VASA


VASA

Galeão sueco do século XVII, precursor do Titanic

 

  

Como o Titanic, era uma maravilha. Foi projetado como o mais elegante e poderoso navio de sua época. Como o Titanic, saiu do estaleiro fragilizado por erros inconcebíveis em sua construção.Como o Titanic, partiu em sua viagem inaugural cercado de pompa e circunstância e aplaudido por milhares de espectadores.Como o Titanic, marinheiro de primeira viagem, naufragou na dita cuja. Ao contrário do Titanic, não sobreviveu ao seu primeiro dia diante das ondas. Ao contrário do Titanic não levou milhares de vítimas para o fundo do oceano, contabilizou algumas dezenas. Ao contrário do Titanic, engolido pelas águas geladas por icebergs no Atlântico Norte, seu naufrágio ocorreu em plena luz do dia, em uma pequena baía, diante da população de uma capital européia. Como o Titanic, provocou um inquérito que não deu em nada. Ao contrário do Titanic, não desapareceu, nem permanece no fundo do mar. Está inteiro, sequinho, em um museu dedicado só a ele. É o Vasa, um galeão sueco, construído na Suécia dos anos 1600 e hoje principal e única atração do Vasa Museet, em Estocolmo.

 

                     Naufrágio do Titanic, Abril de 1912            Vasa e seu museu

 

 Foi numa viagem à Escandinávia que descobri, meio sem querer, duas maravilhas arqueológicas na Suécia: Birka, antiga cidade viking (objeto de artigo neste blog em agosto de 2007) e o Vasa, galeão sueco naufragado, com suas velas enfunadas, em plena baía de Estocolmo, minutos após deixar o estaleiro, em 10 de agosto de 1628. Essas descobertas resultaram de detalhes daqui e dali, meio escondidos do grande público, mas perceptíveis aos neurônios de um peregrino da História. Seja folheando um desfolhado e obsoleto guia turístico, a bordo de um trem que bordejava fjords (no caso de Birka) ou captando informação em um poster na vitrine de uma pequena agência de turismo, enquanto conhecia um pouco de Estocolmo correndo pelas margens de sua baía (no caso do Vasa).

 

                        

  Peregrino perdido na Velha Estocolmo                                                            Peregrino corredor em Estocolmo,prestes a descobrir o Vasa     

 

A Suécia do Vasa, no século XVII, era um país pobre. Estocolmo tinha 10 mil habitantes, em sua maioria pescadores, agricultores, marinheiros e militares, além da sempre inútil nobreza feudal. Altas taxas de mortalidade e incêndios diários martirizavam a cidade, mas não a realeza. O monarca de plantão, Gustavo Adolfo II, gastava o que tinha e o que não tinha, para manter as aparências, diante dos demais reinos europeus, que flatulavam basófias sobre a pujança de suas forças navais. Invencíveis armadas espanholas, inglesas, francesas e até portuguesas e polonesas provocavam inveja nos herdeiros dos insuperáveis vikings. Em 1625, pressionado pela Guerra dos 30 Anos contra a Polônia, acumulando derrotas navais e perdas importantes na sua flotilha, Gustavo Adolfo II encomendou a um estaleiro luso-holandês, cinco galeões espetaculares, tendo o  Vasa como nau capitânea. Os dois engenheiros do estaleiro eram pós-graduados da histórica Escola de Sagres, de Lisboa, famosa por seus ex-alunos, Pedro Álvares Cabral, que saiu para descobrir as Índias e atracou em Salvador, e Vasco da Gama, que também partiu para as Índias, mas não foi além de São Januário, onde perdeu o comando para um antepassado de Eurico Miranda. 

