazia parte de meu treinamento para uma segunda Maratona de Nova York. Percurso totalmente arborizado, desde o hotel e pela trilha asfaltada que segue o desenho do rio. Água límpida, transparente; neve e gelo derretidos dos Alpes. Curso encachoeirado aqui, manso mais à frente, ora fundo, ora raso, som de água afinado com canto de pássaros, sonho de qualquer corredor de longa distancia. De longe, reparei que havia banhistas nas prainhas de pedras redondas, nas pequenas ilhas fluviais. Nada a ver; concentração total no treino, ritmo, distância, hidratação. Sem camisa, encharcado de suor, vendendo saúde, estava feliz depois de duas horas de exercício. Resolvi atravessar para a outra margem e cortar caminho até o hotel. Muita calma nessa hora. Pelados me aguardavam na prainha. Espantado, meti os pés calçados de Nike rio adentro, até o refúgio de uma ilhota. Ledo engano, era um ninho de homossexuais. Acelerando pela pista de terra, ouvia a gritaria da estranha fauna que pulava do mato para falar comigo, querendo sei lá o que. Em segundos estava na outra margem, onde, finalmente as peladas eram maioria. Alonguei ali mesmo, dei uns mergulhos no rio gelado e voltei para a proteção do hotel.

Virei celebridade naquela noite, no Hofbräuhaus, com as gargalhadas e faniquitos de Helga, Birgit e Bernd, às custas deste turista brasileiro ignorante de assuntos naturalistas. Mas a noite internacional passou como o prelúdio de um novo cartão postal bávaro. O domingo de céu azul sob montanhas nevadas aconteceu em Walchensee, lago na subida dos Alpes. Helga e Birgit levaram cesta de picnic, Bernd levou duas bicicletas e eu levei coragem.  Fizemos um triatlo na montanha. Natação no lago fundo, bicicleta morro acima e corrida morro abaixo. Quem ganhou?  Faz diferença?  Foi meu último triatlo.

O avião partiu cedo com minhas lembranças definitivas de Munique na bagagem. Folheando meu livro “Munich in Picture”, constatei que quase tudo que havia visto naquela semana não estava lá publicado. Uma espécie de versão pasteurizada para turistas superficiais. Naturalmente, nenhuma menção à origem artificial das duas colinas. Mas, sobrevoando o Olympiapark, pude vê-las uma última vez. O magnífico estádio coroando a maior, e a grama nua cobrindo a mais baixa. Na evacuação dos judeus de Munique pelos nazistas, seus móveis e pertences, já desnecessários, eram transportados para a periferia da cidade, onde foram sendo amontoados. O avanço alucinado do Holocausto fez o monte crescer mais e mais.  Com a rendição e a reconstrução da Alemanha, acabou abandonado.  Coberto de mato, transformou-se em paisagem. Mas, sem dúvida, é uma das mais desconhecidas e silenciosas testemunhas do horror. A população de Munique sabe disso.   

Caderno de Anotações

1. Existem dois filmes premiados sobre o atentado terrorista em Munique.  

 Munich (2005) http://www.imdb.com/title/tt0408306/

“One Day in September” (1999) http://www.imdb.com/title/tt0230591/

2. Luciano Pavarotti deu um concerto de gala no Olympia Hall, em 1986.

http://www.youtube.com/watch?v=yExzVOHn-ts

3. Apesar do massacre de 1972, Munique é candidata aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018.

4. O Principal estádio de futebol de Munique agora é o Allianz Arena, construído, sem PAC do PT, para a Copa do Mundo de 2006.

5. Apesar de, na última visita a Munique estar treinando para uma segunda Maratona de Nova York, acabei não viajando. A dois meses da prova, quarenta dias no gesso por fratura de stress na fíbula esquerda.

6. Os desempenhos de Lassen Viren nos heróicos 5.000 e 10.000 metros de Munique ’72 e a vitória de Frank Shorter na Maratona, que encerrou aqueles jogos, ainda podem ser relembradas com narrações e emoções da época.

