ABADIA DE FONTEVRAUD


ABADIA  DE  FONTEVRAUD

Imponente e recluso gigante medieval. Hospedeiro de Deus e do Diabo.Destino final de personagens lendários e de degredados.

  

 

Um caleidoscópio de pedaços de luz e de fragmentos de sombras dançava no pára-brisas do Vectra negro, enquanto o carro rodava ao lado de um gigantesco paredão de pedra, naquela estradinha marginal sob árvores erguidas nas bancas do Rio Loire. Em inesquecível domingo de sol de verão europeu, eu estava ficando agoniado. A meu lado, meu pai consultava mapas. No banco de trás, sua eterna namorada se encantava com a paisagem. Mas nosso destino parecia se distanciar. O mapa estava certo. O local era ali. Mas onde estava a Abadia? De repente, caiu a ficha. Era óbvio. Aquele interminável muro de pedra era o que procurávamos. Fiz meia volta e em minutos estava estacionando o Vectra diante da entrada principal da Abadia de Fontevraud, na Place des Plantagenets, em Fontevreault-l’Abbaye, França.

  

      

                                 A Abadia de Fontevraud                                      O Vectra negro e a eterna namorada de meu pai, na Place des Plantagenets

 

A Abadia foi fundada no século XII por Robert d’Abrissel, um monge itinerante que, de 1110 a 1119, levantou as primeiras estruturas permanentes do claustro. Era um monastério unisex. Monges e monjas rezavam, praticavam penitência e desconjuravam no mesmo local. Pela tradição, uma abadessa comandava a abadia; normalmente, uma mulher de origem nobre. Velha e viúva, de preferência. Foi assim com Matilde d’Anjou, tia de Henrique II, rei da Inglaterra e, depois, com Isabella d’Anjou, cunhada de Ricardo Coração de Leão. A Revolução Francesa detonou a Abadia, destruiu suas obras de arte e confiscou suas riquezas. A última abadessa, Madame d’Antin morreu na miséria, em Paris. O decreto revolucionário de 17 de agosto de 1792 ordenou a evacuação de todos os monastérios franceses. O mato cresceu e tomou conta de tudo. Foi Napoleão quem reabriu Fontevraud. Como prisão. De 1804 a 1963, as paredes de oração e graça viraram muros de lamentações e desgraça. A restauração daquele que se transformou em um dos mais importante e fascinantes monumentos da França medieval começou em 1860, deixou para trás sua missão religiosa, trocada, em 1975, para atração turística oficial e Centro Cultural, sediando pesquisas arqueológicas, eventos educacionais e concertos de música. 

  

                                                    

                                                                                                               Localização

 

Meus pais e eu chegamos lá por acaso, ou quase. Voltávamos para a Suiça, depois de rever a Normandia de Guilherme o Conquistador, do Desembarque Aliado na Segunda Guerra Mundial e do Monte Saint Michel, quando decidimos pegar o caminho do Loire para ir vendo castelos e mansões seculares estrada afora. Preocupado com o cansaço do casal de eternos namorados, comecei a procurar um lugar para passar a noite. Atravessando o Loire em uma de suas pontes na Ville de Saumur, vi um castelo no alto do morro com um hotel a seus pés, às margens do rio. Magnífica imagem atemporal. Era o Hotel Anne d’Anjou, antiga mansão do século XVIII, um dia pertencente a um nobre colecionador italiano. Afrescos originais e uma escada renascentista em caracol nos projetavam 200 anos para trás. Check-in imediato. Enquanto tomávamos um café expresso ao pé do Castelo de Saumur, vi meu pai em êxtase, mergulhado no mapa. Disse ele, “a Abadia de Fontevreaud fica aqui perto; gostaria de fazer uma visita”. Saí pela rua, perdido, mas como que guiado, para achar logo um “Office de Tourisme “ a poucas quadras do hotel. A Abadia ficava a dez quilômetros de Saumur. Bingo.

