AS CORES DO FLA-FLU


AS CORES DO FLA-FLU

 

Aposto que o Fla-Flu, combate eternizado no clássico de futebol Flamengo x Fluminense, é o jogo mais colorido do Rio de Janeiro, do Brasil e do Mundo. A vibrante combinação do rubro com o negro, nos remete ao ritmo, à elegância e às manifestações de paixão captados na música e na dança flamenca e na cor vermelha do sangue de um touro negro nas “plazas de toros” da Espanha. Não são menores a vibração e a emoção despertadas pelo tricolor verde-vermelho-branco espelhado na bandeira da Itália. A Itália da Máfia impiedosa e misteriosa, a Itália das artes da Renascença, a Itália da Roma dos gladiadores.

No palco de sua majestade, o Maracanã, sob o resplandecente céu azul de um domingo carioca abraçado pelo Cristo Redentor, o arco íris dessa combinação de cores se transforma em um gigantesco quadro impressionista que invade as arquibancadas imperiais, tomadas pelos gritos, bandeiras, uniformes e corações das duas torcidas.

Nelson Rodrigues um dia escreveu que o Fla-Flu começou quarenta minutos antes do Nada. Para mim, absolutamente verdadeiro, pois, ainda criança pequena, virei torcedor do Fluminense após um inebriante Fla-Flu. No entanto, a verdade, censurada da paixão, contesta a versão mitológica. O Flamengo nasceu primeiro, em 1895, como Clube de Remo. Já o Fluminense Football Clube foi fundado em 1902 e logo dominou o futebol na autêntica Cidade Maravilhosa. O britânico Paysandu, hoje um esnobe clube de críquete, era seu principal adversário. Mas, que graça poderia haver em um Pay-Flu ? Ou em um Sandu-Nense ?

Foi então que, em 1911, uma dissidência entre os aristocratas do futebol tricolor levou uma turma mais malandra e chegada a uma esbórnea a se pirulitar das Laranjeiras para fundar o Departamento de Esportes Terrestres do Flamengo. De irmãos siameses a adversários cavalheirescamente irreconciliáveis, Flamengo e Fluminense se enfrentaram pela primeira vez em 7 de julho de 1912, num Estádio das Laranjeiras colorido pelo então jovem arco-íris do Fla-Flu. Vitória tricolor por 3×2.

Desde ali, os confrontos imortalizaram a História, ou vice-versa. Neles desfilaram semi-deuses como Zizinho, Leônidas, Ademir, Castilho, Chamorro, Dida, Doutor Rubis, Didi, Telê, Jadir, Tomires, Escurinho, Jordan, Cafuringa, Fio Maravilha, Rivelino, Zagallo, Valdo, Zico, Bebeto, Félix, Paulo César Caju, Assis, Romerito, Reyes, Branco, Renato Gaúcho, Pinheiro, Altair, Carlos Alberto Torres, Onça, Gerson, Petkovic, Doval, Edmundo, Samarone e centenas e mais centenas de outros.

O Flamengo coleciona mais vitórias, mas o Fluminense venceu mais campeonatos. O Flamengo foi campeão mundial de clubes em 1981; o Fluminense, em 1952.

Fui testemunha de incontáveis Fla-Flu’s. Deixei lágrimas nas rampas do Maracanã. Muitas de tristeza, muitas de alegria. Nunca vi sangue num Fla-Flu, ao contrário do que acontece hoje nas guerras das torcidas pelo mundo afora. Flamengo e Fluminense sabem de sua responsabilidade na História do Futebol e, quando se defrontam, recuperam a fidalguia e a nobreza de quase 100 anos de cores fraternas. Seu colorido é definitivo.

Um dia, joguei um Fla-Flu. Eu era um menino de 10 anos e via meu primeiro ano letivo no colégio jesuíta terminar, acumulando boas notas, mas com um desempenho pífio no campeonato de futebol escolar. O “Flamengo” havia sido campeão invicto. E o meu “Fluminense” terminara em último lugar, sem haver marcado um gol sequer. Para celebrar o fim do ano letivo, o padre dos esportes promoveu um jogo entre o campeão e o lanterninha. Eu recebi a faixa de capitão tricolor. Partida duríssima, bola para todo lado e placar teimosamente mudo, enquanto a hora do recreio se aproximava do final. Num sufoco dentro da área do “Flamengo”, meu amigo Álvaro, meio campo rubro-negro, colocou a mão na bola, impedindo milagroso gol tricolor. Penalty inapelável. A torcida se amontoou atrás do gol para ver a cobrança. Resolvi bater o penalty, coisa que nunca havia feito na vida. No silêncio que antecede o golpe sem volta, tomei distância e me preparei para chutar rasteiro, à direita do goleiro. Silêncio.

E, até hoje, tantos anos depois, ainda me pego com um sorriso maroto ou com um pequeno engasgo, ao ouvir, dos túneis do tempo, o ruído da bola estufando as redes, pelo alto, no lado esquerdo do goleiro.

Fluminense 1 x 0 Flamengo, gol do pequeno Astromar.