 

http://www.youtube.com/watch?v=8RTUit6Yogg

http://www.youtube.com/watch?v=MkXsjfVnG0k

http://www.youtube.com/watch?v=THUKgZX9pw8

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NEW YORK CITY MARATHON


 

MARATONA DE NOVA YORK

42km de adrenalina, incerteza, dor e …

O que eu imaginava ser um passeio no parque foi, na verdade, um  pesadelo no parque. Naquele início de tarde de domingo, atravessei a marca dos 35km da New York City Marathon consumido por dores em todo o corpo. As cores impressionistas das folhas outonais do Central Park emolduravam meu cansaço de derrotado. Como seguir em frente? Como vencer o paredão vertical que minha visão delirante enxergava naqueles 7.195 metros finais de uma corrida que havia começado bem antes de sua largada?

Meu sonho com a Maratona de Nova York bocejou na década de 80. Naquela época, além da São Silvestre, Nova York era a única corrida de rua transmitida pela televisão brasileira. Assisti várias delas, esparramado em sofás e almofadões, antes ser levado a Manhattan pelo meu trabalho na IBM. E foi “in loco” que aprendi a reconhecer a “blue line” – a marcação oficial do percurso da maratona – no asfalto da Big Apple. Em alguns pontos, uma linha apagada pela passagem de veículos, aguardando nova demão de azul para a próxima edição do evento; em outros, ainda bem viva como tinta fresca disfarçada. Aos poucos, em treinos de corrida encaixados entre compromissos profissionais, ao longo de sei lá quantas viagens, fui me familiarizando com os últimos trechos da prova, sempre dentro do Central Park. Experimentei as facetas meteorológicas da “blue-line” em todas as estações do ano. Antes de sonhar com a linha de chegada, eu passei por ela várias vezes, ali, diante do restaurante Tavern-on-the-Green, o marco final da maratona. Em 1983, trouxe na bagagem o rascunho do sonho: o poster da Maratona de Nova York daquele ano, marcada para domingo, 23 de outubro. Nunca mais me separei daquela gravura obsessiva.      

Não há como dissociar a palavra “maratona” de dois ícones: a corrida heróica e suicida do soldado ateniense Feidípides, no ano 490 A.C., para anunciar a vitória de seus companheiros de falanges sobre o gigantesco e invicto exército persa, na Batalha de Maratona, e as imagens da cidade de Nova York. Se Feidípides levou a maratona para as Olimpíadas, Nova York a levou para o mundo. Antes de acontecer em Nova York, maratonas se diluíam em eventos modestos (que me perdoem os pioneiros da centenária Maratona de Boston), congregando atletas interessados nos limites da resistência humana. Alguns curiosos espiavam, com espanto, aquilo que era considerado uma demonstração de insanidade coletiva. O New York Road Runners’s Club (NYRRC) e um visionário chamado Fred Lebow mudaram tudo isso. Hoje, as maratonas são colossais eventos de mídia, que tomam de assalto as principais cidades do mundo, movimentando milhares de corredores e milhões de expectadores nas ruas. Mas nenhuma maratona bate a de Nova York como  “griffe”.  Todas se inspiram nela. A maratona moderna deve a Nova York sua vida e seu “status” de mega-evento globalizado .

No entanto, a primeira Maratona de Nova York passou quase despercebida. Em 1970, 127 corredores pagaram 1 dólar para percorrer 42.195 metros, repetindo diversas vezes um circuito dentro do Central Park. Menos da metade concluiu a prova, foram 55 abnegados. Seis anos mais tarde, Fred Lebow redesenhou todo o percurso. Decidiu dar a Nova York o papel de um gigantesco cartão postal em movimento, fazendo os corredores passar pelos cinco distritos da cidade. Um trajeto de ponto a ponto, com partida em Staten Island, consumo de quilometragem pelo Brooklyn, Queens  e Bronx, até Manhattan, com direito a escaladas em cinco pontes e travessia por doze cenários cultural e etnicamente  diversos (e, por vezes, adversos). “Se você construir isso, eles virão”, foi dito a Fred Lebow. E eles vieram. Em 1976, na inauguração do novo percurso, 2.100 corredores estavam na largada. Entre eles o campeão olímpico Frank Shorter. Milhares de expectadores foram para as ruas aplaudir os participantes, televisão e jornais levaram imagens da corrida aos cinco continentes. A configuração diferenciada de atletismo com espírito comunitário e charme urbano fez a Maratona de Nova York explodir. Atração irresistível para multidões crescentes de atletas de elite, de celebridades e de anônimos amadores americanos e estrangeiros.

