NORMANDIA PARTE II – SÉCULO XX


NORMANDIA – PARTE II

Nas ondas da Liberdade, enquanto Hitler dormia

 

INTRODUÇÃO

A tranqüila Normandia (Fig.1), região francesa que viu a Europa medieval tomar uma guinada com as marchas e travessias de Guilherme, o Conquistador, no Século XI, foi palco de outro colossal episódio de amplitude mundial, quase 900 anos depois. À doçura de nomes como Bayeux, sede da tapeçaria em quadrinhos de 1067, o mapa da História acrescentou outras pequenas vilas, cujos nomes parecem extraídos de românticas  poesias, Sainte Mère Église, Sainte Marie du Mont, Vierville Sur Mer, Pointe du Hoc, Arromanches. Esses lugares bucólicos foram engolidos pelas ondas do desembarque Aliado para libertação da Europa do domínio nazista, no maior capítulo da Segunda Guerra Mundial. Buracos de bombas, canhões retorcidos, casamatas despedaçadas, cruzes e mais cruzes brancas, e um silêncio ensurdecedor, descartam palavras para dizer que, por ali, passou o destino da humanidade.  A partir da meia noite do dia 6 de junho de 1944, na mais gigantesca operação militar da História, centenas de milhares de americanos, ingleses, franceses, poloneses, canadenses, australianos, irlandeses,  escoceses, belgas, tchecos, holandeses e noruegueses atravessaram o Canal da Mancha, rumo às praias da Normandia,  em mais de 8.000 embarcações e aeronaves, em ondas sucessivas de ataque, para iniciar a marcha da Liberdade que só iria terminar em Maio de 1945, em Berlim, com a queda definitiva do III Reich.  Era o D-Day, o Dia D.

Fui apresentado a esse episódio da História em 1962, quando, no Rio de Janeiro, meu pai me levou ao cinema para assistir ao filme “O Mais Longo dos Dias” (Fig.1). Impressionadíssimo com o que vi, a partir da abertura do filme, mostrando um capacete aliado emborcado numa praia, sob os acordes da 5a.Sinfonia de Beethoven, comecei a estudar essa passagem da História. Mais de 40 anos depois, livros, revistas, filmes, documentários, postais, fotos e mais fotos entopem meus armários e estantes. Esse conhecimento acumulado me levou à Normandia duas vezes. Em ambas as ocasiões, fiquei em Bayeux, até então desconhecida para mim, como também as demais vilas de nomes inocentes, ligadas entre si por fatos históricos e por pequenas estradas ladeadas por muros de pedra das fazendas seculares, ou por milenares “bocages”, emaranhado de espinheiros e matagal que formam uma barreira natural de proteção e esconderijo, mais para os defensores do que para os atacantes.

A Operação Overlord, ataque para libertação da Europa de Hitler através das praias da Normandia, foi decidida por chefes de Estado (Churchill, Stalin e Roosevelt), planejada por oficiais generais (liderados por Marshall, Eisenhower e Montgomery) e totalmente executada por anônimos cidadãos comuns transformados em combatentes implacáveis (Fig.1). 

 

A DECISÃO E O PLANEJAMENTO

Consumada a tão esperada entrada dos Estados Unidos no Conflito Mundial, provocada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, a Inglaterra e a Rússia, últimos remanescentes no combate ao apocalipse nazista, passaram a pressionar os americanos na formulação de um plano para livrar a Europa do domínio alemão. Na Conferência de Cúpula de Teerã, em Novembro de 1943, Winston Churchill, Franklin Delano Roosevelt e Josef Stalin chegaram a um acordo: partindo do Reino Unido, forças aliadas atravessariam o Canal da Mancha e desembarcariam em praias francesas, em Maio de 1944. Objetivo: destruir o poderio militar alemão na frente ocidental, para depois avançar até o coração industrial do III Reich e, assim, terminar a guerra.

A partir de então, de um lado, tropas e equipamentos aéreos, navais e terrestres foram sendo concentrados por toda a Inglaterra, em paralelo com um gigantesco esquema de logística (Fig.2). Era a ponta de lança da libertação, afiada por 12 países aliados.

