BIRKA VIKINGASTADEN


BIRKA VIKINGASTADEN

Uma experiência quente no mundo Viking

 

“Eles vieram do Norte frio e selvagem. Saquearam vilarejos com espadas e fogo. Profanaram nossas igrejas. Foram tempos em que, de cada recanto inglês dedicado à oração, ouvia-se uma nova súplica aos céus – Livrai-nos, ó Senhor, da fúria dos homens do Norte !”. Inscrição inglesa do século VII D.C.

Hollywood e a National Football League americana fantasiaram o mito dos vikings. Colocaram até chifres em seus capacetes (Fig. 1). Mas, fontes medievais confirmam o terror das testemunhas e vítimas. E o tempo, que tudo cura, gradativamente transformou os ferozes guerreiros navegadores em gente pacífica, colonizadores integrados às terras invadidas. E sem capacete de chifres, já que uma única marretada na ponta de um chifre seria suficiente para quebrar o pescoço do bicórnio e furibundo selvagem louro.

Incomparáveis homens do mar, tanto na produção de tecnologia das embarcações quanto no conhecimento da navegação, os vikings estiveram na Grã Bretanha, em Portugal, no Mediterrâneo, na Rússia e até no Iraque. E chegaram à América séculos antes de Colombo, fazendo uma escala na Groenlândia (Fig.1).

O que será que levou os vikings a essa agitação toda ? Simples, o degelo na alta Escandinávia criou terras cultiváveis, provocando o aumento de população complementada com a queda da mortalidade infantil. O esgotamento do estoque de novas terras, aliado ao espírito inquieto e navegador dos vikings atirou-os ao mar, atrás de terras, mas também em rotas de navegação comercial, tanto para pirataria quanto para o honroso e digno ofício do comércio internacional.

E foi numa viagem de trem, descendo dos altíssimos fjords noruegueses, em direção à Suécia, que, lendo o livreto “Vikings – Lords of the Seas”, tropecei em Birka. Mergulhado na leitura, tentando descobrir o que ver em Estocolmo além do Estádio de Rasunda, onde a seleção brasileira – e êta esquadrão de ouro –  venceu a Suécia por 5×2 para conquistar sua primeira Copa do Mundo, percebi, nas poucas páginas da publicação, 9 citações à cidade de Birka. Aliás, era a única cidade viking mencionada no texto. Senti que ali havia algo especial. Um folheto de propaganda de passeios pelos micro fjords suecos indicava uma parada em Birka. Fulminado por um raio de Odin, ou talvez por uma martelada de Thor, virei-me para minhas duas companheiras de viagem e soltei uma exclamação, segundo elas, histórica : “Birka é quente”. Dito e feito, em uma rápida visita ao Office of Tourism em Estocolmo ficou confirmadíssimo: “Birka é quente”.

Trata-se de um sítio arqueológico viking, a 30 km de Estocolmo (Fig.2), acessível pelos nanicos fjords suecos (cerca de 2 metros de altura), numa rota de transporte navegável. O passageiro viaja numa espécie de ônibus flutuante. Partimos numa manhã, para um dia inteiro de Viagem na História. Depois de algumas paradas por vilarejos de beira de fjord, com casario ilustrado em livros infantis, ancoramos para retroagir 12 séculos no tempo e conhecer a zona franca de tradição comercial viking.

Birka surgiu em meados do século VIII D.C. e está localizada na ilha de Björko (Fig2). Os pontos cardeais das rotas de comércio medieval convergiam para Birka. Tornou-se importante centro de atacado e varejo, negociando mercadorias escandinavas, produtos da Europa e também do Oriente. Seus armazéns e lojas viviam abastecidos de peles, sedas, artefatos de vidro e metal, armamentos, jóias, tecidos bordados e até moedas. Em seu apogeu, deve ter tido de 700 a 1.000 habitantes (Fig.2). O monge beneditino Ansgar tentou cristianizar os vikings (Fig.3), por  volta do ano 831; mas seu sucesso ficou limitado a alguns batismos. Acabou santificado por tamanho esforço. Após misterioso declínio, a cidade desapareceu em 975. Não se sabe ao certo por que. A hipótese de um ataque estrangeiro parece menos provável que o acomodamento sísmico dos fjords, que teriam mudado o acesso e a profundeza das rotas usuais.