Inacreditáveis 9.000 participantes de 1978 tornaram-se uma fração menor dos 30.000 de 1993 e ínfima dos 45.000 de 2010. A norueguesa Grete Waitz venceu a prova nove vezes, o americano Bill Rodgers, quatro. A participação brasileira, não tem sido modesta e destaca Osmiro de Souza Silva, 4º. colocado em 1992, Márcia Narloch, 4ª. colocada em 1993, e Marilson dos Santos, campeão em 2006 e em 2008. Milhões de expectadores se alinham ao longo da “blue line” no primeiro domingo de cada novembro. Aos gritos, incentivam do primeiro ao último colocado.  Música de 130 bandas internacionais se distribuem pelos 42 km, de Staten Island a Manhattan. A última, incendeia qualquer alma, a 400 metros da “finish line”. Fortaleza a ser conquistada por dentro, mas invencível em investidas de fora, a Maratona de Nova York resistiu ao ataque terrorista que vitimou o World Trade Center. Menos de dois meses após a tragédia, sob comoção e um fortíssimo esquema de segurança, o percurso acolheu o inigualável caleidoscópio de seu gigantesco elenco.

Confesso que não consigo passear por estas minhas próprias linhas sem me emocionar.  Minha largada para a Maratona de Nova York foi acontecendo a cada olhada para aquele poster de 1983. Decorando centímetro por centímetro da imagem dos primeiros metros da prova, sobre a Verrazano Narrows Bridge, ia gradativamente me afastando da promessa pessoal de não repetir o sofrimento da Maratona do Rio de Janeiro de 1981. No início de 1993, finalmente consegui lugar na quota de inscrições para participantes internacionais. E comecei a treinar para um domingo de novembro.

Cheguei a Nova York quinta feira, após reuniões de trabalho em New Orleans, LA e Mount Pleasant, NY. O Hotel Marriott Marquis abria janelas para o coração pulsante da Maratona, Times Square, com incansáveis colagens sobre a corrida projetadas no mais famoso telão do mundo. A NYC Marathon Expo, ali tão próxima, no New York Hilton, esticava cordões humanos pelas calçadas, cada elo esperando a vez de retirar seu “kit” de corrida: sacola com número oficial, alfinetes, identificação, instruções, panfletos, amostras úteis e inúteis, e até, como um combatente a caminho do D-Day, pílulas contra dor e enjôo. Um prenúncio. Na enorme fila, desconhecidos se conheciam. O alarido das conversas disputava decibéis com a risada dos participantes. Adrenalina. Encontrei um senhor inglês que iria participar de sua 100ª. maratona.  Um louva-deus chinês impressionava, num inglês de solfejos, pelo feito de haver completado uma maratona em cada domingo daquele ano. Manchas alaranjadas como neon indicavam contingentes holandeses, competindo com os bleu-blanc-rouge da França, as mais numerosas delegações estrangeiras. Internacional. Encontro de nações, todos os idiomas em um só espírito.

O Sábado chegou ainda mais globalizado. Show de tambores japoneses diante da ONU sinalizou largada para a International Breakfast Run, um ‘’jogging” de 12km para os participantes de outros países. Impressionante imagem do mosaico de bandeiras pela Sexta Avenida, até um megalômano café da manhã, no Central Park, onde todos já eram amigos de infância. Adrenalina. Despedimo-nos trocando “buttons”, como colegiais trocam figurinhas, marcando um novo encontro para a manhã de domingo. Fria no frio da noite: considero o jantar de massas da véspera da prova, no Tavern-on-the-Green,  um evento coletivo individual sem valor agregado. Hora marcada para cada participante, porções singelas de macarrão, pizza ou lasagna servidas em alta velocidade e mastigadas sob pressão para liberar espaço para o próximo da fila.

 

A temperatura de 6 graus se prolongou por uma noite mal dormida e continuou pelas preparações na escuridão da madrugada de domingo. Incerteza.  Deixei o hotel caminhando sob um céu gelado de estrelas. Ninguém nas ruas. Mas, à medida que me aproximava da Biblioteca de Nova York, como fantasmas saídos do nada, os corredores se multiplicavam. A fila de ônibus roncava e soltava fumaça como blindados de guerra. Era o transporte para o ponto da largada. Sentado em banco da segunda fila, vendo os quilômetros ficarem para trás, senti medo, estava na escuridão do desconhecido. Caiu a ficha de que teria de fazer todo o percurso de volta a pé, correndo. Incerteza.  

