VOLTERRA


VOLTERRA

A vila das lâmpadas de pedra que iluminam a arte de cinco civilizações

 

À medida que os últimos quilômetros iam se esgotando, o carro prosseguia surfando na paisagem ondulada da Toscana (Fig.1). Naquele final de tarde, a aquarela de cores daquela região da Itália mais uma vez se transforma em uma mistura mística de tons pastéis (Fig.1). Um coquetel de girassóis, de ciprestes italianos verdejantes mas desbotados pelo outono de todo final de dia, de pedras coloridas de areia, de relvas disfarçadas de trigo, de villas cobertas de estuco e de  fortificações seculares amareladas pelo tempo e, talvez, pelos toques invisíveis dos primeiros pincéis dourados da Renascença.

A emoção da saudade me domina, à medida que as fotografias do inesquecível livro de meu pai tomavam vida diante das janelas e do pára-brisa daquele magnífico automóvel. À medida que a estrada vira subida, o morro de pedra coroado por construções atemporais projeta seu perfil no vermelho do pôr do sol. Cinco civilizações compartilharam essa visão (Fig.1). No céu de Volterra surgem as estrelas de Luchino Visconti, “Vaghe stelle dell’Orsa”, único filme jamais filmado no lugar e que para lá levou, em viagem de ida, em 1965, Claudia Cardinale (Fig.1).

A Mercedes negra atravessa as muralhas da cidade sob a etrusca Porta dell’Arco (Fig.2), passa pelas ruínas do teatro romano (Fig.2) e estaciona diante da pousada medieval decorada com afrescos da Renascença. Volterra abraça o retorno de mais um de seus Berlinghieri.

Próxima ao Mar Tirreno e distante apenas 90 km, tanto de Florença quanto de Siena (Fig.1), Volterra foi Velathri, em seus tempos de civilização etrusca. Mineração, metais e comércio trouxeram prosperidade e riqueza aos 25.000 habitantes. Nos dias de hoje, apenas metade desse número compõe a população de Volterra,  dedicada ao turismo e, ainda, à mineração. Os etruscos ocuparam e protegeram a cidade entre os séculos 8 e 4 A.C. Suas muralhas não os protegeram dos romanos (Fig.2), mas seu legado continua sendo descoberto todos os dias. Centenas e centenas de túmulos decorados com esculturas de uma pedra especial convivem no Museu Guarnacci (Fig.3) com artefatos de bronze (capacetes, armaduras, lanças e espadas e objetos de decoração). Duas obras primas se destacam, o bronze Ombra della sera (Sombra da Noite-Século 3 A.C.) e a escultura Sposi (Esposos – Século I A.C.), ornamento do túmulo de um casal (Fig.3). Quem sabe seria o retrato esculpido no passado de um final feliz para o best seller de 150 anos I Promessi Sposi, de Alessandro Manzoni, escrito em meados do século XIX, narrando as tormentas de um casal de namorados, protegidos por uma monja de Monza e perseguidos por um implacável coisa ruim de Milão (Fig.3).  

Deixando o devaneio histórico e voltando aos fatos: a prosperidade etrusca chamou a atenção de seus vizinhos mais recentes e próximos, habitantes de uma tal de Roma. Os romanos tomaram a Velathri dos etruscos na batalha do Lago Vadimone, no ano 283 A.C. e mudaram o nome da cidade para Volaterrae. A princípio, etruscos e romanos mantiveram boas relações. Volterra aliou-se a seus “senhores” na guerra contra a ferocidade de Aníbal, o Cartaginês e seu exército de mercenários e elefantes. Mas, nos anos 80 A.C., os governantes de Volterra escolheram o lado errado na guerra civil entre dois consultes romanos, perderam o status de patrícios  e tiveram a cidade sitiada, saqueada e quase destruída. Nunca mais foi a mesma.  A população foi se reduzindo e os vestígios da civilização romana foram virando entulho, ainda mais com a queda do Império Romano, nos anos 450 D.C.  Ficaram a beleza do anfiteatro (Fig.2), marcas de antigos banhos públicos e peças hoje exibidas no Museu Guarnacci, como um busto de argila Calígula, por exemplo, ou de uma nobre romana em pedra luminosa (Fig.3).

