GETTYSBURG E A MAIOR BATALHA DA GUERRA CIVIL AMERICANA – HISTÓRIAS DE PESSOAS E DE FANTASMAS


GETTYSBURG E A MAIOR BATALHA DA GUERRA CIVIL AMERICANA

HISTÓRIAS DE PESSOAS E DE FANTASMAS

 

Gettysburg é uma pequena cidade de 10.000 habitantes, no interior do Estado da Pennsylvania. Fica a cerca de 140 km de Washington, a capital americana. Há séculos aquela é uma região calma, bucólica, dedicada à agropecuária. O que levaria então essa cidadezinha aparentemente sem atrativos chegar aos bancos escolares de todo o país e ter um fluxo ininterrupto de visitantes há 144 anos ?

Em Gettysburg foi travada a maior batalha da Guerra Civil Americana. Os exércitos inimigos do Norte e do Sul, com um contingente de 150 mil homens, enfrentaram-se durante os dias 1, 2 e 3 de julho de 1863 e sofreram 53 mil baixas, um pouco menos do que a quantidade de soldados americanos mortos na Guerra do Vietnã. A batalha de Gettysburg foi vencida pelas tropas do Norte e inverteu o rumo da Guerra Civil, até então totalmente favorável aos rebeldes do Sul.

Decorridos quase 150 anos, Gettysburg pouco mudou desde que o último tiro foi disparado, desde que o último soldado voltou para casa. Quem visitar Gettysburg verá os campos de batalha preservados, museus com histórias e objetos de comandantes e de soldados comuns e poderá passear por uma cidade do século XIX, com seus restaurantes típicos da época, galerias de arte e de antiguidades. Provavelmente encontrará pessoas trajadas com as roupas daqueles tempos. Civis e militares. Durante feriados e fins de semana, trechos da batalha são revividos por centenas de historiadores (“reenactors”) caracterizados como combatentes do Norte ou do Sul (ver ilustração). Eventualmente, poderá até mesmo encontrar um participante verdadeiro da batalha…

Gettysburg tem uma localização geográfica peculiar, pois é entroncamento de uma dúzia de estradas e isso provocou o acaso que fez os dois exércitos para lá convergirem.
Após dois anos de guerra, o Sul das plantações de fumo e algodão, o Sul da escravidão, alcançara vitórias espetaculares diante do Norte abolicionista de Abraham Lincoln, do Norte rico em indústrias, recursos financeiros e armas. O Norte, engolido por politicalha e por incompetência militar, trocava seguidamente seus comandantes. O Sul tinha os melhores generais. Por um lado, as vitórias do Sul pobre desmoralizavam o Norte rico. Por outro lado, o Sul ia sofrendo baixas e perdia suprimentos, se enfraquecia. Para o Sul, a vitória na guerra viria do desgaste político do Norte; para esse, a única alternativa seria a derrota definitiva do exército sulista. Assim, comandado por Robert E. Lee, o exército do Sul, invadiu a Pennsylvania para buscar suprimentos e atrair o Norte para mais uma derrota, que poderia encerrar a guerra.

Casualmente, no dia 30 de junho de 1863, um destacamento sulista entrou em Gettysburg à procura de sapatos para os estropiados e descalços soldados de seu exército. Ao invés de encontrar sapatos, encontrou uma brigada de cavalaria do Norte. A partir daí, mensageiros dos dois lados partiram em todas as direções para avisar o que tinham visto. Foi assim que para lá convergiram 150 mil homens.
No primeiro dia da batalha, 1 de julho de 1863, o Sul tinha superioridade numérica e levou a melhor. As tropas do Norte acabaram o dia fugindo em disparada pelas ruas de Gettysburg, ocupando em seguida colinas importantes na entrada da cidade.

Durante a noite, o Norte se fortaleceu com a chegada milhares de homens. E adotou uma estratégia defensiva, protegendo-se atrás dos muros de pedra das colinas ocupadas. Nos dois dias seguintes, o Sul atacou incessantemente e foi fragorosamente derrotado na tarde do dia 3 de julho, ao tentar um ataque frontal, em campo aberto, contra o Norte, superior em artilharia e infantaria, com um novo e competente general, George G. Meade e, acima de tudo, muito bem posicionado no terreno. Milhares morreram em combate, milhares foram feridos. Toneladas de armamento e munição viraram sucata (ver ilustrações). O Sul começou sua retirada no dia 4 de julho; a notícia do combate correu rapidamente e, nos dias seguintes, visitantes de todo o país começaram a chegar. Voluntários para ajudar os feridos, caçadores de “souvenirs”, curiosos, fotógrafos, turistas, além de mães, pais e filhos à procura de notícias de seus entes queridos que ali haviam combatido.