A concentração dos corredores, no Fort Wadsworth, instalação militar do século XVII, junto ao pedágio da ponte Verrazano Narrows, na largada da prova, aumenta a ansiedade. Faltam cerca de quatro horas para o hino americano e o tiro de canhão liberarem a multidão. Barracas gigantescas oferecem refúgios de reflexão e relaxamento, abrigo contra o frio. Caminhões tanque de café, chá e chocolate quente estão espalhados pela área, ao lado de imensos tabuleiros de pão e frutas. Uma canaleta a céu aberto, gigantesco e democrático urinol masculino, serpenteia pelo perímetro do imenso  terreno. Ritos religiosos acontecem aqui, ali. Fui à missa e comunguei. Na homilia, Padre Francisco Rodriguez adivinhou meus pensamentos: “ Esta maratona nos traz amor, esperança, união, alegria, solidariedade, companheirismo  –  como a palavra de Deus”.

 

A convocação para a largada, cerca de 40 minutos antes da hora H, deflagra um processo meio lunar, quase alienígena: a multidão se arrasta pela via de acesso, atirando nas árvores, no chão ou em caixas de coleta, peças de roupas e agasalhos considerados descartáveis. Fato acentuado naquele dia, pelo gradiente de temperatura, alçada dos 6 aos 25 graus centígrados.  Acompanhando a procissão, voluntários recolhem tudo que puder ser destinado à caridade. 

Posicionei-me bem  no final da largada, junto ao pedágio. Sem aperto, podia me movimentar à vontade, tocando vez por outra um alfinete que prendia a imagem de um anjo da guarda me acolhendo. O canhão histórico da Guerra Civil anunciou, finalmente, a hora da verdade. Dezesseis longos minutos me consumiram até passar pela faixa “START”. Minha mente se esvaziou, extasiada, diante da visão dramática da gigantesca ponte totalmente tomada pelo confete colorido de milhares de corredores. Ali já acontece a primeira crueldade, uma subida longa e difícil, amenizada pela visão do perfil dos edifícios de Manhattan em contraste com o azul do mar pontilhado por chafarizes altíssimos, produzidos por rebocadores. Adrenalina. Senti-me homenageado. No Brooklyn (km 5), mais adrenalina, longo trecho plano e reto, povo nas calçadas e bandas nos canteiros centrais me fizeram irresponsavelmente correr mais forte. Comecei a pagar o preço, sofrendo cada vez mais na subida de cada ponte. Passei a reparar na feiúra de certas regiões bem detonadas. Me lembrei dos piores trechos da São Silvestre. Incerteza. Água, Gatorade, bananas e pão italiano, recolhidos nos tabuleiros espalhados pelo percurso foram me estabilizando, equilibrando o pulso em 157 bpm. O arborizado Queens (km 15) me fez bem, a entrada em Manhattan pela Queensboro Bridge (km 25) me zerou, mesmo com o cruel alpinismo da ponte. Atravessei o retão da First Avenue (km 30) meio em alfa. Mas comecei a degustar um cansaço definitivo no vazio decadente do Bronx  (km 32) e nas esquinas talvez inseguras do Harlem (km 34). Veio a depressão. Incerteza.   

Minha esperança era o Central Park, meu conhecido Central Park. Fantasiava que ali estava a garantia de conclusão da maratona. Mas um nocaute psicológico refletiu-se como dor no corpo todo. Os 7 km restantes pareciam outra maratona. O Central Park virou um inimigo desconhecido, com suas surpreendentes e inacreditáveis subidas. O aplauso da multidão sumiu, já que ela simplesmente não estava lá. Comecei a andar, como um retirante derrotado. Incerteza e dor. Fui socorrido na altura do Museu Gugenheim. Fadinhas da terceira idade, de touca de lã, cachecol, luvas e bochechas rosadas me ofereceram uma sagrada Coca Cola, embalada por  “Dont’ stop, almost there! It’s only a couple of miles left. To the end, sir, to the end!”. Adrenalina venceu a dor e trouxe de volta o corredor. A multidão reapareceu e empurrou como um êmbolo mágico. A saída do parque, onde as carruagens fazem ponto, indicou a última milha. Nem reparei no odor eqüino. Na reta até Columbus Circle fui abençoado pelo sinal da cruz e pelo toque na imagem de meu anjo da guarda. Acelerei. Só via borrões coloridos. Dor transformada em sorriso. Reconheci os acordes de “Simply the Best” na última banda de rock, na marca da milha 26. Adrenalina. Faltavam 400 metros. Acelerei mais. Ali, o parque era um funil margeado por arquibancadas lotadas. Do alto da última subida enxerguei a faixa mágica, FINISH. O clamor da multidão abafou as palavras da locutora oficial, “Bring them in, folks, bring them in”. Sprint final. Sorriso escancarado, parei o cronômetro. Glória.  Segundos depois do nada, dei conta do meu traje de batata assada, enrolado em um cobertor aluminizado e com uma medalha no pescoço.