Durante a Idade Média, Volterra foi dominada por bispos da Igreja. Data de 1319 a Fontana di San Felice (Fig.4), onde águas sulfurosas serviam para o banho, para tratamento de doenças de pele, ou até mesmo para o exorcismo de diabretes. Seu acesso via escadaria de 300 degraus deve ter inspirado o dito popular: “pra descer, o diabo empurra, mas pra subir, todo santo ajuda”. A Piazza dei Priori (Fig.4), emoldurada pela Catedral e por prédios públicos, é de 1239  E as ruelas estreitas onde hoje encontramos cantinas, gellaterias e souvenirs são autênticos monumentos medievais (Fig.4).

O período renascentista de Volterra foi marcado pela guerra com Florença. Vitória dos Médici, naturalmente. Um legado dessa época é a gigantesca e totalmente preservada Fortezza Rocca Nuova, ou Fortaleza dos Médicis (Fig.5), frustrantemente fechada para visitação pública por tratar-se de uma prisão de segurança máxima. Além disso, reformas em fachadas de residências provocaram a retomada da arte italiana na Renascença, junto com o surgimento de artistas locais, como Berlinghiero Berlinghieri (Fig.5) e Michelozzo, logo logo exportados para Florença. Por ironia, no sentido inverso, deu-se a vinda de Rosso Fiorentino, autor da obra prima Deposizione dalla Croce (Descida da Cruz – 1521), exposta na pinacoteca de Volterra e parada obrigatória de todo estudante de arte que viaje pela Toscana (Fig.5).

Mas a maior razão para meu pai ter um livro ilustrado de Volterra não era a história de sua seqüência de civilizações, nem seus antepassados Berlinghieri. O segredo estava em toneladas de uma pedra muito especial, encontrada em minas em torno da cidadela, principalmente nas cavernas da Castellina Marittima. Trata-se de uma pedra cristalina quase transparente, que deixa passar a luz e faz a criatividade de escultores alçar vôo, em jogos de formas e luzes. Trata-se do alabastro (Fig.6), a lâmpada de pedra. Formado por sedimentos de sulfato de cálcio encontrados em oceanos e ali concentrados há milhões de anos, no período Miocênico, o alabastro é uma pedra macia, ideal para sofisticação da arte escultural e decorativa. Para os etruscos, era a pedra dos deuses. Por isso sua utilização em urnas funerárias e em esculturas tumulares, muitas vezes com adornos de folhas de ouro. O processo de extração da pedra em minas pouco mudou nesses milênios. O alabastro continua sendo retirado de 50 a 100 metros de profundidade, sempre em blocos de forma oval, para em seguida ser trabalhado nas oficinas artesanais (Fig.6).

Se o primeiro Berlinghieri deixou Volterra para espalhar arte pelo mundo, as voltas da História fizeram com que minha irmã Maria-Carmen, escultora radicada em Genebra,retornasse à origem da família para buscar a matéria prima de seu trabalho: blocos de alabastro (Fig.7). Com o passar dos anos, essas viagens para suprimento de material escultural se transformaram em verdadeiros safáris familiares para caçar lâmpadas de pedra. Meus pais foram companheiros assíduos nessas incursões. Minhas irmãs e sobrinhos também. Fui o último a chegar, há menos de um ano; mas já cheguei com toda a História me esperando. A história de uma cidade de pedra e de 28 gerações de uma família. Rocha, “sandstone”, alabastro e Berlinghieri.

Se os trabalhos de Berlinghiero Berlinghieri no século XIII  foram parar em Florença, em Lucca, no Museu do Duomo de Pisa e até no Metropolitan Museum of Modern Art, em New  York (Fig.5), Maria-Carmen seguiu as pegadas de seu multi-avô, nos séculos XX e XXI, viajando com sua luz de pedra por São Paulo, Rio de Janeiro (Fig.9), Genebra, Fribourg, Nyon, Paris (Fig.6), Madrid, Marrakesh e, naturalmente, Volterra. Sua exposição de 2005 na Fonte di San Felice foi absolutamente gloriosa (Fig.8). 800 anos depois do surgimento de um artista Berlinghieri em Volterra, eis que retorna um jovem descendente para trazer a arte da família de volta à sua origem.