      

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21 respostas para AS CORES DO FLA-FLU

  1. Faustinho disse:

    Meu caro professor,
    confesso que fiquei emocionado no final. Realmente Fla-Flu sempre despertou paixões. Foram poucos os jogos entre Flamengo e Fluminense que não valesse a pena assistir. Aquele mar de gente na arquibancada é emocionante. Conheço o Maracanã só pelo lado de fora. É uma grande frustração nunca ter assistido a um jogo nesta que é a mais glamourosa arena de futebol do mundo. Espero poder levar meus filhos antes de crescerem. Aliás, jogo no Maracanã deveria passar no cinema. Lembro do Canal 100 onde a tela parecia ser do tamanho do campo. Que saudade.
    Em tempo: parabéns pelo gol.
    abs

  2. Camillo disse:

    Grande Astromar !! Espero que esteja tudo bem por aí..
    Excelente lembrança do clássico carioca, realmente o colorido e a vibração das torcidas é contagiante,(apesar que o clássico das multidões -Vasco e Flamengo, também é cotado e lembrado pelo entusiasmo). Apreciei seu comentário neutro, confesso que no inicio pensei que voce iria favorecer seu time de coração, lançando para o lado do clube das Laranjeiras, os maiores elogios e rasgação de seda, Vale lembrar grandes times do futebol carioca, como o Botafogo de Quarentinha e Amarildo, ou o Bangu de Aladim e Paulo Borges…
    Parabéns. Abs
    Camillo

  3. Raspa do Tacho disse:

    Mano Professor.
    Augusto fez comentário sobre sua cronica AS CORES DO FLA-FLU.Ele bem poderia contar esta historia sob o pseudonimo de Ufarte, o Espanhol que jogou no Flamengo na década de 60. Já mandei para ele divulgar entre os coleguinhas do Colégio São Bento, que amam futebol, e há muitos tricolores. Bjs

  4. Augusto Espanhol disse:

    Professor tricolor

    A crônica de fato está bem escrita. Infelizmente, não poderei responder à altura, pois minha capacidade para é limitada.
    Alguns acham que meu amor pelo rubro-negro nasceu quando morei na Espanha. Não. Na Espanha me tornei torcedor do Atletico de Madrid porque tinha um jogador chamado Ufarte, que havia jogado no Flamengo com o nome de ESPANHOL. Me tornei Flamengo uma vez em 1962(contrariando um primo, que queria que fosse Botafogo)por causa de um sujeito que fazia um trabalho no muro da minha casa da Av. 7 de Setembro em Petrópolis e que vestia a camisa do Flamengo e de cara me identifiquei com o Manto Sagrado. Amor à primeira vista.

  5. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Muito boa essa sua literatura colorida sobre os tricolino e os urubulino. Confeço que, por razões óbvias de trabaio, a minha pessoa e os companheiro de cangaço torce tudim pro Botafogo. Interessante que outro dia nóis fizemo aqui no acoitamento de Peixeira Grande um campionato de futebol entre os bando, talqualmente o de vosmecê lá no liceu dos padre. No jogo final, meu bando, Os Caça Macaco, jogou contra uns vizim, os Chumbo Quente. Jogo duro,  0x0, até que ganhemo um penalti. Chico Unha Encravada bateu pra fora. Deixei o time todo três dia sem água e o Chicão tá passando uns tempo tirando leite de jegue. Será que da próxima vêis, caso careça, o sinhô podia vir aqui bater o penalty ?
    A bença, meu professor.
    Capitão Raimundo Nonato

  6. Urubu Zimbres disse:

    Bela história, Professor, sobre os dois maiores times de futebol do Rio de Janeiro, que me desculpem os alvi-negros da vida, com ou sem cruz de malta.
    A expressão "irmãos siameses" caracteriza bem a ligação Fla-Flu.
    Deve ser por esse motivo que eu não consigo torcer contra o Fluminense.
    Confesso que muito pequenininho, tipo 3, 4 anos de idade, eu torcia pelo Fluminense, até que um vizinho, fanático pelo Flamengo, tudo na casa era rubro-negro, até o abat-jour da sala, me fez conhecer essa combinação de cores vibrante e harmônica, e aí foi paixão à primeira vista.
    Confesso que sou apaixonado até hoje.
    Já falei com meus filhos que serei enterrado (não quero ser cremado) com uma bandeira do Flamengo envolvendo o caixão, simbolizando uma das grandes paixões da minha vida.
    Saudações manto-sagradenses do Urubu Zimbres.

  7. Narciso Rujol disse:

    Welcome back, Astromar !!!!
    Abcs
    Narciso Rujol

  8. Chuviscos da Escalade disse:

    Nem sei o que comentar depois de um texto tão bom. Impressionante. Você escreve bem demais.

  9. Primo Fogão disse:

    Meu caro primo Astrominho
    Lembre-se que, poucos dias após você bater aquele penalty, eu te levei de jipe para ver o Botafogo campeão enfiar 6×2 no coitado do Flu. Na volta você ficou ainda mais puto comigo porque acendi os faróis às 18 horas – como determinava o Código do Trânsito, no verãozão de dezembro ainda estava bem claro e a festa alvinegra corria solta pelo Rio…. Mas acho que, depois disso, você jogou cocô de arara no meu time,  né ???