      

                          Estocolmo em 1661                                                    Gustavo Adolfo II                               Vasa em construção, 1627

 

 Megalônamo, Gustavo Adolfo II, teve no Vasa sua visão de um Taj Mahal apocalíptico.Enlouquecia os construtores, mudando as dimensões e as especificações do galeão, acrescentando canhões e mais canhões, e promovendo uma decoração tipo enredo do marinheiro sueco louco, misturando os temas de todas as escolas de samba na proa, na popa e nas partes pudicas de uma gigantesca mulata flutuante. Tinha estátuas de madeira, pintadas com todas as cores, representando gladiadores e imperadores romanos, filósofos gregos, múmias egípcias, imagens do Velho Testamento, próceres da Renascença, monstruosas figuras mitológicas como grifos, faunos e sereias, símbolos vikings, auto-retratos, brasões e delirantes rococós. Seus devaneios decorativos visavam não apenas a auto-glorificação, com ênfase na intelectualidade e na genialidade militar enquanto monarca, mas também imbuir respeito no povo e pavor no inimigo. Em sua imaginação, talvez considerasse o Vasa um aterrorizante bicho-papão náutico. Quando ficou pronto, o Vasa era gigantesco. Pesava 1.200 toneladas em seus 69 metros de comprimento e 53 metros de altura. Seus três mastros, estrutura, casco e acabamento consumiram cerca de 1.000 troncos de carvalho. Carregava 64 canhões e aproximadamente 700 estátuas.

 

                              

                                               Planta do Vasa                                                                                              Esculturas do Vasa         

                                                        

              

                                                                                                                       Esculturas do Vasa       

 

Esse pesadíssimo sarapatel real impactava a estabilidade, a resistência estrutural, a navegabilidade e a flexibilidade de manobras do incrível galeão. Os engenheiros do estaleiro sabiam disso. Os auxiliares e pajens do rei, idem. Mas todos temiam dizer a verdade, com medo da fúria monárquica. Para piorar, a engenharia naval da época não era escrita, os navios eram o resultado das idéias e experiências de seus projetistas e construtores. No caso do Vasa, dois profissionais detinham todo o conhecimento. Com a morte de um deles, a meio caminho dos trabalhos, a improvisação tomou conta dos desenhos e decisões finais do remanescente. Ai, Jesus ! Concluído, o Vasa exibia cinco decks. No deck superior, sob o céu, ficavam a cabine de comando, o leme, os mastros, as cordas e roldanas de manobra de velas, as espias e os acessos aos pisos inferiores. No segundo e no terceiro decks ficavam os canhões e suas escotilhas, dividindo espaço com os dormitórios da tripulação. O quarto piso era reservado para estocagem de víveres, munição e materiais. O último piso, na quilha do navio, alguns itens de estoque se espremiam entre 120 toneladas de granito, que formavam o lastro para equilíbrio do fantástico galeão. Com aquele peso, com aquela altura e com aquele granito no fundo, é possível afirmar que o Vasa era um paquidérmico  “João Teimoso”; aquele boneco palhaço inflado, com areia ou chumbo no fundo e que, empurrado para qualquer direção, balança mas não cai e volta à posição original de equilíbrio. A bateria de testes de estabilidade por que passou o Vasa merecia estar em um dos filmes de Charles Chaplin. Cerca de 30 marujos corriam de um lado para outro , no deck superior, para fazer o navio balançar. Com os construtores ausentes, o teste foi interrompido após algumas carreiras, quando o galeão já rebolava de forma estranha.

 

      

      Quilha e decks do Vasa                                                Deck de canhões do Vasa                                                          Deck de armazenagem 

  

 Irresponsavelmente concebido e arriscadamente construído, o Vasa era um prenúncio de tragédia anunciada sobre as ondas. No dia 10 de agosto de 1628, o Capitão Söfring Hansson, comandante do Vasa, deu a ordem para o luxuoso galeão militar partir em sua viagem inaugural. Bela manhã de verão em Estocolmo, céu azul, mar calmo e sem marolas, uma ligeira brisa soprando do sudoeste. Com três de suas velas garbosamente enfunadas e exibindo abertas todas as 64 escotilhas de canhões, o Vasa apontou para o leste, disparou dois canhonaços em saudação às autoridades e à população presentes, e adernou perigosamente para bombordo. A brisa mudou de direção e lá foi ele se inclinando para boreste. Orgulhoso, aprumou-se, mas pegou um ventinho mais forte, voltou a balançar ameaçadora e continuadamente para bombordo, viu a água jorrar navio adentro pelas escotilhas de canhões ainda abertas e, em alguns minutos e com algumas centenas de metros percorridos  em sua primeira viagem, naufragou pateticamente em 32 metros de águas rasas, o suficiente para deixar à mostra seu três mastros enfeitados por tremulantes e inúteis bandeirolas festivas. A infeliz tripulação de 200 homens, em desespero, buscou salvamento pulando do navio em direção aos barcos que acompanhavam a quase gloriosa partida. Mas cerca de 50 desapareceram, presos no galeão moribundo.