Nas curvas seguintes do Central Park, veio a dificuldade de caminhar, renovaram-se as dores musculares. Sombras do fim de tarde clonaram todos os corredores; a procissão dos vitoriosos esgotados. Parada nos ônibus para retirar as mochilas, dissolução na praça do encontro marcado com amigos e familiares. Curti minha euforia na solidão, diante de um momento eterno.                                                              

No dia seguinte, como um inválido, arrastei-me até o Tavern-on-the-Green. O parque já estava limpo. O único sinal da maratona estava pintado no chão, a “blue line” interrompida pelas palavras “New York City Marathon – Finish Line”.

Nas semanas seguintes recebi pelo correio várias fotografias da corrida, meu diploma de conclusão, um quadro emoldurado com placa comemorativa e medalha, um documentário e um vídeo  sobre minha participação, em trechos da largada na Verrazano Bridge até o Central Park e mais a chegada, com direito a “replay” em câmara lenta. Início e fim da minha New York City Marathon separam-se por poucos centímetros: para fazer companhia ao poster inspirador de 1983 tinha viajado, meio castigado, o de 1993.  

 

Nos anos seguintes, nas décadas que foram passando, sempre revivi aquele dia em Nova York outra vez, novamente e de novo. Todas as manhãs. Na janela de meu quarto, a primeira coisa que vejo ao despertar é um adesivo. O tempo vai fugindo da gente, mas aquele momento de glória fica para sempre.

 

Caderno de Anotações

1.  A Maratona de Nova York não para de se atualizar. Todos os corredores usam um “chip” que possibilita registrar seu tempo real de percurso dos 42,195 km. Fato corriqueiro em qualquer corrida de rua dos dias de hoje, foi uma inovação introduzida em Nova York. Além disso, a corrida pode ser vista ao vivo, pela TV ou pela Internet, sem as bobajadas que os locutores brasileiros de futebol despejam ano após ano, nas transmissões da São Silvestre.

2. Para a hidratação dos participantes, os tabuleiros de líquidos são dispostos dos dois lados das ruas e avenidas, evitando atropelos e colisões. Apenas água e Gatorade são oferecidos. A alimentação, por motivos comerciais, está restrita a Power Bar em todos os sabores disponíveis. As barras são igualmente distribuídas como os líquidos.

3. Nova York sempre foi uma maratona de outono. Nos últimos anos, fixou-se no primeiro domingo de novembro.  Mas as temperaturas podem surpreender. No meu caso, começou com 6 graus centigrados, chegou a 25 e terminou com 12. É um evento de risco. Em 2008, ocorreram três óbitos, todos por problemas cardíacos. Um brasileiro de 58 anos e dois americanos, idade 66 e 41, respectivamente.

4. Dita como sendo uma maratona plana, Nova York está longe disso. Para evitar surpresas como a minha, vale consultar o gráfico de altimetria.  

http://www.ingnycmarathon.org/documents/NYCM-Profilepage10.pdf

5. O recorde masculino da prova de Nova York foi estabelecido por Tefaye Jifar, da Etiópia, em 2001, 2:07:43. O feminino é da inglês Paula Radcliffe, 2:23:09, em 2004. A prova de 2005 teve um final eletrizante, Paul Tergat, do Kenya, ultrapassou o sul africano Hendrick Ramaada nos metros finais para vencer a prova em 2:09:30, um segundo à frente de seu adversário.

6. SIMPLY THE BEST, trilha sonora do km 41,6 (26th mile) da New York City Marathon  http://www.youtube.com/watch?v=Ob6RRcw3V3A

7. Fred Lebow, arquiteto, engenheiro e produtor da New York City Marathon, faleceu em 10 de outubro de 1994. A última maratona que regeu foi aquele em que participei.