 

Depois de Gettysburg, o Sul nunca mais foi o mesmo. Lutou ainda por mais dois anos até a rendição, em abril de 1865. O sacrifício dos 53 mil soldados que caíram naquele campo de batalha foi reconhecido e homenageado pelo Presidente Abraham Lincoln, em novembro de 1863, quando fez um discurso histórico na inauguração do cemitério militar da cidade.

Tudo isso fez a fama de Gettysburg. As crianças americanas aprendem na escola o discurso de Lincoln em Gettysburg. Quando o último soldado da Guerra Civil morreu, em 1956, Gettysburg já estava coberta de monumentos levantados pelos veteranos que lá combateram, seja para lembrar um episódio, um grupo de colegas ou um general (ver ilustração). Gettysburg é hoje um Parque Nacional. Diariamente, ônibus escolares chegam à cidade com estudantes que disputam as atrações com centenas de turistas e historiadores (ver ilustração).
O Parque Nacional de Gettysburg é um lugar lindo. Cheio de cores, de flores, de pássaros, esquilos, etc. Cheio de paz. Pode-se percorrer os locais da batalha de carro ou a pé. Em horas ou em dias.
Quem vai a Gettysburg deve conhecer e gostar de história. Pode estudar antes ou aprender lá. Guias treinados estão no Visitor Center exatamente para isso.

Mas existem histórias em Gettysburg que não estão nos livros de História. O que dizer da visão de um oficial de cavalaria com uniforme completo do Norte que passa calmamente com seu cavalo em frente a um grupo de visitantes e, ao chegar do outro lado da estrada, desaparece ? Ou de um grupo de “reenactors”, que, no meio de uma passagem no bosque encontra três soldados que lhes entregam uma caixa de munição datada de 1863, nunca utilizada e novinha e depois desaparecem na neblina ?

E aquela exibição precisa de marcha e ordem unida militar que um grupo de diplomatas viu do alto da colina na planície logo abaixo … em um dia em que nenhum grupo de “reenactors” estava no parque ? E o soldado ferido que pede água a um visitante que estava no parque quando já anoitecia ? E o ruído da tropa marchando de madrugada em frente à janela de um hotel com vista para o campo de batalha ? E os gritos de feridos no subsolo do Gettysburg College ocupado durante a batalha e semanas depois como um hospital de campanha ?
Uma explicação para esses eventos sobrenaturais pode estar no fato de tantos e tantos jovens terem tido uma morte súbita e violenta. Pode ser que suas almas não tenham descansado, continuando a vagar nos lugares em que viveram seus últimos dias. Para quem gosta desse tipo de história e emoção, a cidade oferece diariamente os Ghost Tours. Caminhadas com guias especializados para ouvir relatos nos locais onde dizem ter acontecido repetidas vezes.

Gettysburg à noite se transforma. Nas janelas das casas da época aparecem velas acesas. Segundo a tradição, isso significa que naquele lar se espera a volta de um alguém muito querido que foi para a guerra. E ainda está no túnel do tempo (ver ilustração).

 

Professor Astromar em Gettysburg

Professor Astromar já esteve em Gettysburg duas vezes. Na primeira vez, em 1997, ficou dois dias na cidade. Estava em um  giro para conhecer diversos campos de batalha. Em Maryland, visitou Antietam. Na Virginia, esteve em Manassas, Fredericksburg e Chancelorsville. E em West Virginia, visitou a incrível Harper’s Ferry. Mas isso fica para uma outro trelélé.Na segunda vez, em 2001, viveu uma semana de Gettysburg. Depois de passar dois dias fazendo pesquisas em Washington, no National Archives (onde descobriu seu ilustre antepassado apresentado na ilustração), foi para o campo de batalha e lá passou sete dias imerso nos seus livros e nas trilhas e monumentos do parque nacional. Além das galerias de arte e restaurantes do século XIX.Até começou a montar uma pequena pinacoteca (ver ilustração).