Do outro lado do Canal, os alemães, desconfiados, apressaram-se a colocar prisioneiros de guerra em regime de trabalhos forçados, sob a supervisão do lendário Marechal Erwin Rommel, a Raposa do Deserto, para levantarem a formidável Muralha do Atlântico (Fig.2). De Pas de Calais às praias da Normandia, um intrincado esquema de labirintos de concreto, ninhos de metralhadora e de canhões de médio e longo alcance foi construído, complementado por vigas de aço entrelaçadas para bloquear desembarques e pelos temíveis “aspargos de Rommel”,  lanças de aço ou madeira com minas nas extremidades, para afundar anfíbios e transportes de tropas em águas rasas. Como disse um sargento alemão, “nem uma galinha poderia atravessar a praia sem ser atingida pelo menos quatro vezes” (Fig. 2).

O mais bem guardado segredo da guerra passou a ser o local do desembarque. Os alemães esperavam o ataque na região de Pas de Calais, o ponto francês mais próximo do litoral inglês. Mas os aliados escolheram os 60 km de praias da Normandia, e as identificaram em cinco setores. Utah Beach e Omaha Beach, próximas a Bayeux, Sainte Mère Église, Vierville sur Mer e  Sainte Marie du Mont, com os americanos. Juno, Sword e Gold, próximas a Arromanches com os ingleses e as tropas dos demais países (Fig.3). Para manter os alemães na dúvida, os aliados alocaram, diante de Pas de Calais, divisões de borracha e madeira, soldados de pano sob o comando do heróico General Patton, com “agitados” oficiais e praças (Fig.2). E criaram um frenético tráfego de mensagens fajutas para que os nazistas acreditassem que alguma coisa importante e de grande porte estava acontecendo ali. Deu certo.

Após uma estressante novela política, o general americano Dwight Eisenhower foi confirmado como comandante das forças aliadas na Operação Overlord (Fig.1). Um contínuo bombardeio estratégico teve início semanas antes da grande invasão, visando locais críticos na Alemanha e na França, não só destruindo instalações e equipamentos, mas também desorientando ainda mais os alemães quanto ao verdadeiro local do desembarque aliado.

O verão no Canal da Mancha é equivalente ao inverno no litoral de Santa Catarina. Ventos, vagas, chuva e frio. Isso fez o ataque ser adiado algumas vezes, castigando as tropas já embarcadas, debaixo de tempestades e de vômito mareado.  Finalmente, o meteorologista chefe das tropas aliadas previu uma melhoria no tempo sobre o Canal durante as próximas 48 horas. Eram 04:15 na madrugada de segunda feira, 5 de junho de 1944, quando Eisenhower disse: “Vamos !”. 

Essa ordem colocou em movimento uma engrenagem de 1 milhão e 200 mil combatentes, outro tanto em atividades de apoio, 5.500 tanques, 4.800 canhões, 2.500 aviões de bombardeio, 3.500 caças, 1.600 navios e 4.000 lanchas de desembarque.

Já que o meteorologista alemão pensava diferente, Rommel foi para a Alemanha festejar o aniversário de sua esposa, deixando a Muralha do Atlântico nas mãos  do segundo escalão e o comando das tropas, aviação, blindados e artilharia espalhado por diversos monóculos em Berlim, proibidos por um adormecido Hitler de qualquer ação sem sua autorização pessoal expressa (Fig.1). Os números alemães eram inferiores. E a motivação também. 720 mil combatentes, e 780 mil em atividades de apoio. 1.000 tanques, 3.200 peças de artilharia, além da Luftwaffe com seus 400 bombardeiros e 420 caças.

 

D-DAY

“Les sanglots long des violons de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone”. Trecho suave do poema “Chanson D’Automne”, de autoria do menestrel da poesia francesa do século XIX, Paul Verlaine.

Esse foi o gatilho transmitido pelas  rádio-piratas operando da Inglaterra para a França ocupada, que pôs em marcha os soldados clandestinos da Resistência Francesa. Um formigueiro de patriotas começou a praticar atos de sabotagem em pontes, ferrovias e linhas de comunicação, marcaram a sinalização dos locais de pouso noturnos, coletaram inteligência militar e até começaram a matança de alemães. Foram decisivos na pré-invasão, trazendo de volta o espírito da Revolução Francesa, Liberté-Ègalité-Fraternité, portando fuzis e detonadores, ao invés dos barretes vermelhos e estômagos vazios de 1789.

