YVOIRE, CIDADE MEDIEVAL – O SILÊNCIO DAS PEDRAS, O PERFUME DAS FLORES, AS BRUMAS DO LAGO


São Paulo, 01 de MARÇO de 2007

   

YVOIRE, CIDADE MEDIEVAL – O SILÊNCIO DAS PEDRAS, O PERFUME DAS FLORES E AS BRUMAS DO LAGO

 

Saindo de Genève em direção a Evian, pela Autorute 40, que margeia o Lago Léman e atravessa a região da Haute Savoie, na França, o motorista desapercebido pode passar, idem, por um trecho histórico igualmente idem. E, conseqüentemente, deixar Yvoire para trás, numa curva da estrada. Pecado turístico só reparável com um detour.

Yvoire é uma pequena vila medieval fortificada, situada às margens do Lago Léman. Da autoroute , o viajante deve ficar atento a dois pórticos de pedra castigados pelo tempo, para não perder a entrada da cidadezinha. Automóvel não entra. Atravessando um pórtico (ver ilustração), o viajante na História retorna 700 anos no túnel do tempo. Vielas estreitas, casas de pedra com balcões de madeira trabalhada e telhas amarelas, escadas cobertas de limo, utensílios de cobre, suprimento de água em um poço no meio da única praça da cidade. E, naturalmente, a imponência preservada do Castelo e da Fortaleza de Yvoire, com suas rampas de acesso ou defesa para o lago (ver ilustração).

O visitante que for a Yvoire no Verão, se sentirá no meio de uma festa. O colorido das flores retrata uma imagem impressionista perfumada (ver ilustração). Os jardins e enfeites florais são um dos orgulhos da cidade que vem recebendo, seguidamente, desde 1959 o Prêmio Capital Florida da França e a Condecoração Les Quatre Couleurs.

Como vilarejo, Yvoire surgiu séculos antes de sua fundação oficial, a partir de uma colônia de pescadores, popularizada como parte das rotas comerciais entre a Itália e a França provocadas pelas legiões de Julio César e incrementadas pelo transporte lacustre em embarcações ainda rústicas.

A posição estratégica de Yvoire às margens do lago e como integrante de rotas comerciais importantes levou o Conde Amadeu V, o Grande, a construir fortificações em 1306 (ver ilustração), que oficializou a existência da cidade. Essas fortalezas funcionaram por mais de 200 anos, apenas para capitular aos berneses, franceses e genebrinos, de 1536 a  1591. Seu valor militar desapareceu; o castelo foi incendiado e ficou sem teto durante 350 anos. Por um longo período, Yvoire retornou à sua condição anônima. Mas, como que por milagre, o passado da vila foi preservado.

Por isso, quem entrar por um pórtico de Yvoire no inverno, viverá a Idade Média. Umidade, ruas vazias, uma loja de souvenirs aqui, outra ali, aves tristes no lago. De olhos cerrados, poderá ver, ouvir e cheirar o mercado de peixes, vegetais e frutas, dar espaço à arrogante passagem de armaduras emplumadas recheadas de nobres cavaleiros e afastar-se da rudeza profissional dos mercenários guerreiros de aluguel (ver ilustração). No inverno, o silêncio ecoa nas pedras medievais e nas brumas do lago.

Como uma ponte entre as duas estações, surge bem no meio da cidade Jardim dos Cinco Sentidos, restaurado como seu original medieval. Suas hortas, labirintos vegetais, pomares e estufas de flores transformaram o lugar em terreno rico para poesias e sonhos, um aquarela da Renascença (ver ilustração).

Classificada como uma das mais belas cidades da França, Yvoire está fora do turismo de massa internacional, Sou testemunha que, nesses 32 anos em que nos conhecemos e conversamos, não mudou nada.

Os Berlinghieri em Yvoire

Minha doce irmã que adora um doce e mora em Genève com a cabecinha em Petrópolis, tem levado pelo menos 3 gerações de brasileiros – amigos e familiares – a Yvoire. Acredito que, se recenseados, estejamos na casa das centenas de conterrâneos verde-amarelos que atravessaram os pórticos de Yvoire. Concordo quando ela diz ser “um programa mais pro cultural do que ir à montanha ou se entupir de fondue. Além disso, fica só a 47km de Genève”.

Assino em baixo. Já estive lá 5 vezes. Apenas para querer voltar. Na última viagem, lembrada na ilustração, o anjo que me deu a vida se despediu daquele cantinho que amava tanto. Por ela, Yvoire continua muito viva em mim : o silêncio das pedras, o perfume das flores, as brumas do lago e uma sufocante saudade.

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9 respostas para YVOIRE, CIDADE MEDIEVAL – O SILÊNCIO DAS PEDRAS, O PERFUME DAS FLORES, AS BRUMAS DO LAGO

  1. Faustinho disse:

    Texto emocionante, forte e sensível para uma cidade mágica. Já estou com saudades deste lugar que eu não conheço. Com certeza passarei por lá na minha próxima viagem a França.
    Parabéns…

  2. Luz de Pedra disse:

     
    Que lindo :
     – e uma sufocante saudade, 
     – Vá a Yvoire, para sempre voltar e de saudade se acabar,
     – Pecado turístico só reparável com um detour.
     – Doce irmã
     – O anjo que me deu a vida.

  3. Narciso Rujol disse:

    Caro Astromar,
     
    Parabéns pelo novo site.
     
    Confesso que, devido a recente viagem e ao curso de Intérpretes, não tenho tido tempo de ler todas as preciosas informações lá contidas. Mas esforçar-me-ei para acompanhá-lo !
     
    Abs,
     
    Narciso Rujol

  4. reinaldo.yocida disse:

    Caro Astromar,
     
    Sensacional. Por alguns minutos você me transportou Yvoire. Já a incluí na minha wish list.
     
    Grande abraço.

  5. Voyeur de Wayzata disse:

    Lindo, Professor, principalmente a foto com o Anjo…

  6. Noblesse Oblige disse:

    Professeur ! votre texte est un véritable bijou, je vous félicite et.. pourquoi pas, je suis fière de vous l’ avoir fait connaître…
    Gros bisous
    Noblesse Oblige

  7. Delicado da Kibon disse:

    Aí heim Professor ! Mais uma vez provocando lágrimas de emoção com as suas Viagens na Europa.  Em Petrópolis, fico com a Patrone, e em Yvoire, com o chocolate quente de um bistro local,  em sua companhia!
    Delicado da Kibon

  8. Najla disse:

    Meu querido , obrigadíssima ! Me encantei c/ Yvoire , vc tem razão é deslumbrante e tão rica de informações!… Estou pensando ir à Europa em 2009 , quero saber c/ vc as melhores dicas culturais e encantadas paisagens floridas de lá … A foto sua c/ o seu anjo ,vou imprimir e olhar, olhar ,olhar …está maravilhosa … Com carinho de Najla

  9. Anny Wher disse:

    Oi! Boa tarde!
    Pela segunda vez estive em Yvoire hoje! Acabei de chegar de uma viagem maravilhosa como vc mesmo descreveu… com ótimas palavras por sinal!
    Estou passando uns tempos na Suiça e tive o privilegio de visitar Yvoire nas duas estações q vc referiu! E hj, procurando pela internet a historia da mencionada cidade encontrei o seu blog… que não poderia estar descrevendo melhor tal vila encantadora!
    Belas fotos!
    Parabéns

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