Fred Lebow

http://www.fredlebowmovie.com/

8. A ilustração incluída logo abaixo do título deste artigo é um óleo-sobre tela de Leroy Neiman, pintor americano focado em esportes. “New York City Marathon, 1980”.

 

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MEDUSA, PERSEU E BENVENUTO CELLINI


MEDUSA, PERSEU E BENVENUTO CELLINI

Pedras infelizes na mitologia grega e bronze renascentista em Florença

 

Curvado sobre sua própria sombra, o guerreiro grego Perseu avançava pelos portais da caverna, desviando-se dos esgares petrificados de infelizes heróis. Mortos em pedra, vítimas de sua própria ingenuidade cega de tentar decapitar Medusa em combate frontal. Fulminados por um único olhar daquele rosto emoldurado por serpentes, eram agora avisos do implacável destino de alvoroçados caçadores de glória. 

 

Medusa teria sido originalmente uma belíssima mulher, sacerdotisa do templo da deusa Atena, aspiração ciumenta de incontáveis pretendentes. Atraiu a maldição da deusa ao ceder às investidas de Poseidon, deus dos mares, bem sucedidas dentro do próprio templo onde servia e orava. Enfurecida, Atena transformou a cabeleira de Medusa em serpentes venenosas e deixou seu rosto tão transfigurado e medonho que a simples visão dele transformaria em pedra todos que o encarassem.

 

Familiar e politicamente ligado às divindades do Olimpo, Perseu entrou na caverna com diferenciais competitivos inacessíveis a seus antecessores colegas de pedra. De seu pai, Zeus, recebeu uma afiadíssima e indestrutível espada.  Atena forneceu um escudo metálico polido continuamente até se transformar em espelho. Hades, guardião do Inferno, produziu-lhe um capacete que tornava invisível quem o enfiasse na cabeça e Hermes, mensageiro dos deuses, emprestou-lhe suas ágeis sandálias aladas.

Foi assim que Perseu, invisível, movendo-se como asas nos pés, guiado pelo reflexo no escudo, sem olhar diretamente para Medusa, decapitou a bruxa com só um golpe de espada. Em sua glória, Perseu ergueu com a mão esquerda a cabeça infernal. Do sangue que escorria do pescoço de Medusa, surgiu Pégasus, corcel alado, filho do pecado da então sacerdotisa com Poseidon. Ou seja, no momento de sua morte, Medusa estava grávida de um cavalo voador.  

Cavalgando Pégasus nas nuvens, Perseu atravessou desertos e montanhas, chegando ao mar a tempo de salvar sua amada Andrômeda, acorrentada às rochas marinhas em sacrifício ao monstro Ketos, uma serpente oceânica meio canina. Munido de seus diferenciais competitivos (espada, escudo, capacete e sandálias), complementados por Pégasus e pela cabeça de Medusa, Perseu não deu chance à terrível fera marítima. Em sua glória, Perseu ergueu com a mão esquerda a cabeça infernal e petrificou Ketos.

 

Dali, voou com Andrômeda para sua eternidade como celebridade. Está presente na arte da Antiguidade, nas histórias de pais para filhos, em filmes de Hollywood e, até na Astronomia. Perseu, Andrômeda e Pégasus são constelações nos céus do Universo.   

Mas, sem dúvida, uma das escalas mais virtuosas da saga de Perseu aconteceu na Itália renascentista Ali, seu personagem globalizou-se para o encantamento de milhões e milhões de visitantes, artistas, turistas, transeuntes, peregrinos da história, ocupados e desocupados. Aquele que passar pela Piazza della Signoria, ponto magnético de Florença, será naturalmente imantado pela única estátua de bronze da Loggia dei Lanzi. Na primeira fila das obras primas, Perseu se apresenta no glorioso gesto do guerreiro erguendo com a mão esquerda a cabeça decepada de Medusa. 