  

                   

   O Loire, Hotel Anne D’Anjou,                         Saumur  e o Loire                                                                         Escadaria do hotel

        e o Castelo de Saumur 

 

  A Abadia é colossal. Da entrada se vislumbra um pátio imenso, com os edifícios que compõem o antigo complexo religioso. Ao norte, a Catedral; a leste, a sacristia, o claustro,a sala comunitária, os dormitórios e a enfermaria; ao sul, o imenso refeitório e a leste, as cozinhas com sua horta e seu pomar. Nas 230 celas do dormitório, os religiosos dispunham de uma mesinha, um genuflexório, um catre e uma cômoda. Quando prisão, nada disso. Na sala comunitária os moradores ocupavam-se de leitura, costura, trabalhos manuais, escrita. O imenso refeitório lembra o salão de atos de Hogwarts, a Escola de Harry Potter. Mesas de 46 metros de comprimento para monges e monjas, plataforma elevada para a abadessa e eventuais dignatários. Orações, discursos, regras e punições eram ditados dali de cima. Com uma acústica espetacular, o antigo refeitório acolhe hoje orquestras e corais para concertos clássicos e medievais.

  

         

                          Ingresso para visita                                                                 Pátio de entrada e meu casal                                                   A Catedral

  

   

                           Claustro e jardins                                                  Corredores do claustro                         Salão de atos de Hogwarts – Harry Potter

 

  

                    Sala comunitária                                                            Enfermaria                                                 Refeitório

  

                                                                                                   

                                                                                                              Cozinhas e horta

 

Mas é na Catedral que está a maior riqueza histórica da Abadia de Fontevraud. Passando pela porta principal, o silêncio e o vazio são assustadores. Nenhum banco, cadeira ou imagem. Apenas aquela nave central absolutamente cheia de nada. Lá na outra extremidade, um modesto altar de pedra. Mas o êxtase e o sorriso de meu pai se escancaravam. Aos pés do altar, quatro objetos entravam em foco à medida que nos aproximávamos. Magníficos, inexplicavelmente preservados, ali estavam os túmulos de Henrique II (1133-1189), rei da Inglaterra, duque francês da Normandia e de Aquitaine, de sua esposa, Eleanor d’Aquitaine (1122-1204), rainha da França e da Inglaterra, de seu filho Ricardo Coração de Leão (1157-1199) e de sua nora, Isabella d’Angoulême (1188-1241), casada com o vilão Príncipe João.

Os túmulos ainda estão coloridos, com os homens trajados no cerimonial militar da nobreza, e as duas mulheres como piedosas mães de família. Seus corpos, no entanto, não estão mais lá. Foram espalhados aos quatro ventos pelas ondas de fanatismo anti-nobreza da Revolução Francesa. 

 

        

          Altar na nave central                                              4 túmulos reais                                                                 Túmulo de Henrique II

  

  

       Estátua de Henrique II                                           Túmulo de Eleanor d’Aquitaine                                    Retrato de Eleanor d’Aquitaine

 

     

             Túmulo de Ricardo Coração de Leão                       Máscara funerária de Ricardo             Retrato de Ricardo

  

   

  Brasão de Ricardo Coração de Leão                               Túmulo de Isabella d’Angoulême                                                           Retrato de Isabella

            