Aviões de transporte C-47 e planadores começaram a receber paraquedistas e armamento leve e veículos (Fig.3). O ataque ia começar. Voando alto e às escuras, as esquadrilhas seguiram para seus destinos, guiadas por indicações luminosas no solo francês (Fig.3). Eram 822 aviões e 13.000 pára-quedistas. A eles cabia tomar as defesas inimigas na retaguarda e causar confusão entre os alemães. Causaram também confusão entre si mesmos, com batalhões lançados fora do local de destino e misturando-se uns com os outros.

Em Sainte Mère Eglise, por exemplo, desceram centenas de paraquedistas americanos na praça central iluminada pelo incêndio em um casarão. Foram recebidos a tiros pela guarnição alemã ali estacionada. Um dos americanos caiu na torre da igreja matriz da Idade Média e lá ficou balançando em seu paraquedas. Salvou-se com apenas um tiro no pé. Quem visita a cidade ainda vê um manequim vestido de soldado pendurado na torre da igreja. 60 anos depois (Fig 4). Era o soldado John Steele, falecido em 1969, mas que cedeu seu nome a um restaurante de esquina que serve um inacreditável Crepe du Débarquement. O filme “O Mais Longo dos Dias” (Fig.1) revive em detalhes esse episódio (Fig.4). Sentado na mureta da igreja, olhando para cima, senti várias vezes o empuxe provocado no chão por paraquedas que desciam. Mas a realidade sempre teimava em trazer-me de volta e ver que, em vez de paraquedistas, o vento trazia ao chão, balançando, folhas das velhas castanheiras que cercam a praça, testemunhas mudas da descida celeste daqueles anjos vingadores armados de metralhadoras.

Achei Sainte Marie du Mont (Fig.5) a caminho de Utah Beach. Minúscula vila medieval com uma praça e quatro ruelas radiais.  Aparentando principal atração do lugar, destaca-se o monumento aos cidadãos mortos na Primeira Guerra Mundial. Erro, o viajante de olho na História logo descobre 12 placas metálicas nas paredes, narrando pequenos combates entre soldados alemães e americanos ali ocorridos no Dia D. Dramas individuais da guerra. Uma delas conta, como em um “western”, que dois inimigos sacaram suas armas e dispararam simultaneamente. O americano tombou mortalmente ferido, e o alemão foi socorrido pelo padeiro que acabara de abrir seu estabelecimento naquela manhã. Outra placa descreve um atirador de elite americano, com rugas de veterano e a frieza de um caçador, posicionado atrás de um poço de pedra na praça central; cada alemão que surgia era abatido com um único tiro. Ao final do dia, 14 cadáveres alemães empilhados mostravam o resultado de seu dia de trabalho. Combates e troca de tiros aconteceram dentro da igreja medieval. Marcas de sangue ainda podem ser vistas ao lado do confessionário. Alguém foi conversar com o vigário antes de se apresentar ao Criador. Um outro episódio, decisivo na batalha da Normandia e ocorrido em Sainte Marie du Mont, aparece no filme “Band of Brothers” (Fig.1). A tomada de uma bateria alemã fortificada por um pelotão americano usando tática inovadora de assalto. Além de aliviar a pressão nos combatentes que desembarcavam em Utah Beach. Virou estudo-de-caso em sala de aula na Academia Militar de West Point.

Pointe du Hoc, poderia perfeitamente ser candidata a uma das maravilhas da natureza; um enorme bloco de granito, esculpido através milênios pelo vento normando, postado diante de um platô de 35 metros de altura, como a proa de um trirreme da Antigüidade desafiando seu inimigos a pisar em seus invictos domínios. Acreditando estarem ali baterias alemãs diante das expostas Omaha Beach e Utah Beach, aviões e navios aliados submeteram a região a um bombardeio impensável. As marcas das bombas estão lá até hoje (Fig.5 e Fig.8).

Depois da preliminar dos paraquedistas, a armada da invasão partiu às primeiras horas da manhã. Silenciosa, ruídos abafados pela rouquidão ritmada dos motores diesel e o rasgar das águas por proas blindadas (Fig. 6). Havia neblina no Canal da Mancha. Dentro de suas casamatas, a guarnição alemã não enxergava nada. E seus soldados nem tiveram tempo de se espreguiçar. A artilharia naval aliada despejou toneladas de fogo e aço sobre suas cabeças, troncos e membros. Duas horas de amaciamento explosivo de chucrute e cimento armado. Os telefones dos oficiais alemães na retaguarda, em Paris e em Berlim começaram a tocar desesperadamente. “Invasionen ! Invasionen !”, berravam as testemunhas nas praias. Ouvidos moucos respondiam do outro lado. “Impossível ! A invasão vai acontecer em Pas de Calais. Isso aí é um ataque de enganação ! Liberar reforços ? Divisões Panzer ? Aviação ? Estão loucos ? Só com ordem pessoal do Führer ! E o Führer não pode ser acordado ! Nein ! Nein ! Nein ! Au Wiedersen !” .