  10. Voyeur de Wayzata disse:

    Professor,
     
    Em nossas abençoadas vidas, dividimos experiências similares de colegio, turma e time – este, ainda que em posicões antagônicas mas não tanto. Sabe porque ? Apesar de herdeiro de legado rubronegro – pai remador decacampeão carioca, pentacampeão brasileiro, tricampeão sulamericano, participante das Olimpíadas de Berlim, e mãe nadadora tricampeã carioca, tetracampeã brasileira e bicampeã sulamericana, ambos crias do Mengão –  este que te fala vestiu a camisa tricolor no basquete faturando um bicampeonato brasileiro juvenil em 62-63 e um campeonato carioca de adulto em 66 numa final contra o Flamengo ! Não preciso dizer que neste último minhas lágrimas eram uma mistura de doce com salgado…Graças a Kanela, finalmente fiquei em paz com o meu coração…
    Obrigado pela lembrança…
     
    Voyeur de Wayzata

  11. Noblesse Oblige disse:

    Noblesse oblige, la pauvre, ne comprend rien du tout de cette histoire de Fla-Flu, par contre, a Delicado da Kibon vibra! Ainda mais que o corredor da Escalade fez um bonito com camisa e short do Fluminense! Fica pra vida toda, como o o gol do Petit Astromar.

  12. Luz de Pedra disse:

    MARAVILHOSO !
    "No palco de sua majestade, o Maracanã, sob o resplandecente céu azul de um domingo carioca abraçado pelo Cristo Redentor, o arco íris dessa combinação de cores se transforma em um gigantesco quadro impressionista que invade as arquibancadas imperiais, tomadas pelos gritos, bandeiras, uniformes e corações das duas torcidas".
    ADOREI A SUA MAJESTADE O MARACANÃ !!

  13. Peter disse:

    Eu me rendo, impotente, às palavras escritas de Nélson Rodrugues : "Fla-Flu. Não há jogo maior em todo o mundo. E quanto mais Fla-Flu\’s houver, maior será a paixão voluptuosa do povo. Depois de um Fla-Flu, começa uma violenta nostalgia do próximo. Todo clássico pode morrer, menos o Fla-Flu".

  14. Delicado da Kibon disse:

    Oh Monsieur Voyeur ! Entre os comentários sobre Petrópolis e o Fla-Flu, as suas lembranças são brilhantes. É muito bom ter o genial Professor como intermediário ! Obrigada.
    Delicado da Kibon

  15. Diário do Gêlo disse:

    O Diário do Gêlo, tradicional periódico da comunidade brasileira tiritante de frio nos iglus de Minnesota, acaba de descobrir uma novelesca história da irmandade Fla-Flu. Dois amigos de colégio, que não se vêem desde os tempos do dito cujo, conversam todos os dias pelos canais cibernéticos. O congelado é rubronegro alucinado e o surfista cerebral vaga por São Paulo enrolado nos mais diversos artefatos tricolores. Para comprovar a veracidade do texto AS CORES DO FLA-FLU, o Diário do Gêlo descobriu que, Henri, o Voyeur de Wayzata, foi um grande jogador de basquete. Foi um dos pioneiros da hoje corriqueira "enterrada". "Enterrava"  de tudo, de bolas na cesta a garotas de Ipanema. De boletins escolares a guimbas de Luís XV. E foi campeão carioca de basquete. Pelo seu Flamengo e de seus pais e pelo Fluminense de seus amigos.

  16. Raspa do Tacho disse:

    Esse congelado é sensacional !
    Lá do fim do mundo ele nao perdeu a memória carioca.
    Saudações rubronegras para ele.
    Raspa do Tacho

  17. Voyeur de Wayzata disse:

    Referente às  fotos no album Brasil, é uma honra estar no blog. E em boa companhia, com Lampião… Quem sabe, daqui a 800 anos, alguém descobrirá os restos destes registros e se perguntará : que gente estranha essa, que se vestia de couro e andavam armados, e ao mesmo tempo pulavam que nem sapos atrás de uma bola ?…

  18. Patrícia disse:

    Q magnífico este post! O sujeito, quando tem a tal da Inspiração, pode falar mesmo sobre qqer assunto.
    Assistir um jogo de futebol no estádio é pura vibração, é lindo, é o ópio. Panis et Circenses.
    Mais emocionada fiquei por seu gol e por sua narrativa primorosa.
     
    Saudações Vascaínas!

  19. Professor Astromar disse:

    Maravilhosa crônica sobre Fla Flu, ou será Flu Fla???… GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLAÇO ! 50 anos depois…

  20. Ana Cristina Ribeiro disse:

    Muito legal…imagino a autoestima do guri naquele dia! Valeu Astromar!

  21. Marcia Perissé disse:

    Parabéns pelo gol!!!

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