Esses quatro ícones medievais, eternas celebridades da História, são integrantes da família dos Plantagenets, descendentes diretos de Guilherme o Conquistador, em 1066, primeiro Rei da França e da Inglaterra (para maiores detalhes, talvez valha a pena reler o artigo “Normandia – Parte I – Século XI”, no arquivo junho de 2007 deste blog). O nome “Plantagenet” é derivado do latim planta genista, uma planta silvestre com vagens verdes que produzem flores amarelas. Geoffrey d’Anjou, neto de Gulherme o Conquistador e pai de Henrique II, usava plantas genistas como adorno. Há controvérsias. Enquanto uma escola de historiadores garante que ele usava um ramo para enfeitar seu chapéu, outro grupo afirma que ele virava homem-planta ao se cobrir de plantas genistas como disfarce em caçadas. Mas tem também aquela linha que não tem dúvida que essa era uma forma de liberar seu lado gay e sair do armário. Sabe-se lá. Na verdade, o início dos Plantagenets é um sarapatel genético, difícil de entender. Como reis ingleses foram sepultados na França? Livros e livros fazem a maior barafunda. Mas, em resumo, as famílias reais pós Guilherme o Conquistador, da França e da Inglaterra, viviam co-prevaricando e gerando gente. Uns preferiam a Inglaterra; outros a França. O último dos Plantagenets machos foi Edward, conde de Warwick, sobrinho de Ricardo III, decapitado em 1499. E a linhagem feminina terminou com sua irmã, Margaret Pole, que literalmente perdeu a cabeça por e com Henrique VIII (aquele das seis esposas). Para os amantes de cinema, Edward Longshanks, um Plantagenet, aparece em Braveheart com Mel Gibson, espalhando crueldade em geral e tabefes em seu filho gay Edward II, em particular. Os Plantagenets sepultados em Fontevraud lá chegaram por diferentes razões. Henrique II passou a maior parte de sua vida na França. Eleanor d’ Aquitaine era francesa e pediu para ser sepultada ao lado do marido. Ricardo Coração de Leão, mais rei da Inglaterra do que da França, morreu na França, ferido por uma flecha que provocou gangrena. Ricardo pediu para ser sepultado junto ao pai. Quando esteve nas cruzadas, seu irmão, Príncipe João usurpou seu trono. Mas, na volta da luta com os árabes, Ricardo entrou para a Lenda de Robin Hood, brilhou em Hollywood através de Sean Connery, retomou o poder e acabou provocando a vontade de sua cunhada, Isabella d’Angoulême, abandonada por João, de levar seu último descanso também para Fontevraud.

  

                                                                      

Sean Connery como Ricardo Coração de Leão                            Planta genista – Vagem                                                                 Planta genista – Flores

 

 

Essa travessia pela árvore genealógica dos Planagenets me foi passada por meu pai, diante dos quatro túmulos, em Fontevraud. Visivelmente emocionado, ao terminar a narrativa, ele abriu os braços e soltou as palavras que ecoam até hoje dentro do meu coração: “Levei toda a minha vida querendo chegar aqui. Finalmente consegui, aos 81 anos de idade. Muito obrigado, meu filho”.

  

                                                                       

                                                                                  Parada de uma jornada de 81 anos

 

Meus pais retornaram ao Brasil dali a alguns dias. Eu segui para a Alemanha, a trabalho. A partida de meu pai, no aeroporto de Genève, foi nossa despedida. Dias depois ele embarcou em sua última viagem. Hoje vejo que, naquele dia em Fontevraud, no desabafo diante dos Plantagenets, ocorreu uma troca de guarda: a de um experiente historiador, para um outro, meio-verde, que continuaria sua jornada.

  

                                                                               

                                                                                 Troca da guarda de historiadores, na Place des Plantagenets

 

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32 respostas para ABADIA DE FONTEVRAUD

  1. Paparazzo de Pompéia disse:

    Professor,
    Muitíssimo obrigado por me proporcionar conhecer um local tão belo e cheio de história como esta abadia. Vou ver se consigo visitá-lo.
    Abs,

  2. Roger disse:

    Muito legal, Astromar. Vc que gosta de histórias, deve conhecer a do Jack, o Estripador. Veja o que eu achei (pode pular o começo e ir direto ao ponto): http://marthacorreaonline.blogspot.com/feeds/posts/default?start-index=1&max-results=25

  3. Professor Astromar disse:

    Caro Roger.
    Agradeço seu scrap. Visitei o blog que você descobriu. Conheço bem o episódio Jack the Ripper. Livros e filmes. Mas meu estilo é escrever sobre a História em lugares que vivi ou visitei. Com relatos e experiências pessoais. Nesse tipo de narrativa, sinto que o coração vai junto e, como me escreveu uma leitora assídua e colega de blog, "Quando leio depois o que escrevi, começo a conhecer aquilo que, de fato, penso".
    Professor Astromar
     

  4. Lilly disse:

    Meu caro professor,  
    impossível não se emocionar com esta viagem que tem tantos significados para você.  
    A memória das reações do seu pai, a despedida depois de você tornar realidade um sonho dele, que bênção!  
    Lerei novamente sua narrativa. São tantos os detalhes que me perdi nos salões… foi muita emoção!  
    abreijos,
    Lilly 