Se cheguei a Volterra ao anoitecer, parti antes do amanhecer. Descendo as colinas, não perdia de vista o perfil da cidade no alto do morro de pedra. Como disse um arquiteto local, “Volterra, iluminada, era como um navio”. Sim, lá estava ele, um trirreme romano (Fig.9), iluminado pelos lampiões da rua, pelos candelabros das villas e pelas lâmpadas de pedra. “Cose dei misterii della mezza notte”, imaginaria um parente italiano do Professor Astromar (Fig.9).

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20 respostas para VOLTERRA

  1. Luz de Pedra disse:

    Professor, seu texto anterior sobre a Toscana terminava assinalando que Volterra não cabia ali; agora coube e transbordou. Na verdade foi a luz da pedra que me orientou até lá, e ainda não me cansei….e a cada estadia eu me renovo e crio outras obras. Sua descrição da cidade está tão gloriosa quanto a praça vazia dei Priori; quando estamos lá, Volterra é só nossa: os turistas vão para outras paragens.Em qualquer época do ano – no frio, no calor – a cidade nos acolhe com suas pedras sempre iluminadas. Obrigada por ter comunicado tão bem nossa paixão por esse canto da Italia!
    Luz de Pedra

  2. Faustinho disse:

    Puxa, passei tão perto e não conheci Volterra.
    Cada vez que leio um artigo seu, me dá mais a certeza de que minha próxima viagem para a Europa será muito diferente das outras.
    abraços e parabéns.Faustinho

  3. Noblesse Oblige disse:

    Bravo Professeur,
    Quel bel hommage vous avez fait à votre soeur et à vos antécédents!!! Il n’y a pas beaucoup de professeurs qui aient saisi un passé pareil!
    NO

  4. Gaita disse:

    Que beleza de legado você está deixando para suas futuras gerações com esse trabalho de pesquisa das origens da família, Tiozinho.
    Uma maravilha de narrativa.
    Gaita

  5. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Nessa tal de Volterra mora só um pingo de gente, mas num carece de fantasma italiano, molusco e mediúnico da Idade Média. Lá tem mais buraco de defunto que gente viva, meu patrão! Na Chapada da Diamantina, na Serra do Baturité e no Cariri tumém é assim. Tá cheio de presunto desovado acolá, desde os inícius do cangaço. Tem companheiro bom de pontaria e de peixeira, mas tá assim, ó, de macaco de volante sévergonho cheio de chumbo. Nóis tem sapiência do ofício de vaguear pelas estrela, como tu conta. As da Ursa tá lá na terra do seu trizavô artista; mas aqui, com a caatinga cheia de escorpião peçonhento, nóis prefere se orientá pela constelação do dito cujo.  Aliás, na roda de embolada e prosa de antonti, a turma comentou que o professô num deve falar só de seu sangue italiano. Afinal, o sangue nordestino taí nas tua veia. Vem do Coroné Pedro Anão, comedô de criolinha, de moça catita, de rapariga e inté de beata. E soltadô de pum arretado. Vê se consegue que tua irmã da liluminação das pedra faz uma estauta de abalastro do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, prá módi a gente colocá lá no alto do Morro do Esporão e pudê alumiá o céu do sertão e arrupiá de medo os esprito coisa ruim e os macaco da puliça. E já que o bando tá incendiado com as arte de artista dos seus parente mundão afora, isso aqui virou uma desenhação mais artesanato só.  Tem uns fazendo desenho de figura, outros escultura de ex-voto e mais outros que tá na Escolinha de Bonecos do Mestre Vitalino. Tivemo até que segurá o companheiro Camisinha de Metro, por causa que ele só pensa naquilo e tava escrevendo um kamasutra de cordel. Mas agora ele tá meio sumido, adispois que arrastou pro mato a Norinha do Buraco Quente. Despeço-me com um grande abraço, admirado e sabedô que tu é Sagitariano dos bão e Dragão das Água na China. Merecido, seu moço. Dá pra encarar inté Tigre no sarto.
    Sua bença, professô.
    Capitão Raimundo Nonato 

  6. Delicado da Kibon disse:

    Conferi Capitão Raimundo Nonato hoje cedo! Até ele entrou na nossa jogada familiar hereditária, arqueológica, literária, saudosista, etc.
    Bjs
    DK
     