Nas duas ocasiões em que foi a Gettysburg encontrou-se com fantasmas. Do Norte e do Sul. Foram muito simpáticos. Mas assustadores. Tenho testemunhas.

 

-Informações adicionais sobre Gettysburg poderão ser encontradas nos sites http://www.gettysburg .com e http://www.nps.gov/gett/
E a história completa da batalha está no filme épico “Anjos Assassinos” (“Gettysburg”) disponível em VHS ou DVD em algumas locadoras aqui no Brasil. Imperdível.

 

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8 respostas para GETTYSBURG E A MAIOR BATALHA DA GUERRA CIVIL AMERICANA – HISTÓRIAS DE PESSOAS E DE FANTASMAS

  1. King Naldo disse:

    Digníssimo Astromar,
     
    Sua narrativa é envolvente. É um privilégio receber uma porção de seu gigantesco conhecimento sobre a Guerra Civil Americana. A foto de seu ancestral James é impressionante pela qualidade do retoque e a semelhança com o seu olhar determinado! Poderias nos brindar com relatos de seus contatos imediatos com os combatentes…
     
    Abração.

  2. Camillo disse:

    Caro prof.Astromar..
    Muito boa lembrança essa batalha e os fantasmas de Gettysburg, apesar que eu já conhecia, através de outro brilhante relato seu, algum tempo atrás.Também excelente e impressionante relato é o da "Paris libertada".Parabéns e vamos aguardar os próximos.
    abraço
    Camillo

  3. Voyeur de Wayzata disse:

    Amigo Professor
    Adorei o Corporal Berlinghieri…Pensei que fôsse uma foto tomada de uma das almas indecisas se ficam na melhor ou voltam pra pior ( eles que não sabem a merda que isso aqui está com o Comandante Bush ). Sua expressão é a de um soldado congelado pelo frio. Seu olhar desesperado lembra o meu nesse final de Inverno em Minnesota.
    Muito obrigado, pela homenagem sutil. 
    Aliás, vibro com a nova fase cultural do Professor. Menos amargo e sarcástico, à prova do Mal de Lula, fazendo-nos, todos os que o lêem, melhores pessoas.
    Continuo circulando o blog sem pagar royalties…

  4. Capitão Raimundo Nonato disse:

    A bença Mestre Astromar ! Eita história porreta. Gostei de saber que os fantasma gringo tomaram de carreirinha de vosmecê. Aqui no cangaço esses zé dos lençóis num dava nem pra saída num enfrentamento com a Mula Sem Cabeça, o Curupira, o Saci e o Chupacabra. Agora, tu tá certo em num aceitar posto de soldado raso. Isso é coisa pros macaco das volante que persegue nóis. Se Nonato é Capitão, Astromar só pode ser mesmo é General.
    Capitão Raimundo Nonato.

  5. Patrícia disse:

    Estou embevecida com seu novo espaço. Tudo tão requintado, elaborado, elucidativo.
    Que bom voltar a ler seus textos, tão bem redigidos e interessantes sob todos os aspectos.
    Um beijo, Professor, e um delicioso domingo.

  6. Narciso Rujol disse:

    Caro Astromar,
    Sensacional o seu relato sobre Gettysburg ! A foto do "antepassado" está ótima, algo como bandido se escondendo da reportagem… 
    By the way, comentei com o professor chefe do Curso de Intérpretes, sobre sua expertise no assunto Guerra Civil , e ele me disse que se você quiser, as portas do curso estarão abertas para uma possível palestra informal, sua , em inglês, em outubro ou novembro próximos, se você vier ao Rio.
    Fique à vontade !
    Abs,
    NR

  7. Professor Astromar disse:

    Prezado Narciso
    Convite aceito, com muito prazer. Informe tópicos e duração. Levarei a apresentação em um pen-drive. Na mochila, irão alguns fantasmas convidados. São meio tímidos. Poderão aparecer, ou não.
    Saudações do 33rd Virginia Infantry Regiment of Volunteers
    Cabo Astromar Berlinghieri

  8. Cristiano do Prado disse:

    Caro Astromar
    Gostei muito do seu informe sobre a guerra da Sesseção, porem a "foto" do teu antepassado , tá mais que visível que é você quem está lá…Abraços

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