  5. Delicado da Kibon disse:

    Querido Professor,
    Foi emocionante (que outro termo usar?) ter mais uma aula de história.  O delicioso humor das Viagens, presente em várias delas, se transformou, nesta ida à Abadia, em amor misturado com Henrique II, Matilde e Anne d’Anjou, Ricardo Coração de Leão até chegar ao eterno casal de namorados. Até mesmo o Vectra preto, devolvido à locadora, por um motorista fiel e vitorioso, sacudiu a minha memória do último passeio do casal.Obrigada e parabéns por esta lembrança!.
    DK

  6. Luz de Pedra disse:

    Texto lindíssimo. Viagens na História e histórias com coração. Só você.

  7. Raspa do Tacho disse:

     Eu confesso que fico me lembrando do meu pai, conhecedor e apaixonado por essa história, ao lado de nossa mãe, linda e já perdendo a memória, feliz por ver estes lugares lidos,relidos, sublinhados, repetidos infinitamente por ele em sua inigualável estima pelos reis de França e Inglaterra.
     
    Ai que saudade do meu pai, desses lugares que eu não conheci e que ele tanto falava e que vc tão bem descreve e ilustra. Ai que saudades da minha mãe, falando francês e catando as pequenas flores que achava no caminho das viagens, fazendo bouquets.
    Muito lindo e muito emocionante.
    “Levei toda a minha vida querendo chegar aqui. Finalmente consegui, aos 81 anos de idade. Muito obrigado, meu filho”.
     
    Rsapa do Tacho
     

  8. Professor Astromar disse:

    Oi Raspinha do Tacho
    Sua descrição de como o casal de eternos namorados se posicionava naquelas viagens de história insere uma homenagem filial a eles nesse artigo, ao mesmo tempo em que detona uma overdose de emoção em cada vírgula. Pode estar certa que escrevi como uma oração aos dois, naqueles que seriam os cápítulos finais da jornada de 56 anos, da paquera nas calçadas de Copacabana, ao adeus diante do Pão de Açúcar.
    Professor Astromar

  9. Paulo Érika disse:

    Caro Astromar, obrigado por me incluir na lista dos privilegiados em receber suas mensagens.
    Realmente muito boa e clara descrição, parecia que eu estava lá. Achei muito simpático o casal de eternos namorados.

  10. Marcita disse:

    Até onde li, fiquei maravilhada. Tive de parar pela metade, mas vou ver se continuo hoje que está mais tranquilo aqui.
    Beijoka.

  11. Delicado da Kibon disse:

    Lindo o que a Raspinha escreveu. Me lembro que uma vez, passeando em Locarno com ela, papai e meus sogros, mamãe começou a colher florzinhas para um bouquet. Minha sogra, rígida suíça alemã, chamou a atenção da mamãe porque aqui na Suiça não se toca nas flores dos parques… Ela não tinha noção do que era uma pessoa romântica e espontânea como nossa mãezinha… No dia 1o. de Maio, dia do muguet, vou a uma floresta aqui perto e faço um bouquezinho, tão perfumado quanto o "Muguet du bonheur" de Caron e que uma vez ela me deu de presente!
    DK

  12. Voyeur de Wayzata disse:

    Ooooooooi, Profe…Ainda "quente" e emocionado pelo reencontro no Rio, me delicio com mais uma escala de seu histórico e fascinante tour de vida. É até cruel que só tenhamos tido algumas insuficientes horas de convivio ( v. observou que falamos nervosamente 7 horas sem parar e nem bem começamos ?…). Menos mal que este espaço me serve de companheiro nas solitarias horas de expatriado e, ainda melhor, me leva aonde não conheço com direito a narrativa, ilustrações e legendas, como num moderno tapete voador. Em homenagem ao Rio que nos acolheu tão oportunamente, digo e assino embaixo : " Você está BOMBANDO ! "
    Saudades,
    Voyeur

  13. Paulo Érika disse:

    Caro Astromar, tenho um amigo que também está se divertindo com seu blog. Reenvio suas mensagens p/ ele e os comentários são sempre legais. Poderia também incluí-lo na sua lista? É o Eduardo Semerjian. Mandei o email dele pro seu. 