  7. Marcita disse:

    Capa do livro:
    Fantástico…………… A D O R E I…………….  BRILHANTE.
    Não sabia que voce era Fluminense????
    Voce continua o MESTRE das CARICATURAS???????
    Beijo. MR

  8. Raspa do Tacho disse:

    Capa do livro:
    Muito bom, adorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Parabéns, vem fazer lançamento aqui, eu te ajudo.
    Bj

  9. Noblesse Oblige disse:

    Capa do livro:
    Achei a capa excelente!!! A contracapa divide-se em dois? No principio e no fim do livro? Se for uma só, a meu ver, tem coisa demais, fica um pouco confuso… Désolée mais, NO…Bjs

  10. Professor Astromar disse:

    Vale apena esclarecer alguns pontos sobre a capa do livro. A capa frontal, que traz o Professor Astromar e o título do livro, traz uma caricatura do autor, feita por seu sobrinho, Ernesto. Desenhista world class, com trabalhos publicados no Brasil e na Suiça. A contracapa é uma colagem muito especial. Além, de retratar passagens da vida deste humilde literato, traz personagens de destaque dos artigos de Siris & Pirilampos. Assim, para curtir a contracapa melhor, conheçam o Professor, leiam o livro e depois joguem "onde está Astromar ?" 
    Professor Astromar

  11. Noblesse Oblige disse:

    Contracapa do livro:
    Graças a Deus eu vou sacar absolutamente TUDO !
    NO

  12. Luz de Pedra disse:

    Capa do livro:
    A capa e a contracapa ficaram ótimas, com o horizonte em preto e a bicharada sobrevoando. e o titulo em azul. As fotos também, mais claras e organizadas

  13. Peter disse:

    Capa do Livro:
    Muito Boas !!!  
    São a tua alma e o teu coração (e os nossos…) !
    Em tempo(?) – se bem que seja difícil esquecer algumas, não dá pra diminuir o nómero de fotos da camarilha do PT ?
    Um grande e parabenizante abraço. Mantenha-me informado.

  14. Patrícia disse:

    “Cose dei misterii della mezza notte"🙂
     
    O texto é magnífico, tão rico em detalhes que posso até me sentir em Volterra.
    Linda a história e origem de sua família.
    O trabalho de Maria-Carmen é sublime. É um dom precioso transformar pedra em arte.
     
    Bacci,
    S.

  15. Capitão Raimundo Nonato disse:

    DEMAIS, DEMAIS, DEMAIS

    Mestre dos Mestres
    Nessa tal de Volterra mora só um pingo de gente, mas num carece de fantasma italiano, molusco e mediúnico da Idade Média. Lá tem mais buraco de defunto que gente viva, meu patrão! Na Chapada da Diamantina, na Serra do Baturité e no Cariri tumém é assim. Tá cheio de presunto desovado acolá, desde os inícius do cangaço. Tem companheiro bom de pontaria e de peixeira, mas tá assim, ó, de macaco de volante sévergonho cheio de chumbo. Nóis tem sapiência do ofício de vaguear pelas estrela, como tu conta. As da Ursa tá lá na terra do seu trizavô artista; mas aqui, com a caatinga cheia de escorpião peçonhento, nóis prefere se orientá pela constelação do dito cujo.  Aliás, na roda de embolada e prosa de antonti, a turma comentou que o professô num deve falar só de seu sangue italiano. Afinal, o sangue nordestino taí nas tua veia. Vem do Coroné Pedro Anão, comedô de criolinha, de moça catita, de rapariga e inté de beata. E soltadô de pum arretado. Vê se consegue que tua irmã da liluminação das pedra faz uma estauta de abalastro do Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião, prá módi a gente colocá lá no alto do Morro do Esporão e pudê alumiá o céu do sertão e arrupiá de medo os esprito coisa ruim e os macaco da puliça. E já que o bando tá incendiado com as arte de artista dos seus parente mundão afora, isso aqui virou uma desenhação mais artesanato só.  Tem uns fazendo desenho de figura, outros escultura de ex-voto e mais outros que tá na Escolinha de Bonecos do Mestre Vitalino. Tivemo até que segurá o companheiro Camisinha de Metro, por causa que ele só pensa naquilo e tava escrevendo um kamasutra de cordel. Mas agora ele tá meio sumido, adispois que arrastou pro mato a Norinha do Buraco Quente. Despeço-me com um grande abraço, admirado e sabedô que tu é Sagitariano dos bão e Dragão das Água na China. Merecido, seu moço. Dá pra encarar inté Tigre no sarto.
    Sua bença, professô.
    Capitão Raimundo Nonato 

  16. Luz de Pedra disse:

    O CAPITÃO
    Você é bom como Berlinghieri e fica ainda melhor em parceria com o Capitão Raimundo Nonato. Ninguém consegue emplacar tão bem.
     