 

                                                                                           

                                                                                                                   A hora da verdade do Vasa – 20/08/1628

  

As notícias do fiasco encontraram o rei Gustavo Adolfo II em uma viagem diplomática ao exterior. Furibundo, ele imediatamente ordenou a prisão do coitado do Capitão Hansson e abriu uma Comissão Real de Inquérito que, como suas descendentes legislativas atuais, depois de muitos berros e acusações para todos os lados, concluiu que o naufrágio havia sido “um ato do Destino”. E ficou por isso mesmo. Alguns orgulhos feridos, milhares de dinheiros do pobre reino escandinavo lançados a fundo perdido , algumas famílias órfãs e desamparadas e nenhuma punição.

 Apenas dias após o naufrágio e os esforços para recuperar o Vasa já estavam em andamento. Mas a tecnologia para tamanha empreitada ainda não havia sido inventada. No entanto, em 1664, mais de 30 anos após o incidente, uma equipe de mergulhadores suecos e alemães, usando o velho artifício do sino de ar, recuperou 50 gigantescos canhões com peso de bronze apenas para revendê-los para a Alemanha a peso de ouro. Depois da descoberta de seus canhões, os três mastros emergentes desabaram e o Vasa desapareceu na História. A baía de Estocolmo, de águas límpidas, poluiu-se com uma lama negra. A localização exata do Vasa sumiu até mesmo das conversas de marujos bêbados nos portos adjacentes.

 

                                                                               

                                                                                               Resgatando os canhões do Vasa, em 1654

 

Logo após a Copa do Mundo de 1958, quando entregou a Taça Jules Rimet a Bellini, capitão da primeira seleção brasileira campeã do mundo, o rei da Suécia, Gustavo Adolfo V, multineto de Gustavo Adolfo II, aquele do Vasa, resolveu patrocinar a busca do azarado galeão, usando recursos de uma agora rica nação. Deu certo. Em 1959, o arqueólogo amador Anders Franzén desenvolveu um dispositivo para busca de destroços no mar e achou o Vasa. Durante os dois anos seguintes o velho navio, quase intacto, preservado pelas mesmas bactérias que preservaram os navios vikings encontrados inteiros na Escandinávia, escarafunchado por 1.300 expedições de mergulhadores,  fez uma vagarosa viagem de volta à superfície, em 36 pequenas arrancadas verticais. Ressuscitou em 24 de abril de 1961, depois de 333 anos submerso. Numa gloriosa manhã de domingo, foi rebocado de volta a seu estaleiro, dessa vez sem balançar e com as escotilhas seladas por centenários moluscos suecos. No resgate e na recuperação do Vasa foram encontrados e catalogados cerca de 26.000 itens. Fora um anel de ouro, seis velas de navegação e alguns canhões, o resto eram utensílios simples, como pentes, baús, canecas de estanho, roupas, luvas, chapéus de feltro, sapatos e tamancos, agulhas de costura, colheres de madeira, moedas, um jogo de gamão e até um kit barbeiro-cirurgião (naqueles tempos, quem aparava barbas e cabeleiras também cuidava de doenças e ferimentos). Quase todas as estátuas também foram encontradas. Além de 20 esqueletos, dentro e fora do navio, mantidos inteiros por suas vestimentas.