  14. Semerjian disse:

    Boa! Gosto mesmo. Gracias, señor, pela inclusão! Abraços. Eduardo Semerjian.

  15. Professor Astromar disse:

    Caro Voyeur, congelado e reencontrado. O que são 7 horas em 47 anos ? Uma sílaba, talvez. Seus comentários, desde 2003, são e continuam sendo um combustível para o Astromar prosseguir, "no matter what".
    Ainda nos encontraremos em Minnesota, de onde escreverei um texto lôko in loco.

  16. Ana carolina disse:

    Olá! adorei o texto e viajar com voces pelas fotos. quero ir lá. voce ja leu o livro Historia do rei transparente? faz referencia a Fontevrault!

  17. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    O silêncio desceu aqui na caatinga quando eu li pro bando o conto da última viagem dos seus pais. Num teve um que não enxugasse uma lagriminha aqui, ou desse uma fungada acolá. Nem carece dizê que essa Abadia deve sê pra tu o que Juazeiro do Padim Ciço é pra nóis, lugá santo de romaria, reza e oração. Inté a cumadi Catita Saúva sumiu daqui. Diz a cumadi Maria da Capitinga que ela foi pru ritiro no Rio de Janeiro fazê a penitença de subi a escadaria da Igreja da Penha de joêio. Moça danada cua peixeira, mas crente e piedosa táli. Mas é bão o sinhô sabê que essa história dos rei e rainha que num sabe dadonde reina tá dando nó nas nossa idéia. Numa roda de prosa em vorta da fogueira de assá carcará refogado mais macaxeira, a gente matutou, matutou, e acabô achando que essa fudelança real de primo com parente, cunhada e tio deve tê sispaiado pela abadia adentro num troca troca da mulesta de vigário mais freira, onde aquela gente largou a Bíblia pelo tar de Carmasútria. Num foi à toa que a ira dos céu soltou a turma da guilhotina cortem-lhe a cabeça em riba da abadia pra acabá ca sévergonhice do demo. Só escapô os tumbalo da turma dos Plantagilete de Roliúdio, principalmente do 007 Ricardo Coração de Leão. E a abadia voltou a sê lugá de respêtchio e romaria. Aliás, a cumadi Maria da Capitinga, aquela que só lê jornal velho (acaba de descobrir que o Lula comprou aeroplano e que o Ronaldo Falhômeno é chegado numa estrovenga terceirizada), diz que é aparentada do Rei Ricardo, pois ela é braba qui só e garante que, na sua árvore ginecológica, ela é Maria Coração de Arara. Tá certo, quando ela fica uma arara, até o Cabra Negão do Chupacabra sai de mansinho…
    A bença, seu professô.
    Capitão Raimundo Nonato 

  18. Raspa do Tacho disse:

    Esta viagem se inscreve em uma série de coisas que nosso pai fez nos seus últimos anos de vida. Ele foi deixando para trás preconceitos, regras bobas da sociedade, comidas leves, legumes, gumex, foi se descabelando, no bom sentido. Foi vivendo sentimentos verdadeiros que vieram se embaralhar ao sofrimento de ver a doença de nossa mãe chegando. Ao mesmo tempo em que ele se libertava, ele se consumia na tristeza de perdê-la aos poucos, indo embora com os poucos dias que lhe restaram de vida após esta viagem à abadia dos plantagenets. [É uma história triste porque tudo se acabou, num momento que poderia ser libertador. Mas é uma linda história de amor. Ele não suportou vê-la adoecer e morreu. Ele morreu e ela não suportou viver sem ele, deixou a doença se instalar.
    Vc fica escrevendo essas coisas e eu fico falando besteira, querendo chorar.
     