Birka sumiu. Perderam-se as coordenadas de sua localização. Nos séculos seguintes, virou uma lenda . Como Atlântida, o Continente Perdido, ou como o Santo Graal, que continuou sendo procurado até o lançamento do filme “Código Da Vinci”. Arqueólogos começaram escavações em Björko (Fig.3) no século XVII e incrementaram seus trabalhos no século XIX. Em sua sucessão de descobertas, devem ter exclamado, “Isso é quente !”, plagiando esse humilde literato séculos antes de seu histórico brado.

Birka está localizada na parte norte da ilha e é Patrimônio Histórico da Unesco (Fig.4). O resto da ilha é propriedade particular, dedicada à agricultura e à pecuária ovina. A inexistência de textos vikings, limitados a rabiscos em ilustrações rúnicas (Fig.3) e em artefatos tumulares (Fig.7) não foi um impedimento para descobrir a história e a vida em Birka. A arqueologia trouxe informações. Os arqueólogo garimparam as fundações das construções da cidade (Fig.4) e não puderam deixar de perceber cerca de 3.000 monturos de relva espalhados pelo perímetro da cidade (Fig.5). Os prédios eram de madeira (Fig.2) e nada restou deles, a não ser toneladas de lixo viking, pilhas de até 4 metros de altura. Esses detritos milenares contaram muito sobre o cardápio alimentar da época e sobre os hábitos higiênicos da população que, sem qualquer cerimônia, atirava o lixo pela janela. Hábito seguido nos hospitais de batalha na Guerra Civil Americana, quando braços, pernas, mãos e pés amputados eram atirados janela afora, formando uma pilha sinistra, e  também adotado pela classe política brasileira atual, acumulando em suas biografias tabefes putrefatos na inteligência do povo que os elegeu, nas tentativas de justificar seus feitos não contabilizados. Os monturos são túmulos vikings (Fig.5), a maioria ainda intocada, mas já apontada como principal fonte de informações sobre os antigos habitantes. São túmulos de todos os tamanhos. Alguns hospedam falecidos ricos, outros, não tão abastados. Alguns são cristãos, convertidos por Santo Ansgar, trazem crucifixos (Fig.6). Outros, pagãos, com imagens das divindades tradicionais (Fig.7). E ainda outros, vá entender, trazem sinais das duas religiões. Os poderosos eram enterrados levando armas, alimentos, uma companhia feminina e até cavalos (Fig.6 e Fig.7). Por vezes, um pedaço de granito piramidal marca seu último esconderijo. Na sepultura de mulheres ricas podem ser encontrados jóias, animais de estimação e até criadas (Fig.7). Nos dois casos, um inventário de coisas imprescindíveis na morte após a vida ou na vida após a morte. Sabe-se lá.

Um dia de Viagem na História em Birka passa rápido. Um museu mostra maquetes e objetos retirados das escavações. Todos os guias são arqueólogos profissionais disponíveis e ansiosos por um papo inteligente. Contam suas experiências, suas descobertas e despejam História. Fizeram me sentir entre colegas.

O ônibus fluvial apita. Hora de partir para Estocolmo. Final de dia, mas já noite avançada, pela teimosia do sol de verão escandinavo. Na prancha de embarque, retomamos a realidade da extinção de uma civilização diferenciada na volta à hereditariedade de suas gerações atuais. Enquanto o barco se afasta e a luminosidade cerra as cortinas sobre a cruz de Santo Ansgar (Fig.8), eu tinha nas mãos a imagem de Thor e seu martelo (Fig.8). Confirmamos. Birka é quente.  

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10 respostas para BIRKA VIKINGASTADEN