 

                  

 Arqueólogo Anders Franzén,descobridor do Vasa,1959                      Vasa  ressurge do fundo do mar                          Vasa de volta ao estaleiro

  

                                              

                                                                                       Restauração do Vasa                                                          Relíquias do Vasa – canhão e tripulante          

          

A recuperação do Vasa escancarou, nos tempos atuais, os hábitos de vida, as técnicas de construção naval e de navegação de séculos atrás. Um tesouro inestimável de conhecimentos. E trouxe uma lição de humildade diante do valor de um fato histórico. Ferido em seu orgulho viking pelo fiasco do Vasa, o governo sueco não procurou ocultar ou riscar da memória nacional o fato constrangedor. Ao contrário, em dezembro de 1988 o Vasa foi levado para seu último porto, especialmente construído para ele, seu museu, o Vasa Museet. Oficialmente aberto para o público dois anos depois, o Vasa Museet é um dos mais extraordinários museus da Europa. Situado em uma pequena península em Estocolmo, acessível por agradável caminhada a partir do centro da cidade, abriga o mais bem preservado navio do século XVII em todo o mundo. Quando o peregrino da História entra no Vasa Museet, perde o fôlego. O imponente galeão ocupa praticamente todo o espaço para ele construído. Como se estivesse em um trono, transpira nobreza e honra. Silencioso, exibe sua força descomunal, enquanto exala um cheiro forte de madeira e mostra, orgulhoso, seus canhões e suas estátuas. O peregrino da História nem precisa fechar os olhos e acionar a imaginação para voltar a 10 de agosto de 1628. O Vasa era, foi e sempre será uma visão espetacular quando solta suas amarras, pega vento nas velas e corta as águas em sua viagem inaugural.

 

   

         Peregrinos chegando ao Museu do Vasa                                      Vasa Museet e seus três mastros                                                 O Vasa

  

    

               O Vasa e suas escotilhas de canhões                                                  Vasa – popa                                                     Deck superior do Vasa

  

     

                                       Vasa – popa                                                                                     Vasa – proa                                                          Vasa – proa

  

                                                                                   

                                                                                                                                            Plataforma do vigia na proa do Vasa                                                                    

  

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20 respostas para VASA

  1. Gaita disse:

    Esplendoroso. O Peregrino da História tem de ter vivido a Marinha para inundar de emoção um conto naval.
    Conheço o Vasa; estive lá, mas você conseguiu me surpreender e encantar, como sempre.
    Gaita

  2. Luz de Pedra disse:

    Destaque do seu texto sobre o Vasa :
    -Ressuscitou em 24 de abril de 1961, depois de 333 anos submerso.
    -Além de 20 esqueletos, dentro e fora do navio, mantidos inteiros por suas vestimentas.
    -O imponente galeão ocupa praticamente todo o espaço para ele construído. Como se estivesse em um trono, transpira nobreza e honra. 
    -Silencioso, exibe sua força descomunal, enquanto exala um cheiro forte de madeira e mostra, orgulhoso, seus canhões e suas estátuas. 
      
    Seu artigo está espetacular, como a visão do navio em seu trono.

  3. Faustinho disse:

    Caro Professor,
    que história maravilhosa, impagável. E não é que o Gustavo Adolfo II me fez lembrar o nosso Sem Mindinho? Irresponsável e megalomaníaco, era cercado de puxa-sacos que não lhe conferiam a realidade e o pior: colocou a culpa no coitados do capitão. Só faltou o rei falar: "Eu não sabia que esse negócio poderia afundar… eu não sabia de nada." Fala sério, o Lula é a reencarnação do Rei Sueco.
    Abraços…

  4. Professor Astromar disse:

    Caro Faustinho
    Você tem razão. Lula é a reincarnação desse rei. Um com seu avião, outro com seu navio. A semelhança entre a empreitada naval do Gustafo Adolfo II e os nossos vergonhosos tempos atuais é total. Se fosse entrar mais em detalhes, o artigo viraria uma mini-série e eu poderia acabar processado pelo Campo Majoritário e também pela torcida do Vasco da Gama. Mas note que o rei realmente não sabia de nada: visitou o Vasa apenas uma vez, tinha um ajudante para anotar suas idéias sobre o navio e levá-las (como medidasprovisórias) à dupla luso-holandesa de construtores achistas, estava em uma de suas centenas viagens ao exterior no dia da tragédia, e fez a comissão de inquérito desconcluir que o único culpado era ele, para condenar, com todo  rigor da lei, um tal de "Destino".
    Saudações lulo-vikingas,
    Professor Astromar

  5. Camillo disse:

    Grande Astromar,
    Parabéns pelo livro.
    Esse Vasa foi realmente fantástico.Aquele teste de estabilidade foi demais…
    O texto como sempre interessante e envolvente.
    Saudações
    Camillo