Os navios transporte começaram a descarregar tropas e blindados em embarcações menores, as LCT e as LST. A primeira onda de ataque dirigiu-se às praias (Fig.6). A defesa alemã abriu fogo; duelo de titãs contra os navios de guerra aliados. Western do apocalipse. Várias lanchas de desembarque foram atingidas ainda no mar. Tanques anfíbios naufragaram a poucos metros da praia. Centenas morreram sem entrar em combate.

Os desembarques em Utah Beach (Fig.7) e nas praias Juno, Gold e Sword ocorreram quase sem resistência. O trabalho dos paraquedistas durante a madrugada havia sido fundamental. Em Utah Beach ainda existem tanques e lanchas de desembarque usados no D Day. Nas duas vezes em que estive lá foram esses os únicos sinais percebidos de vida humana, fora alguns monumentos comemorativos. As forças da natureza retornaram a configuração original do lugar. Restaram somente os sons estridentes do vento forte e das gaivotas normandas.

O batalhão de Rangers que se dirigiu a Pointe du Hoc para a escalada comeu o pão que o diabo amassou. Suas lanchas foram atingidas, metralhadoras e granadas de mão alemãs respondiam às suas tentativas de subir o penhasco, escadas e cordas presas em ganchos eram neutralizadas (Fig.8). O bombardeio naval chegou como ajuda decisiva. Os Rangers, pouco a pouco, alcançaram o alto do penhasco para, em combates corpo-a-corpo, dominar os defensores alemães. Tenho aqui comigo pedaços de ferro retorcido e fragmentos de concreto da batalha de Pointe du Hoc e a experiência de desaparecer no solo dentro dos gigantescos buracos de bomba arrasa-alemão (Fig.8).

Mas Omaha Beach (Fig.9) era o portão do inferno. O fogo cruzado alemão, tanto com os temíveis canhões de 88 mm, quanto com as metralhadoras pesadas e leves atingiam as sucessivas ondas de tropas invasoras ainda no mar. Na areia, poucos ficavam de pé mais do que alguns segundos. Carnificina ilustrada friamente em toda a sua dimensão nos primeiros 20 minutos do filme “O Resgate do Soldado Ryan” (Fig.1). Com seus oficiais superiores abrigados nos navios e sem qualquer comunicação com eles e entre si, foi no berro e na vontade individual de cada combatente que a situação em Omaha Beach se inverteu. Um pelotão de engenheirosdinamitou dunas, encostas e muralhas, livrando a passagem de uma horda de infantaria. Os alemães, apavorados, atiravam as armas ao chão e os braços para o alto. Ao custo de milhares de vida, Omaha Beach viu o Dia D chegar ao fim com embarcações e mais embarcações aliadas despejando tropas, blindados, artilharia, e veículos de todas as dimensões e propósitos, enquanto o ruído de tiros ia ficando cada vez mais fraco e distante. Dava a impressão de se dirigir a Berlim.

O bate e volta de Rommel à Alemanha para o “Parabéns a você”  da sua fraulein só piorou a imagem do Marechal  junto ao alto comando alemão. Os impropérios de um tresloucado Hitler, de camisolão e gorro noturno contrastavam com o pavor dos empertigados prussianos da Wermacht, da Luftwaffe e da SS que o cercavam. Não acreditava em nenhum relatório oficial e continuava teimando que aquele desembarque era de mentirinha, que esperassem o ataque em Calais, para onde todas as reservas militares nazistas estavam guardadas.

A indecisão alemã abriu espaço para os portos flutuantes de Arromanches (Fig.10). Uma vez conquistadas e garantidas as praias do desembarque, o Alto Comando Aliado deu ordem à ocupação do antigo balneário do século XIX (Fig.10). As mansões tradicionais dos franceses endinheirados, poupadas pela guerra, viram, de suas janelas, do dia para a noite, a construção de um porto flutuante, seguida de um fluxo interminável de reforços e infra-estrutura para a próxima fase da guerra, a marcha para a Alemanha. Décadas depois, totalmente balneário, Arromanches exibe ainda trechos abandonados do porto, vencedores da teimosia demente de Hitler e sobreviventes da violência dos mares da Mancha (Fig.10).