               

Benvenuto Cellini, nascido em Florença, em 1500, é o autor desse Perseu da Renascença. Ourives, escultor, espadachim, portador de pavio curto, encrenqueiro e baladeiro sem freios, viveu até 1571 e deixou um legado ímpar para a humanidade. Seu Perseu (Il mio Perseo  – como ele se referia ao seu mais reverenciado trabalho) é, sem dúvida, um dos maiores monumentos da Renascença. O menino Benvenuto teve infância e juventude confortáveis. Sua família possuiu propriedades rurais por três gerações; seu pai projetava, construía e tocava instrumentos musicais, influenciando Benvenuto no manuseio de metais.  Alternou anos na profissão de ourives com estrepulias juvenis, que lhe custaram exílios para Siena, Pisa e Roma. Aos dezenove anos, flautista e mestre em metais, foi trabalhar com o Papa Clemente VII, encantado com seus destacados talentos. Em Roma, desenvolveu grande habilidade no uso de armas, participando em duelos, batendo-se contra inimigos do Papa e fugindo de pais e esposos desonrados. Acusado de ter trocado pedras preciosas da tiara papal por outras sem valor, foi preso no Castelo de Sant’Angelo, até então inexpugnável fortaleza romana, construída sobre o túmulo do Imperador Adriano. A invencibilidade da fortaleza chegou ao fim, de dentro para fora, com a humilhante fuga de um Cellini pendurado em lençóis. Tão espetacular escapada valeu-lhe o perdão papal, encomendas de peças artísticas e o retorno a Florença pelo portão principal, diretamente para um estúdio na agora imortal Ponte Vecchio, reduto secular de ourives.

 

Envolvido em politicagem, beberagem e concorrências públicas para produção de mimos ducais e nobiliárquicos, tornou-se amigo e fornecedor do Duque Cosimo I de Médici, principal autoridade florentina, déspota e homem sem palavra. Uma espécie de Lula do Renascimento – nunca antes e depois na história de Florença falou-se tanto de um governante. Foi de Cosimo a idéia da estátua de Perseu em bronze. Obcecado pela produção de uma obra prima, Cellini exigiu uma casa para executar os trabalhos e uma equipe de ajudantes selecionados por ele mesmo. Foco total em Perseu. Só pensava naquilo. Distraído, diversas vezes foi emboscado nas espiraladas ruelas florentinas. Inimigos políticos, concorrentes e invejosos profissionais inconformados com sua ligação com o Duque, com seu sucesso artístico e suas noitadas baladeiras de celibatário conquistador não lhe davam sossego e vice versa. Em uma ocasião, viu seu irmão tombar travessado por espadas e punhais; noutra, foi sua vez de escapar no último instante, salvo por um amigo.

 

Perseu foi projetado em cera, para aprovação de Cosimo que, cinicamente, desqualificou Cellini em público, argumentado que bronze não era massa, o que fazia de todos ali admiradores de um devaneio inverossímil. Devastado por tamanho desafio, o artista reagiu com a força da lenda que retratava e provou sua qualificação também como genial engenheiro metalúrgico. Perseu foi fundido noite adentro, iluminado pelos clarões dos fornos da usina renascentista e pelos raios de aterrorizante tempestade florentina. Trovões e tsunami celeste compuseram a moldura correta para uma obra prima em produção. Durante três longos dias, Cellini esperou o bronze esfriar. Então, retirou os moldes de areia. Perseu e, até a Medusa, surgiram absolutamente lindos.

 O duque ficou extasiado com o que viu. No entanto, mesmo com a derrota do achismo para a genialidade do binômio Arte e Ciência, humilhou Cellini mais uma vez. Condicionou a aceitação da obra à aprovação popular. Durante dias, milhares de pessoas se apresentaram para ver Perseu e a Medusa, ainda na penumbra do estúdio. Ao partir, deixaram a casa de Cellini transbordando de bilhetes com todo tipo de elogio, de exclamações. Uma verdadeira aclamação. E foi assim que, numa gloriosa manhã de primavera azul italiana em 1554, nove anos depois de ter rabiscado os primeiros esboços do momento mitológico, Benvenuto Cellini levou seu Perseu para a Piazza della Signoria. 

 

A partir daquele momento foi deflagrada uma romaria progressiva para conhecer o Perseu de Benvenuto Cellini. Inicialmente, chegaram os curiosos da Itália, gradativamente expandidos para todo tipo de gente, de todos os cantos do mundo, séculos afora. Eu me incluo nessa fila. Ao longo de quarenta e dois anos, estive com Perseu e a Medusa três vezes. Eu mudei, e muito. Eles, não.