  6. Covas disse:

    Lorde Astromar,
    Deliciosas histórias que o Professor Astromar nos reservou! Fiquei fã.
    Mais uma faceta sua que desconhecia…tanto quanto a de cinéfilo. Parabéns pelo bom gosto e pela iniciativa.
    Um grande abraço, a página já está nos Favoritos, e vou consultá-la esporadicamente!
    Covas

  7. Patrícia disse:

    Alegria imensa voltar aqui e ler um texto teu, assim com toda essa peculiaridade encantadora.
    Bacci

  8. Delicado da Kibon disse:

    Só mesmo os detalhes técnicos próprios de um tenente da Marinha, os conhecimentos históricos e a capacidade de pesquisa do genial Professor Astromar para fazer do texto VASA mais uma brilhante aula de história.
    Estou ansiosa para ver o que "Seu" Raimundo Nonato não vai aprontar…
    DK

  9. Raspa do Tacho disse:

    Não postei nada de conteúdo no blog do VASA pq nao tive tempo. Mas li o texto todo, os caras são admiráveis de ir buscar o galeão no fundo do mar e criar um museu só para isso. Memória viva.

  10. Lilly disse:

    Já dei uma olhada no seu blog. Uma delícia as suas estórias!
    Lembro bem do seu encanto com Floripa, a resistência de sair de lá…
    Muito bom, professor! Procurarei seu livro nas livrarias.
    abreijos,
    Lilly
    Ah, só não encontrei o idoso!

  11. Professor Astromar disse:

    Lilly
    O livro não está nas livrarias. Está estocado comigo, para os amigos. É só pedir. Foi patrocinado por uma empresa de consultoria e distribuído como brinde de fim de ano a clientes. Não há custo. Nele, eu esculhambo o PT, ao mesmo tempo em que abro minhas saudades. Eram artigos de um antigo blog, que ainda está no ar (Siris & Pirilampos   http://astromar.spaces.live.com), mas que parei de atualizar quando Lula foi reeleito. Não poderia ir contra 60 milhões de brasileiros. O segundo livro será Viagens na História. Os dois blogs são muito acessados. Siris & Pirilampos, até hoje. E Viagens na História é um campeão de audiência. Aguarde o livro na sua porta. Amplexos & ósculos.
    Professor Astromar

  12. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Esses grumete sueco é tudo danado de esperto. Construiram uma jangadona meia boca pra módi ela afundá depressinha e adispois ganhá um mundão de dinheiro com os turista abestado que vai lá vê aquela enganação. E pra naufragá sem aperreio aquele madeirume carregado de canhão, inda arrumaro dois mestre carpinteiro de tamanco pra fazê o barcão. Um da terrinha dos Cabral e outro lá das Yolanda. Tamanco portuga mais tamanco holandês. Pois Viaje na História de navio foi aquela que eu fiz quando era cangaceiro minino.
    Peguei um ita no Norte e vim pro sertão morá … Adeus meu pai, minha mãe. Adeus ó meu Ceará. Vendi meus troço que tinha, o resto dei pro Astromar. Talvez eu volte pra serra, talvez eu fique acolá.
    Viajão da peste, virou inté cantoria de Dorival Caymmi e literatura de cordel luxenta de Jorge Amado, em "Os Velhos Marinheiros". Conta o pai de Gabriela e Tieta que o comandante do ita, Capitão de Longo Curso Vasco Moscoso, mais chegado a umas lorota e a um rabo de saia do que a assuntamento navegante, salvou o navio na minha viaje, quando atracou no porto de Camocim com todas as amarras e cordas de bordo. Parecia uma aranha cabeludona. Chacota do povaréu da cidade,  com aquele monturo de serpentina de aço, virou herói pela manhã adispois que, noite adentro, um furacão do demo destruiu todos os navio, barco, saveiro, jangada e canoa do porto, menas o nosso ita. Aranhão imponente, vencedor na peleja contra o maior maremoto que já chegou aos praião do meu Nordeste. Eu tarra lá e vi c\’os zóio que a terra há de cumê. Tu sabe dessa história, né meu professô ? Tu é bão de leitura e tu é tenente da Marinha que dá tiro de canhão.
    Me adiscurpe a pose, professô Astromar, mas o meu ita ganha de 10×0 desse tal de Vasa.
    Sua bença,
    Capitão Raimundo Nonato
     