 

NAS AREIAS DO TEMPO

Também Vierville Sur Mer (Fig.11) voltou à sua antiga condição de pacato balneário. Tendo assistido, de suas encostas, ao banho de sangue de Omaha Beach, hospeda para sempre o Cemitério Americano dos soldados tombados na libertação da França. Ali, espalham-se em absoluta precisão militar 10.000 cruzes brancas, resplandescentes sob o sol da paz por eles retomada (Fig.11). É um destino permanente de peregrinação. O filme O “Resgate do Soldado Ryan”  (Fig.1) começa e termina naquele lugar. E foi lá que eu tive a oportunidade de cumprimentar e conhecer dois veteranos do desembarque da Normandia e suas respectivas senhoras. Americanos bem velhinhos, de boné e camisa florida, eles estavam rememorando os eventos em um mapa colossal, indicativo de todos os movimentos antes, durante e depois do Dia D. Segundo o ex-combatente mais velho, ele havia desembarcado mais cedo, apenas para preparar o “breakfast” do mais novo, que acordara tarde. Como eu, eles também estavam hospedados em Bayeux.

Mas sua razão era outra, Bayeux foi a primeira cidade francesa a ser libertada pelos aliados. E eles lutaram por Bayeux (Fig.12). Todo dia 7 de junho a cidade entra em festa junto com seus veteranos libertadores (Fig.12). Em muitas vitrines do pequeno comércio local o turista da História pode ver pinturas artesanais de paraquedistas dos exércitos da libertação. Sem exceção, debaixo de cada figura, vem a inscrição “Nous n’oublierons jamais”.

Com o passar do tempo, a Normandia voltou a transmitir silêncio e inocência, mas as cicatrizes da guerra continuam visíveis. Basta andar um pouco e elas começam a aparecer. Sem falar nos museus que cercam cada uma das praias (Fig.13). Atravessadas mais de seis décadas do dia D, os veteranos continuam voltando lá. Em número cada vez menor, pela convocação natural de Deus. E com o coração e a coragem de eternos jovens, muitos ainda repetem o salto de suas vidas (Fig.13). Procuro entender o porque dessa nostalgia. Afinal, eu mesmo fui até lá duas vezes e continuo querendo voltar. Seria o eco dos pronunciamentos dos grandes comandantes na noite da vitória ? Churchill afirmou que “a batalha era a vitória da determinação”. O Presidente Roosevelt disse “Deus todo poderoso – nossos filhos, orgulho desta nação, neste dia entraram para a História”. Já o General Omar Bradley, comandante das forças de invasão, foi mais objetivo e preciso. Segundo ele, “bravura é a capacidade de desempenhar corretamente mesmo quando aterrorizado pela possibilidade real da morte”.

Mas, falando por mim, pelo que já vi e vivi, acredito que eles voltem pelo grupo que um dia formaram. Por sua inocência jovem que lá ficou, pelos companheiros de armas que não tiveram vida adulta, por um minuto de sopro da juventude encerrada, para trocar as mesmas histórias em uma roda de camaradas cada vez mais desfalcada.

E assim, Bayeux e a Normandia marcaram definitivamente a História. Dali partiu Guilherme o Conquistador, em 1066, no sentido França-Inglaterra para encontrar o seu destino. E à França chegaram, em 1944, os libertadores da Europa, partindo da Inglaterra. Foram as duas únicas vezes que a História registra o sucesso de exércitos conquistadores, partindo de ou chegando à Normandia.

 

P.S. Dedico este artigo à memória de meus pais. Foi um privilégio cuidar deles quando viajamos à Normandia. Eu, pela segunda vez; eles, pela primeira. Poucas semanas depois, meu pai, grande Mestre e historiador silencioso, partiu. E levou com ele a alma e o coração de Mamãe. Está comigo a caixinha de remédios que ela deu a ele, já perto do final (Fig.14).

Papai se foi num dia 30 de julho, aniversário de casamento do casal de eternos namorados.