  1. Dagdani disse:

    O faro do Pf Astromar
    Aprendi a crer nas asserções do Professor Astromar há muitos anos quando viajávamos em comitiva de três, formada pelo eminente professor, sua valiosíssima esposa e não por acaso minha queridíssima irmã e  eu, sobrando na bagagem, por terras nunca antes navegadas por nós. Íamos dispostos a enfrentar os temíveis (e lindíssimos) vikings, felizes da vida com a empreitada expedicionária. Lá pelas tantas, impaciente dentro do trem a caminho da Suécia, Professor Astromar bradou categórico (assim do nada mesmo): “Birka é quente”! Como, Professor Astromar, tudo tão frio por aqui, montanhas nevadas em pleno verão escandinavo, como Birka é quente? Quem é Birka? Algum aparentado de Odin ou Thor? Birka Vikingastaden, meus senhores e minhas senhoras.  Nas suas escavações cérebro-perscrutadoras, Professor Astromar descobriu um lugar que não figurava em nenhum panfleto óbvio, e fomos parar em Birka,  nada menos que a mais importante cidade viking nos séculos IX e X. Fomos a Birka de barco, o QueenVictoria, e desembarcamos num fantástico sítio arqueológico, meticulosamente observado por Professor Astromar nos mínimos detalhes tumbalíticos. Depois dessa, decidi acreditar que o cara sabe das coisas. Agora posso dizer: Birka é quente! (só por curiosidade,  descobrimos decepcionados que nos capacetes dos vikings não havia chifres; ah, e que esses guerreiros louríssimos tomavam banho uma vez por semana e penteavam os cabelos antes de desembarcarem para um sessão de saques, as inglesas ficavam malucas). Portanto, sigam meu conselho,  prestem atenção ao que Professor Astromar diz! 

  2. Jurerê disse:

     
    Espero que todos aqueles que lerem seu livro também se deliciem, como eu, com as peripécias do Jacaré do Lago Paranoá, em sua busca pelo dono do mindinho que ele engoliu. Sem dúvida alguma, o melhor personagem da série Siris & Pirilampos.

  3. Voyeur de Wayzata disse:

    Depois dessa chamada, cê num tem jeito. Amanhã vou me deliciar …

    "Amigos,                                                                                                                                                                                   O assunto desse artigo pode causar controvérsias. Afinal, por que os vikings usavam chifres em seus capacetes ? Seria porque passavam a maior parte da vida no mar e as escandinavas, inventoras dos sex-shops, soltavam a perereca em protesto de carecência ? Ou seria para, como furiosos e louros touros miúra, treinar os inimigos para as touradas de Madrid ? Ou seria apenas uma máscara carnavalesca para assustar as populações ribeirinhas ? Uma corrente de pensamento acredita que as respostas foram encontradas nas escavações em uma ilha escondida em um fjord sueco. Já meu amigo, Voyeur de Wayzata, estudioso congelado em Minnesota, torcedor do Minnesota Vikings e vizinho de várias cadelas homônimas da ilha sueca, garante : Birka é quente ! Passo a vocês, BIRKA VIKINGASTADEN – UMA EXPERIÊNCIA QUENTE NO MUNDO VIKING
    Professor Astromar" 

  4. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Eu bem que desconfiava que esse enchiframento dos vikings era história do Zé Dirceu e do Renan Calheiros, comedores das muié dos outro. Mais uma vez vosmicê mata a prova e mostra o crau do descaramento. E o cangaço todo achando que os moço viking era uns traveco de quenga loura, baitola e boiolento. O pobrema todo era mentiração e nunca jamais falta de bombeiro pro fogaréu das loirona. Quem tem chifre é gado de pasto ou é o Coisa Ruim que Ronca e Fuça, valha-me meu Padim Padi Ciço ! Aliás, o Edileuzo, fio do cabra Luizinaço Secaboteco e da Marilza Preguição, ganhou uma Bolsa Família do Lula e tá ensinando bons modo pra tudim: num pode tirá meleca, nem cuspir no chão, nem soltá aqueles arrotão de trovoada, nem comê cêra d\’oreia e um monte de outras sabedoria inginhênica. Por isso, com essa mania vikinga de jogá lixo pela janela, nóis tá percurando as encruziada pra enterrá despacho de macumba e os frango com farofa pudecento largado lá. Mas essa história de canoa pra atravessá o marzão gelado tá mal contada. Tá pra nascê barco mais ligeirim e mais seguro que a jangada nordestina. Por conta desse vai num vai, convidemo o Ingmar, aquele sueco dono do Forró dos Pirata, em Fortaleza, amigado com a Claudineide, pruma regata de vida ou morte : a jangada de Mestre Lagostinho contra aquele barco pirulito que ele trouxe lá daquela loja de chocolate, a Copenhaguem. Adispois eu conto o resultado, mas possa ser que a gente oferecemo 1 légua de vantagem praquele gringo metido a forrozento. E depois, vamo tomá todas lá na Feira de Caruaru, muito mais sortida e alegre que aquela defunteira de Birka.
    A bença, meu professô, e um grande abraço do
    Capitão Raimundo Nonato  
     

