DUAS ESCALADAS EM GENEBRA


São Paulo, 23 de janeiro de 2007

 

 

DUAS ESCALADAS EM GENEBRA

 

Genebra (Genève) é um mimo. Cidade suíça localizada na extremidade sul do Lago Léman, cercada pela montanhas rajadas do Salève, de um lado, e pelos Alpes, ao fundo. Destaca-se pela beleza, pelo bairro medieval da Vieille Ville, pelos chocolates e relógios, pela pontualidade e limpeza dos bondes, pelas contas numeradas nos austeros bancos locais e pela presença de diplomatas e mais diplomatas do mundo inteiro. Afinal, está ali uma representação da ONU e a sede da Organização Mundial do Comércio. Esta última, uma herança de 2.000 anos.

O que poucos sabem é que Julio César passou por Genève no ano 47 A.C.,durante sua campanha de conquista da Gália, para enfrentar Vercingetorix, o rei gaulês (nada a ver com Astérix e Obélix). A partir dali a cidade passou a ser um pólo concentrador de rotas comerciais. Por causa dessas rotas, chegou à Europa, vinda do oriente via Genève, a Peste Negra, que dizimou metade da população da Europa no ano 1320. Foram-se 15 milhões de pessoas. Os alemães culparam os judeus pela Peste Negra, e começaram a queimá-los em fogueiras. O fogo exterminou o micróbio bubônico, e a peste desapareceu. Hitler ficou sabendo disso e incrementou a prática séculos depois.

Mas a data mais importante para os habitantes de Genève é 11 de dezembro de 1602. Naquele dia, um Sábado, o duque francês Charles-Emmanuel de Savoy atacou a cidade de surpresa. Fez uma última tentativa de ter para si uma capital comercial, após uma série de assaltos mal sucedidos, tanto militares como diplomáticos. Com seu exército de 2.000 homens munidos de escadas modulares de 9 kg e 1,5 metros cada uma, começou a montagem de rampas para subir as muralhas de Genève e tomar a vila medieval na calada da noite. Deram azar; uma sentinela atenta viu o movimento inimigo e soou alarme, acordando os genebrinos. Badalaram os sinos da Catedral e das outras igrejas. A população civil se uniu às milícias e aos militares. Cada um usava o que podia para rechaçar o invasor. Foi então que ganhou fama eterna a personagem Mère Royaume, dona de uma estalagem e boa de fogão, que passou a despejar caldeirões de sopa escaldante sobre os apavorados franceses.

Explosivos postados pelos franceses em um dos portões de entrada da cidade foram apagados pela sopa que escorria muralha abaixo. O ataque fracassou e os franceses fugiram, consumidos pela raiva e pela vergonha da derrota por alguns litros de sopa (dizem que vem daí o saboroso verbete “consome´”). A escalada francesa terminou em desastre, uma prévia da Queda da Bastilha.

Durante o Domingo, a população de Genève desdobrou-se em ritos de Ação de Graças, enforcou os 13 prisioneiros capturados, ateou fogo nos 54 franceses mortos e enterrou com honras militares os 18 heróis suíços caídos em defesa da Pátria.

Em 1603 foi assinado o tratado de Saint Julien, selando a paz entre Genève e a França, na presença do rei francês Henrique IV, da rainha da Inglaterra, Elizabeth I e dos líderes de cinco cantões suíços.

O dia 11 de dezembro passou a ser o símbolo da independência de Genève, data nacional festejada como  L’ Escalade.

A partir de 1835, foi incorporado aos festejos da L’Escalade a venda e distribuição de caldeirões de chocolate para lembrar e homenagear Mère Royaume. Acredito que essa overdose de calorias motivou os suíços a queimá-las rapidamente. Foi assim criada, a partir de 1978, uma corrida no primeiro sábado de dezembro: La Course de L’Escalade.

Os corredores largam ao sopé da muralha, sobem a colina e percorrem as ruelas estreitas da Vielle Ville, sofrendo com os aclives e com o calçamento medieval. A chegada é no amplo Parc des Bastions, que homenageia Calvin e os reformistas suíços. Com 20.000 corredores em 2005 e 25.000 em 2006, La Course de L’Escalade é um desafio logístico. Como colocar tanta gente em ruas de pouco mais de 1 metro de largura ? A resposta: 17 largadas por faixa etária e mais 2 largadas para elite masculina e feminina, respectivamente. Como o percurso é curto, cerca de 2.500 metros, cada faixa etária passa pelo circuito de 1 a 3 vezes, conforme o caso. Conseqüentemente, o Course de L’Escalade pode ser uma corrida de 2.500, 5.000 ou 7.500 metros. Todas as chegadas são uma festa, com distribuição de brindes, frutas e, naturalmente, sopa.