Hoje, 30 de julho de 2007, eles estariam completando 64 anos de casados. Acho que por isso, ao escrever esse artigo, os acordes da 5a.. Sinfonia de Beethoven, tema da Invasão, foram dando lugar ao lirismo da Ave Maria de Gounot, tão querida pelos dois.

  

Esse post foi publicado em Saudades históricas. Bookmark o link permanente.

14 respostas para NORMANDIA PARTE II – SÉCULO XX

  1. Faustinho disse:

    Caro Professor,
    há tempos não lia uma história real com esta riqueza de detalhes. Há minúcias que não constam dos livros de história. Fico impressionado com o seu interesse e a sua pequisa. Parabéns!
    A propósito, que cor era o camisolão do Hitler?

  2. Leninha disse:

    Ainda não consegui ler todo o artigo, mas achei bárbaro. Mas…como sou curiosa, li o final e achei lindo.

  3. Raspa do Tacho disse:

     
    Se acabar de rir,
    Se acabar de chorar.

    Há 10 anos venho lendo as crônicas do meu irmão Professor. Viva a tecnologia porque, no ritmo de um texto por semana, meu caro professor generosamente me fez rir, chorar e me acabar de saudades.
    Ácido como o limão verde, mortal como a guilhotina, assim é o pensamento afiado do professor Astromaré, Astromarulho, Astromergulho, Astromalabarista.
    Água dura em pedra mole tanto fura até que bate. 
    Boa leitura! 

  4. To disse:

    Cher Professeur,
    Encore bravo pour ton très beau texte, et c\’est vrai, tu arrives à nous faire rire même pour des choses si tristes.

  5. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Essa sua história do Dia D na Hora H foi cumpridona pras nossa idéia. Mas acho que peguemo o jeitão da coisa. O cabra Ruço Alemão, sarará do nosso bando, quase apanhou da moçada. A turma achou que ele era aparentado daquele outro alemão, que disse que galinha na praia ia tumá pelo menos quatro tiro. Fi dumaégua. Nóis só leva galinha pra praia quando vai fazê uma galinha de cabidela com farofa. Covardia da porra dá quatro tiro na coitada.  Mas tamo aproveitando a idéia do desembarque pra atravessá o açude de Orós e tumá de assarto a vila de Iguatu. Nóis num vai roubá nada deles, só queremo que o dono do Cine Bijou passe pra nóis as fita que tu falou: "O Mais Longo dos Dia", "Resgate do Soldado Ráian" e "Bandi ó Bródi". Mas nóis tem um pobreminha pr\’aressorvê: ninguém sabe nadá.
    Despeço-me com muitio respeitio, pra dizer a vosmecê que todo dia nóis reza uma Ave Maria cantada  no sino das seis da tarde. É pra tu e pros seus pais. 
    A sua bença professô.
    Capitão Raimundo Nonato  

  6. Alexandre Hércules disse:

    Siris & Pirilampos foi uma referência na literatura cômica da internet e que agora se transforma em livro. Nunca antes da história deste país, alguém traduziu tão bem o momento político nacional como o Professor Astromar. Com um sarcasmo sem igual, uma intolerância filosófica impagável e uma inteligência rara, ele soube provocar risos no meio do caos. 

  7. Noblesse Oblige disse:

    Monsieur Raimundo Nonato est chaque fois plus EXTRAORDINAIRE !!! Pour un francophone, il faut prendre tout son vocabulaire et lui demander la traduction. Je trouve que ça vaut le coup !  Il me semble que la bonne femme spécialiste du Delicado da Kibon a de la peine à faire son commentaire…
    Noblesse Oblige 

  8. Delicado da Kibon disse:

    Querido Professor,
    Desta feita, a meu ver e gosto, Normandia-Parte II bateu o récorde!  O seu texto, Professor, vai muito além de um capítulo de livro de História. Vai muito além de um simples filme histórico. A pesquisa é impecável, os fatos são verídicos, o conteúdo é perfeito. Porém, há algo que o torna mais rico: o vocabulário e as expressões de um escritor original que mistura a realidade dos fatos com a emoção das lembranças.  A lista que anotei é exaustiva, assinalo apenas algumas riquezas. Vai me desculpar Professor, é mais forte do que eu:
    – doçura de nomes
    – nomes inocentes
    – o mais bem guardado segredo da guerra
    – vômito mareado
    – formigueiro de patriotas
    – anjos vingadores
    – viajante de olho na História
    – tráfego de mensagens fajutas
    – alguém foi conversar com o vigário antes de se apresentar ao Criador
    – Pointe du Hoc – candidata a uma das maravilhas da natureza
    – soldados não tiveram tempo de espreguiçar
    – o batalhão comeu o pão que o diabo amassou
    – o desembarque era de mentirinha
    – convocação natural de Deus
    – sol da paz
    – "je n´oublierai jamais"
    Você disse que quer voltar lá um dia. Eu quero ir com você!!!
    Delicado da Kibon 