  5. Delicado da Kibon disse:

    Caro Professor,
    Antes que entre no ar o comentário ansiosamente esperado de Mr. V.de Wayzata, o meu modesto comentário se resume a uma simples frase: Obrigada, Professor. Texto e aula dignos de um livro pronto para sair de um forno quente como Birka: "Viagens na História & História de viagens".
    Delicado da Kibon 

  6. Faustinho disse:

    Ilustre Professor,
    em primeiro lugar, desculpe a demora, uma diverticulite aguda me fez atrasar o comentário de mais uma de suas aulas de história. Sempre li muito sobre a Escandinávia mas não tive a oportunidade de conhecer esta região que, de frio parece que é só existe a temperatura. As histórias são quentes como esta de Birka. Com certeza vou incluí-la no meu roteiro quando estiver em Estocolmo.
    Parabéns!!!
    abs

  7. Luz de Pedra disse:

    Destaques do seu prefácio do livro:
     
    -"Metaforizando um surfista de qualidade que parece que vai terminar seu percurso, apenas para pegar mais uma onda que se forma ao lado, e assim sucessivamente até chegar à praia". AMEI A METAFORA DO SURFISTA E DA OUTRA ONDA QUE SE FORMA !
    -Minhas três irmãs, fanzocas de carteirinha, companheiras de uma geração, personagens e testemunhas de muitas historietas. Espalhados por três cidades e dois países, continuamos cada vez mais irmãos e mais filhos de quem somos.

  8. Voyeur de Wayzata disse:

     
    Emérito Professor :
     
    Antes tarde do que cedo…
    Não me diverti com culite aguda, como um cumpañero de blog, portanto meu atraso em comentar não é justificável.
    A sua eleição de Birka como tema de mais uma viagem pela história me fez sentir importante…Não pelo time de football do Vikings, uma frustrante paixão local – última vez campeão "mundial" em 1991- mas por "encontrar-me perdido" no meio da maior comunidade de descendência escandinava nos EE.UU, quiçás fora da grande península. Mais atrevidamente, acho mesmo que este capítulo inédito foi produzido em minha homenagem…Just kidding…
    Se posso contribuir um pouco, sem estender-me, com minha experiência convivendo há 17 anos no seio da cultura dos cornudos, devo reportar que não há, em todo este país, gente mais séria, respeitadora, disciplinada, organizada, civilizada, comprometida,  trabalhadora e de espírito tão comunitário. Minnesota, apesar de ser um estado pequeno ( 5 milhões de habs.), está sempre entre os 5 primeiros da nação quando se tabulam parâmetros de qualidade de vida.
    Minha constante dor de cabeça ? Esqueceram que 12 séculos se passaram e continuam sendo eximios caçadores desde pequeninhos…Mas o saldo é positivo, e algo nossos Vikings de Birka tiveram que ver.
    Como sempre, após a leitura de seus textos, v. me faz um homem melhor. Agora vou versar o texto para o Inglês e tirar uma chinfrinha com Thor Larson, meu vizinho, cuja cadela -prenha- se chama Birka….
     
    Voyeur
     
    P.S. 1  Adorei a mumia desenterrada se enrolando pelo capim… 
    P.S. 2  DUAS antropólogas ?! Não bastava uma pra desenterrar os ossos ?…
    P.S. 3  Uma saudação especial a Delicado da Kibon ( desconfio que o artigo é feminino e parente próximo…)
     
     
     

  9. Noblesse Oblige disse:

    J’étais sûre que Monsieur de Wayzata allait faire un super commentaire!!!! Heureusement que Delicado da Kibon a envoyé le sien avant… Peut-être qu’il est un bon coureur aussi et qu’il aimerait voir ce que c’est la course de l’Escalade. Je l’inviterai à manger une fondue…sans forró!
    Noblesse Oblige 

  10. Patrícia disse:

    Olá, querido Professor.
    Ainda não consegui visualizar o link, porque aqui no trabalho não posso abrir. Assim que chegar em casa vou ver… Estou deveras curiosa!🙂
    Maravilhoso post nórdico. Sou admiradora incondicional da Mitologia Nórdica, e sua, é claro.
     
    Beijos, Samothrace. 

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