  17. To disse:

    Salut Professeur, super ton texte, et ce qui est bien c’est que tu me le racontes aussi en français, j’ai les deux versions.
    À tout à l’heure, je suis à SP.

  18. Noblesse Oblige disse:

    Cher Professeur,
    De temps en temps, je fais un saut dans "Viagens na História" pour voir s’il y a des nouveautés. Et voilà qu’il y en a toujours, c’ est incroyable ! Cette fois-ci, il y a même une nouvelle admiratrice. Mon Dieu, d’où sort celle-là qui ne savait pas le sacré détail: eh oui ma chère, le Professeur Astromar est né Fluminense!!!
    Meilleures salutations,
    Noblesse Oblige

  19. Luz de Pedra disse:

    Teatro da prisao de Volterra

    Ontem eu fui ao teatro dentro da prisao de Volterra. Há 18 anos que eu vejo o imponente predio medieval gloriosamente coroando o panorama da cidade que eu tanto gosto.
    Para conseguir um lugar foi uma luta: primeiro pedir à polícia suiça extrato da minha ficha limpa. Aguardar. Preencher formulário e mandar para o teatro por fax; reservar por internet. Aguardar confirmação,ok. (foi quase mais difícil do que reservar almoço no Noma de Kopenhaguen….)
    Finalmente ontem à tarde eu nem trabalhei nas minhas esculturas porque o espetáculo era às 15 horas.
    Chovia muito e fazia frio.
    Como me vestir para ir na prisão? A resposta veio rápida: com o frio meu guarda roupa de vestidinhos ficou no armario. Fui vestindo então tudo que eu trouxe de mais quente e assim, em superposições, o glamour vai desaparecendo e dando lugar a um perfil encapotado (às vezes roupa é salvaçao….). Então minha sandalinha preta foi substituida por um desses tenis brancos de ginastica unindo o feio ao confortavel. Ah, e saindo correndo eu coloquei uma pulseira – de prata – mas logo tirei. Ficava too much.

    Bom, pelas ruas lindas de Volterra outra salvação foi meu guarda-chuva dobrável com vistas do Rio – desses que se compra na praia do Leblon- sorry prisioneiros, eu sou livre e carioca.

    Finalmente cheguei. Uma placa mostrava casa di reclusione di Volterra. Nem fotografei: como fazer fila, segurar guarda-chuva e bolsa – bem feia de nylon – e segurar a minha emoção de TER CONSEGUIDO!