                              

Benvenuto Cellini deixou para as gerações um outro legado incomparável. Em 1558, começou a escrever um livro de memórias autobiográficas. Seu texto, de aproximadamente 500 páginas, mostra, em idioma renascentista, um retrato por escrito do autor. Paixões, prazeres, arte, intrigas, encrencas, aventuras, brigas, personagens, desfilam diante dos olhos do leitor, do peregrino da História.  A produção de Perseu se apresenta em riquíssimos detalhes. Técnicos, políticos, econômicos e emocionais. A relação de Cellini com Cosimo de Médici surge marcada pelo stress, pela angústia, pela dúvida, quase pelo flagelo. Cellini praticamente não recebeu pagamento por seu Perseu. Mas a História lhe fez justiça. Seus trabalhos aparecem nos principais museus do mundo, é tema de ópera, de filmes de Hollywood, de musical da Broadway, de incontáveis obras literárias (Alexandre Dumas, Victor Hugo, Agatha Christie, Salvador Dalí entre outros). Seu livro, Autobiografia de Benvenuto Cellini é best seller desde o século XVI. Seu busto em bronze é uma homenagem secular dos ourives da Ponte Vecchio ao colega mais célebre. E o estúdio onde foi projetado e produzido seu Perseu, é objeto de peregrinação. Não por muitos, pois seu endereço está escondido entre as páginas da autobiografia do artista, Via del Rosaio, entrata da Via della Pergola no. 6527, Firenze.

     

Todos os dias, ao entrar em meu escritório, reparo na estante ao lado de meu computador, onde guardo minha coleção de objetos históricos. Tenho ali uma reprodução do Perseu de Cellini, adquirida em Florença, em 2006. Invariavelmente, sou tomado por um coquetel de emoções. Admiração, saudade, orgulho. Na mesma estante está um exemplar da Autobiografia de Benvenuto Cellini, em inglês. Edição de 1940, datada com a caligrafia de meu pai, naquele mesmo ano. Antes de minha primeira viagem à Itália, a Florença, ele me apresentou àquele livro. Narrou o que procuro reproduzir nesse artigo, e mostrou uma passagem de poucas linhas. Ali, Benvenuto Cellini conta que, uma noite, ao voltar para casa pelas ruelas de Florença, foi cercado e atacado por espadachins desconhecidos. Achou que ia morrer. Mas, do meio do nada, surgiu o socorro de seu amigo Berlinghier Berlinghieri, armado de punhal e espada. Juntos, puseram os assaltantes a correr. Ou seja, se um antepassado deste professor Astromar não tivesse salvo Cellini da sanha assassina, não haveria nem Perseu nem Medusa na Piazza della Signoria.

   

 

 

 

Caderno de Anotações

 1. Os épicos de Hollywood “Fúria de Titãs – Clash of the Titans”, homônimos de 1981 e de 2010, retratam a saga de Perseu.  

http://www.youtube.com/watch?v=rKgGGYyelx0

http://www.youtube.com/watch?v=otBlnETm32o

2. O filme “Room with a View”, de 1986, premiado com quatro Oscars da Academia, traz uma sequencia de assassinato na Piazza della Signoria, durante um dia de verão no século XIX. Dos 21min5 seg aos 25min11seg do filme, Perseu de Benvenuto Cellini aparece como pano de fundo em trechos que, somados, totalizam 38 mágicos segundos.

http://www.imdb.com/title/tt0091867/ 

3. ”Benvenutto Cellini” é o título de uma ópera de Hector Berlioz (1803-1869)

4. ”The Firebrand of Florence” é o título de um musical da Broadway de Ira Gershwin (1893-1986) cujo personagem central é Benvenuto Cellini.

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Firebrand_of_Florence 

5. O filme “How to Steal a Million”, com Audrey Hepburn e Peter O’Toole gira em torno do roubo de uma obra de Benvenuto Cellini.

http://www.imdb.com/title/tt0060522/

6. A história completa da lenda mitológica de Perseu pode ser encontrada em dois clips produzidos por Gabriella, uma pesquisadora italiana anônima, em sua série Miti Greci. Belíssimas imagens e trilha sonora, com texto em italiano. Parte 1, Perseu e Medusa; Parte 2, Perseu e Andrômeda.

 http://www.youtube.com/watch?v=tRAyCeLgPa0

http://www.youtube.com/watch?v=W4DDnOZQsoA 

7. Clip da obra de Benvenuto Cellini, com 1 minuto sobre Perseu (1:44 a 2:50). Atenção para os detalhes, as feições, as expressões faciais, o olhar.

http://www.youtube.com/watch?v=XIKor3nBqsM

8. Lembrando, Berlinghieri é o nome original de família deste dito professor.

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