  19. Delicado da Kibon disse:

    FONTEVRAUD POUR TOUJOURS
    Querido Professor, Raspinha do Tacho fica querendo chorar, e eu já leio chorando.  Na época, eu ouvia, extasiada,  a descrição das viagens que você fazia com eles. Eram aulas de história que  viraram páginas de livro disponíveis para consulta.  As vindas à Europa dos eternos namorados fazem parte dos momentos felizes que tive nos mais de 30 anos de Suíça. Idas e vindas à Placette, única loja onde ele entrava, idas e vindas de Vessy a Champel, percurso do quotidiano, a carteira para as compras sempre guardada com ela, até a última visita, quando ele, a partir de então, passou a segurar a carteira e, assustado com a doença  se aproximando, tirava a carteira do bolso e dizia, " minha filha, compra o que a sua mãe quiser".   Delicado da Kibon

  20. Professor Astromar disse:

    Raspinha do Tacho, Delicado da Kibon, Luz de Pedra
    Essa viagem, na verdade, começou um ano antes de acontecer. Eu tinha acabado de chegar de minha primeira visita à Normandia quando fui levar para meu amigo historiador uma cópia da Tapeçaria de Bayeux. Sem dizer uma palavra, ele se levantou e foi buscar um livro sobre as dinastias reais da Inglaterra. Como um mestre, me deu detalhes e mais detalhes da tapeçaria, e retomou a história do Plantagenet Ricardo Coração de Leão. A narrativa havia sido interrompida anos e anos antes, quando, todas as noites, ele contava a história de Ricardo nas Cruzadas e nas aventuras de Robin Hodd, para um extasiado menino de seis anos, prestes a adormecer. Ao me ouvir falar das praias do D-Day, ele se entusiasmou. Lembramos que, na minha adolescência, numa matinê do Cine Rian, em plena Praia de Copacabana, havíamos assistido juntos ao épico "O Mais Longo dos Dias", "fita" sobre o desembarque aliado na França, decisivo na Segunda Guerra Mundial. Decidimos fazer uma viagem no verão europeu seguinte, para ver e destrinchar esses episódios. Um verão gelado, com ventos cortantes nos pegou em Omaha Beach, em Utah Beach, Arromanches, Sainte Mère Église, nas escadarias do museu da tapeçaria, nas colunatas da catedral milenar de Bayeux e, principalmente, nas ruelas em parafuso do Mont Saint Michel. Eu me preocupava com a saúde dele e de sua eterna namorada, à medida que o Vectra negro avançava naqueles que seriam os últimos quilômetros de tantas vezes Europa. Mas, em Fontevraud, tudo mudou. Domingo de céu azul imaculado, veranico francês de 24 graus e aquela abadia medieval cercada de Plantagenets por todos os lados. Ele estava feliz. Foi um dia de felicidade. Passada a tristeza da partida para a última viagem, substituída pelo vácuo de uma saudade imensa, vejo que, afinal de contas, Normandia e Fontevraud representaram um presente para ele. E me orgulharei disso para sempre, até chegar a minha vez.

  21. Luz de Pedra disse:

    Finalmente li o seu texto, que está memorável. Assinalei abaixo as pérolas. Gostei muito da pesquisa de fotos, obrigada.  
    Fico na dúvida: claro que essa viagem foi especial; acho também que você tem a capacidade de tornar especial QUALQUER VIAGEM. Aliás, plantas genistas estão em flor aqui no jardim, mandarei foto. 
    -Um caleidoscópio de pedaços de luz e de fragmentos de sombras
    -Magnífica imagem atemporal.
    -Saí pela rua perdido, mas como que guiado
    -nave central absolutamente cheia de nada
    -planta genista, uma planta silvestre com vagens verdes que produzem flores amarelas
    -“Levei toda a minha vida querendo chegar aqui. Finalmente consegui, aos 81 anos de idade. Muito obrigado, meu filho".
    -Hoje vejo que, naquele dia em Fontevraud, no desabafo diante dos Plantagenets, ocorrreu uma troca de guarda: a de um experiente historiador, para um outro, meio-verde, que continuaria sua jornada.

  22. Patrícia disse:

    Que trabalho magnífico em palavras e imagens!
    O hábil Encantador… Quando penso que está no auge, você vai ainda além.
    Bacci, S.