    Finalmente lá dentro ambiente de repartição do Centro da Cidade, nada de se estranhar. Meu nome estava na lista – e eu ainda disse: de Genebra!!.Achei que a identidade era pouco e ainda apresentei minha ficha da policia – devidamente dobrada num saquinho plastico – e o policial deu de ombros, não era preciso. Teatro de graça.
    Segunda etapa: devidamente munida do meu numero 87 fui entregar a bolsa com tudo dentro, inclusive o guarda-chuva que molhou todas as coisas da bolsa de nylon – ela merece. Eu não ia deixar objeto tão especial, diretamente importado das praias do Rio ali, no meio dos outros espalhados pelo chão.
    Telefone proibido, maquina de foto nem pensar. Me lembrei de pegar um dinheirinho e balinhas de hortelã para o bolso – esqueci do gloss, muito stress.
    Chegamos num café, ufa, tenho dinheiro. – un caffe per favore. O café me foi servido por um policial musculoso tipo guarda- costas, num desses copinhos de plastico, pelando. 70 centavos. Entrego minha nota de 5 inteira. Não tem 30 centavos? E eu me lembro da minha carteira Bottega Veneta, cheia de moedas e elegancia lá guardada com o numero 87.
    Café delicioso. Encontro Paola e sua filha: oiiiiii? Tudo bem? É minha primeira vez aqui, isso me lembra meu colegio de freiras no Rio. Ela entendeu? Não acredito. Me responde que ali tem o melhor café de Volterra. Verdade, estava mesmo delicioso.
    Ela foi fumar no patio com a filha, e eu fiquei pelos corredores esperando. Foi uma longa espera e li TUDO que tinha nos painéis – inclusive diziam que os policiais tinham de se vestir de uniforme por causa do público do teatro – ahhhh, aquele uniforme de polo azul claro é de festa!
    Cansei de esperar nos corredores, e além do mais já tinha lido tudo.
    Me sentei numa sala de espera, bem sala de hospital mas com uma tela plasma: passava um desses seriados americanos sem som. Ali fiquei tentando acompanhar o filme, completando as cenas e olhando uma jornalista italiana que usava uma pulseira igual à minha que eu censurei para a prisão…..
    Quase adormecendo chegou a hora, fui com o grupo aonde todos iam, para dentro dos corredores das celas.
    As grades pintadas de verde clarinho- 50 camadas de tinta desde a idade média. Fui no fluxo.
    Uns prisioneiros vestidos de preto e com luvas pretas seguravam umas faixas com textos, tudo escrito em italiano – que eu até entendo- mas era poesia.
    Bom, sempre no fluxo fui andando e passando pelos prisioneiros maquiados- Graças a Deus – e vestidos de azul com elementos de arquitetura pintados na roupa. Não entendi nada – mas acho que não importa.
    A maquiagem era muito bem feita, representando malvados – precisava? Um deles era Mefistófoles com chifres e tudo mais.
    Em cada cela tinha alguma coisa acontecendo mas, como eu não estava entendendo nada fui pulando – essa não, essa outra também não.
    Finalmente cheguei na ultima e aí entrei. Até me sentei, o chão era forrado de plastico branco. E os corredores também forrados de plastico com reproduções das ruas de Volterra – que eu reconheci porque conheço bem.
    O aspecto geral achei muito intéressante, as fachadas em preto e branco atapetando os corredores cavernosos e uns neons azuis, realmente um ambiente teatral realizado com muita criatividade pelo Alessandro, grande escultor de Volterra.
    Sentei no chão e ali fiquei assistindo a um filme mais ou menos relatando a hostoria de Romeu e Julieta. É um diretor de teatro contemporaneo premiado. A peça “in progress” deveria ser encenada no patio mas com a chuva não deu. O patio é todo gradeado com o mesmo tipo de grade galvanizada que se encontra nos predios do Rio.
    Terminado o filme atravessamos novamente o patio para ir num subterraneo fantastico aonde haveria uma palestra sobre o Nanetti.
    Esse era um esquizofrenico que morava no manicomio de Volterra – o maior da Italia – fechado nos anos 70 depois do Basaglia.
    Com o Pavel eu visitei a ruina desse manicomio, imensa, caindo aos pedaços.
    Pela arquitetura se percebe que não é um mosteiro, não é um palacio, não é uma prisão mas tem grades nas janelas.
    O Nanetti viveu lá e gravou 70 metros de parede na fachada externa. Quase tudo foi destruido, poucos textos restam e eu até vi dois ou tres que sobreviveram.
    A palestra era com o cineasta que fez um documentário sobre essas incisões nas paredes, e também há no momento uma exposição no Museu de l’Art Brut. Catálogo belíssimo editado pela In Folio que também editou o meu livro.
    Acabou a palestra e eu sempre doida para ir ao banheiro: prisão só de homens não ousei perguntar aonde era o banheiro das mulheres.
    Bom, terminou tudo, voltei para as ruas com meu super guarda-chuva, doida para comer uma pizza ruim, qualquer coisa que tivesse o gosto da liberdade. Comi uns biscoitos ruins, claro, no caminho de volta para o Hotel, descendo as colinas de Volterra e olhando lá em cima a imponente prisão aonde não preciso retornar.

  20. Luz de Pedra é minha irmã. Com sua autorização postei essa incrível narratiba sobre uma apresentação teatral feita por prisioneiros italianos na Fortaleza Medeival de Volterra, Toscana.
    Professor Astromar

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