  9. Delicado da Kibon disse:

    Adorei destrinchar esse texto porque aprendi a gostar desses episódios de Segunda Gerra Mundial quando vim pra cá. Sempre que tem filmes, documentários, comemorações, eu procuro ver. 
    Seria mais simples pegar o seu texto e por em bold as palavras e frases que eu gostei mas não consigo salvar para modificar, então, vou enumerar as outras anotações do bloquinho:
     
    – canhões retorcidos
    – travessias de Guilherme o Conquistador
    – destino da humanidade
    – apocalipse nazista
    – o verão no Canal da Mancha é equivalente ao inverno no litoral de Santa Catarina
    – meteorologista alemão pensava diferente
    – menestrel da poesia francesa ( tão melhor do que simples poeta Paul Verlaine)
    – barretes vermelhos e estômagos vazios
    – descida celeste
    – rugas de veterano 
    – rouquidão ritmada
    – amaciamento explosivo de chucrute e cimento armado
    – as forças da natureza retornaram a configuração original do lugar
    – ouvidos moucos
    – bomba-arrasa alemão
    – foi no berro e na vontade individual
    – camisolão e gorro noturno de Hitler
    – turista da história
    – companheiros de armas que não tiveram vida adulta
    – PRIVILEGIO CUIDAR DE MEUS PAIS
     
    Desde a criação do Professor Astromar, esse troca-troca de comentários virou um "jeu de mots et d\’ amour" !!! 

  10. Voyeur de Wayzata disse:

    Professor,
    Ainda tomado de emoção pelos eventos e vítimas da longínqua Congonhas e da vizinha Minneapolis, li o seu sequel de NORMANDIA e concluí : o céu é habitado por anjos-herois da História, que sacrificam suas vidas para nos deixarem um legado de reflexão sobre nossa presença neste planeta. Uns, conscientes, por vontade própria, outros, inconscientes, como vítimas, mas todos inscrevendo seus destinos indelèvelmente em nossos corações, para nunca mais deixarem nossa memória de vida, única e derradeira companheira no desfecho de nossa viagem.
    Você, como ninguém, sabe prestar uma linda homenagem aos milhões de desconhecidos que se alistaram na luta em defesa da nossa liberdade.
    Uma vez mais parabens pela autoria de textos tão consistentes como educativos, tão inteligentes como sensíveis. Deles emana uma luz que nos faz, seus leitores, pessoas melhores.
    Voyeur de Wayzata, pertinho de Minneapolis…  

  11. Gaita disse:

    E que tal a idéia de lançar seu livro aqui na Bahia ? Na Praia de Inema, de onde entraram para a História os Siris e os Pirilampos ? 

  12. Patrícia disse:

    Diga lá, meu Rei!
     
    Aqui não consegui abrir o link para o Youtube, só quando chegar em casa… Estou cuirosíssima! Lembro-me bem do Professor Astromar, figura intrigante e deveras interessante.
     
    Como foi de Dia dos Pais?
     
    Depois volto para ler esse post que, de relance, já percebi ser muito precioso. Estou trabalhando, trabalhando e trabalhando, pra não variar🙂
     
    Saudações, my dear Professor.

  13. Pisaneschi disse:

    Caro Professor Astromar,
     
    Sou louco por histórias antigas, especialmente 2ª grande guerra. Achei o teu espaço muito bacana e voltarei mais vezes. Não sei se você esteve em Pompeia e Herculano, na Itália, pois seria bacana se você escrevesse algo sobre estes lugares, contasse algumas histórias de intrigas que eu sei são muitas. Valeu e parabens.   

  14. Patrícia disse:

    Somente hoje, agora mesmo, assisti ao vídeo que o Professor enviou.
    Eu estou encantada. Pela beleza, pela grata surpresa.
    Obrigada. A escolha foi, como sempre, completamente acertada.
    Já está no blog, com as devidas honras.
    Minha mais terna e profunda admiração.
    S.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s