  23. Leninha disse:

    Querido Professor, achei maravilhosa a reportagem e aprendi, mais uma vez, coisas que nunca imaginaria em poder saber sobre este local incrível. História…….,quando eu era criança, sempre detestei e hj em dia, vejo-me lendo e aprendendo com a maior facilidade e gosto, graça a vc. Mais uma vez, Professor Astromar, parabéns, vc consegue maravilhas. Imagino o quanto não foi prazeroso escrever esta reportagem, já q era um grande desejo de seu querido Pai. Aliás,deve ter sido gratificante esta viagem junto a eles q tb eram pessoas extremamente cultas e q tive o grande prazer de ter conhecido. Me sinto honrada. Um grande abraço carinhoso, Leninha.

  24. Faustinho disse:

    Meu caro professor, em primeiro lugar quero me desculpar publicamente pela ausência nos seus últimos 3 textos. Finalmente minha vida está voltando ao normal.
    Quanto à Abadia, é incrível a sua capacidade de me deixar com vontade de viajar. Cada texto seu que eu leio, mais depressão me dá de saber que ainda falta muita coisa boa para conhecer e que sou impedido de fazê-lo por absoluta falta de tempo e dinheiro. A sua descrição da Abadia é cinematográfica. J. K. Roling pode te contratar para ajudar no roteiro da próxima série de livros de sucesso dela. Parabéns!!!
    abraços

  25. Liza disse:

    Quero agradecer por ter disponibilzado e partilhado um pouco da sua experiência conosco. Pesquisando sobre Eleonorra encontrei aqui informações valiosas para o meu Projeto. Eleonora de Aquitania é a personagem inspiradora de coleção de Moda que estou criando (projeto de conclusão de curso – Estilismo e Moda). Ainda não tinha sentido tamanho desejo de conhecer de perto a Abadia e os personagens que fazem parte de sua história. Obrigada!!!Lisa

  26. Anônimo disse:

    Eu tenho um blog sobre as cidades e vilarejos da França e cheguei aqui por acaso.
    Adorei a sua postagem e fiquei emocionada com a história do seu pai. Que bom que você pode proporcionar essa alegria para ele!
    Fui a Fontevraud em janeiro de 2011 e fiquei encantada.
    Ana Lucia

    • Ana Lucia
      A Abadia de Fontevraud esteve na lista de lugares da história de meu pai durante a vida toda. Só chegou lá 30 dias antes de partir. Obrigado por reconhecer a emoção de minha narrativa. Achei bárbaro seu encanto com aquele encanto todo. Um dia, quem sabe, levarei meus filhos até lá…
      Astromar

    • Gostaria de conhecer o seu blog. Estou na primeira etapa da viagem: planejamento. É como sentir o aroma do bolo que está assando no forno. A gente começa saborear antes de comer e antes de embarcar.

      • Wanda Regina
        Viaje à vontade pelo meu blog. Em 2012 ele comemora 5 anos e até hoje, todos os artigos são visitados aqui, acolá. Como você fez com Fontevraud, que é tão cara a mim.
        Obrigado por sua visita.
        Professor Astromar.

  27. Sou professora de historia aposentada e professora de danças orientais árabes em plena atividade. Estou preparando uma viagem por esse roteiro dos castelos da França e amei o seu relato. Ainda estou em duvida se embarco nessa viagem a bordo das CVC da vidaou se alugamos um carro e seguimos por conta. Eu falo frances mas dizem que nas regiões mais meridionais da França eles falam uma lingua meio regional e não são lá muito amigaveis com os turistas. Gostaria de saber a sua opinião a respeito.

    • Cara Wanda Regina
      Esqueça pacote CVC, ele não lhe dará tempo para saborear os castelos do Loire. Nas duas vezes em que estive lá fui de carro alugado e a cada dia visitava 2 castelos. E fiquei hospedado em um deles. É fundamental o que você está fazendo, planejar, planejar, planejar. Vou para a California em janeiro e estou planejamdo, planejando, planejando.
      Obrigado pela consulta. Volte sempre.
      Professor Astromar.

    • Wanda, completando. No Loire e na Normandia os franceses foram simpatissíssimos. Em francês e em inglês.
      PfA.

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