 

P.S. Professor Astromar participou da 29ª. Edição de Course de L’Escalade, no primeiro sábado de dezembro de 2006. Completou seus 7.500 metros em 36 minutos e 3 segundos.

Foi seu melhor tempo no ano. Talvez ajudado pelo frio genebrino de 6 graus durante a prova.

Tomou sopa, comeu um caldeirão de chocolate e garante que não viu nenhum francês em toda L’Escalade. Mas encontrou o carinho de sua irmã muito doce que adora um doce. 

 

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7 respostas para DUAS ESCALADAS EM GENEBRA

  1. Faustinho disse:

    Meu caro professor, que saudades.
    Saudades de suas palavras, de seus arranjos históricos, de suas sacadas.
    Genebra é realmente um mimo, modelo de civilização, mas não o seria se fosse administrada por um sapo barbudo. Enquanto você se esbaldava e quebrava recordes na Suiça, por aqui continuamos no mesmo engodo, agora sob o codinome de PAC, que tá com cheiro de papel velho… não sei não…
    Bom retorno, meu amigo…

  2. Luz de Pedra disse:

    Adorei a sopa da escalada, e a aula de historia.

  3. Delicado da Kibon disse:

    Meu irmao querido,que beleza !!! Papai e a Mère Royaume devem ter gostado tanto quanto eu do texto inaugural do blog! Tem muita coisa boa, “a overdose de calorias que motivou a corrida, a sopa escorrendo muralha abaixo, e todas as chegadas são uma festa”. Eu vi isso! E a última frase do texto me deixa cheia de lágrimas. Na corrida voce fez o seu melhor tempo do ano. Na calçada do Parc des Bastions, embalados pela música do YMCA, o nosso abraço foi a minha melhor emoção do ano.  Papai, não foi lindo o ano de 2006 ? Beijos, DK.

  4. Gaita disse:

    Que coisa impressionante, tiozinho. Sua cultura é um tesouro arretado. Conte mais e mais.
    Gaita.
    P.S. Eu sei que você não tem 82 anos.

  5. Roger disse:

    Espetacular, James. Parabéns!Feedback: na descrição do filme "Battle of Britain" é um arroubo dizer que os ingleses derrotaram os alemães. O que houve foi que a RAF conseguiu deter o ataque alemão (que preferiram concentrar seus esforços na Rússia), apesar da inferioridade qualitativa e quantitativa dos aviões ingleses. Por isso, os bravos e competentes pilotos da RAF (que eram poucos) mereceram a frase famosa de Churchill: "Nunca tantos deveram tanto a tão poucos". Mas, até o final da guerra, Londres e outras cidades inglesas sofreram intensos bombardeios, inclusive com as devastadoras bombas V1 e V2. As V1 a RAF ainda conseguiu encarar mas as V2 não tinham oponente.O blog está interessante, bonito e muito bem feito. Vou recomendar aos amigos.Abraço,Roger

  6. Voyeur de Wayzata disse:

    Fala, Professor…
    Que frescor ler o seu blog renovado, cultural, instrutivo, refletindo sua nova fase, mais motivada, com melhor energia e astral, depois de uma ácida etapa durante o esquecível ano da campanha do merdão.
    Leio esta primeira edição com muito interesse, prazer e curiosidade, mesmo porque aprendo muito. Se v. permitir, vou divulgar o link Berlinghieri para amigos no Brasil. Quando v. tiver um software que te permita, ao escrever o texto, simultânea e fielmente versa-lo para o Inglês, mande-o para que eu possa divulga-lo também aqui por Minnesota.
    Agora estarei aguardando a publicação do primeiro livro…
    Abraços rubronegros,
    Voyeur de Wayzata, MN

  7. Raspa do Tacho disse:

    Meu professor tão querido
     
     No tempo do saudoso Siris e Pirilampos, as aulas eram de como um país se tornou uma esbórnia, regadas de humor, sarcasmo e ítica feroz. A repetição dos personagens históricos na era Lula II não tem graça.
    As aulas do mestre são históricas, o que torna o texto sempre jovem, com 82, 40 ou quem sabe a idade da sabedoria, a melhor de todas.
    Parabéns pela voltaem grande estilo à Web!

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