     

  13. Unknown disse:

    Não sou muito de escrever sobre seu blog,aliás…nunca escrevi.Mas esta reportagem que li hj,realmente foi uma descoberta e tanto,só vc mesmo Professor Astromar,p/ achar estas coisas diferentes.Sua cultura me surpreende cada vez mais.Saiba q adorei e aumentei meu vocabulário e aprendizado.Na verdade,gosto de coisas bem diferentes.Mas…fica aqui um grande abraço de parabéns.
    Com orgulho de te conhecer, um grande abraço

  14. Leninha disse:

    Li seu blog na sexta,mas não pude escrever antes.Vc está de parabéns,achei bárbara a reportagem,só peço desculpas pq não consegui ler antes pq estava viajando.Vc sempre surpreende com notícias diferentes e exóticas.

  15. Professor Astromar disse:

    Tenho recebido muitos telefonemas e emails,  pessoas me páram nas ruas querendo saber… Tudo por causa do comentário feito pelo companheiro Capitão Raimundo Nonato contando sua experiência com um Ita no Nordeste e sua aventura narrada em cantoria por Dorival Caymmi e em prosa por Jorge Amado. Além da detonada no Vasa. Em meu socorro, o último cangaceiro acode, mandando um ex-voto que ele armou e deixou na Capela da Santa Pia, que fica na Praça Coronel Pedro Anão, bem defronte à Avenida dos Esmeraldo, no Crato, Ceará. A ilustração está reproduzida no álbum de fotos Brasil, imagem 12.

  16. Luz de Pedra disse:

    No clip do Peguei um Ita no Norte, que o Professor linkou com o youtube, gostei demais do cara passando de barquinho e trouxinha.

  17. Faustinho disse:

    Caro Raimundo Nonato,
    gostaria do seu comentário sobre as múmias encontradas no Mosteiro do Frei Galvão.
    Seriam a Hebe e a Dercy Gonçalves?
    abs

  18. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Faustinho, seu moço.
    Pregunta mais sarnenta essa. O bando, que vorta e meia faz umas múmia aqui, acolá, na caatinga, tá dividido. O grupo liderado pelo cabra Peia de Jegue diz que as muié são a Marta Relaxa e a Primeira Marisa. Mas a turma da embolada, mais Lamparina & Caititu teima que as muié de caju sêco tão num tamanho despencamento que só possa ser as musa cansada de guerra, Teresa Batista e Tieta do Agreste.
    Capitão Raimndo Nonato

  19. Primo Fogão disse:

    Elogio????  Reconhecimento!!!!!!!Todas tuas descobertas, algumas reveladas pelo querido Professor Astromar desapareceram? De jeito nenhum… elas iluminam a memória distante das nossas vidas trazendo-nos de volta, das brumas do nosso passado, tudo de bom que nossas gerações criaram, ou usufruiram. E devem  ter sido a mais felizes das gerações pois inventamos – ou usufruímos – as melhores criações do Homem, num mundo limpo. Hoje, nem em Teresópolis temos ar puro. If you know what I mean.

  20. Voyeur de Wayzata disse:

    Pois é, Tchicha…2 semanas de cama e uma "Influenza" depois ( aqui abreviam a doença pra 3 letras, mas não menciono para não azarar o jogo contra o Nacional…), mais um PC totalmente estrambelado por algum virus carioca que logrou penetrar nas defesas de meu McAfee super-atualizado, e aqui me encontro há 2 horas tentando finalizar esta saudação da fria terra vikinga , se o Disco Duro não enfartar primeiro.
    Se o teu uma-vez-mais-formidável texto fôsse em Inglês, eu produziria um brochure pra vender na porta do Metrodome nos jogos dos Vikings  http://www.vikings.com/Stadium.aspx e faturar o ano…
    Tack du por existir.
    A g o r   a  tenh o q ue      ir,  poi s o Dis co D uro t á f ican do mole…
    Voyeur de Wayzata, alias, Amigo Mengão

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