ANTI-OLIMPÍADAS


ANTI-OLIMPÍADAS

A arte em capítulos predatórios da História

  

 

  

Corredor, triatleta, tenista, jogador de futebol. Sempre dos mais medíocres, mas também sempre leal e competitivo. Devo ter sido atleta olímpico em alguma reencarnação passada. Nunca fui à Grécia, nunca fui a uma Olimpíada, talvez, ainda. Mas encontrei história e arte olímpicas em um sem número de museus e lugares do mundo. Citius, Altius, Fortius (Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte). Aprendi que, nos jogos olímpicos da Antigüidade, guerras eram interrompidas para que as competições acontecessem.

  

         

          Olympia – Entrada do estádio                              Afresco grego decorado com corredores                           O discóbulo

  

                          

                Carregando a tocha antiga                                            Luta de boxe nas origens da Olimpíada                    Velocista

 

Os jogos olímpicos da Era Moderna miram a Grécia Antiga, mas suas tochas iluminam a natureza predatória da humanidade. Olimpíadas de 1916, 1940 e 1944 foram apagadas pelas duas guerras mundiais. Munich ’72 e Atlanta ’96 testemunharam ataques terroristas e velaram seus mortos. Moscou ’80 sangrou pelo Afeganistão e Pequim 2008 foi abalada pelo Tibet e pela Geórgia. Mas, infelizmente, sinto-me impedido de escrever sobre as Olimpíadas, pois nunca viajei até elas. Um dia, quem sabe …

 

Por outro lado, nas trilhas de minhas viagens mundo afora fui reconhecendo a História da Humanidade sendo contada pela Arte – pinturas, esculturas. Imagens à frente das palavras. Dos desenhos rupestres ao berço e ao túmulo de civilizações, passando pelos jogos olímpicos e seus derivados antigos e modernos, pela ascensão e queda de impérios, por descobertas e invenções, por representações de sentimentos e do cotidiano. E foi percorrendo a História na contramão da pacificação exigida pelas Olimpíadas que acabei destacando um conjunto de obras de arte magníficas, responsáveis por desvios no curso de civilizações em capítulos onde a natureza predatória da humanidade explodia em graus inimagináveis de violência.

 

Na Antigüidade, a fúria guerreira e expansionista de Alexandre o Grande, da Macedônia, sempre foi um ponto de referência. Na Batalha de Issus, travada nas fronteiras da Pérsia, em Novembro de 333 A.C., 40.000 gregos, liderados pessoalmente por Alexandre, botaram para correr 100.000 persas comandados pelo próprio Rei Dario III. Foi a segunda de três vitórias consecutivas de Alexandre sobre Dario, onde suas falanges armadas de lanças imensas abriram caminho até a queda de Babilônia, capital do Império Persa. Uma testemunha da Batalha de Issus conta que a quantidade de cadáveres empilhados  dentro de um rio próximo alcançava altura suficiente para represar o fluxo das águas, já completamente tingidas de vermelho. Na época, um artista grego retratou, em mosaico, cenas da batalha. A gravura de Alexandre e suas lanças enfrentando Dario e suas bigas foi reproduzida durante o Império Romano como um “best seller”. Encontrei o último exemplar da obra em minha primeira viagem a Pompéia, ainda estudante de Engenharia. O mosaico cobria uma das paredes da Casa do Fauno. Não está mais lá. Como medida de proteção e de preservação foi acondicionado em sala especial do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles.

  

                   

                                                Mosaico da Batalha de Issus e detalhe de Alexandre

  

                                                               

                                             Pompéia – Casa do Fauno, onde o mosaico foi encontrado

 

Na Idade Média, profundamente marcada pela incessante pancadaria entre França e Inglaterra, destaca-se a Batalha de Hastings, ocorrida em 14 de outubro de 1066, em disputa pelo trono inglês. De um lado, 8.400 normandos franceses liderados por Guilherme, o Conquistador. Cavalaria, infantaria e arqueiros. De outro, a infantaria inglesa de Haroldo II, formada por 7.500 soldados. Ao final do dia, Haroldo e seus irmãos estavam mortos e esquartejados, em companhia de 5.000 ingleses e 3.000 normandos, enquanto Guilherme se embebedava para celebrar sua coroação como primeiro rei da França e da Inglaterra. Monges normandos, comissionados por Odo, meio irmão de Guilherme e Bispo de Bayeux, na Normandia, produziram uma tapeçaria bordada que mostra e narra em detalhes os eventos que antecederam e ocorreram durante a batalha. Com texto em latim, a tapeçaria, medindo 50 cm de altura e 70 m de comprimento, ilustra a crueldade do extermínio em uma guerra medieval. Mortos despojados de suas vestes e armas enquanto abutres esperam sua vez de degustar pedaços de gente espalhados pelo chão. Exposta durante anos na Catedral de Bayeux para celebrar a vitória normanda, a tapeçaria está hoje em museu exclusivo, o Musée de la Reine Mathilde, em Bayeux, França. Foi lá que eu a encontrei, por acaso, quando fui visitar as praias do desembarque aliado no Dia D. E foi lá que retornei um ano depois, acompanhado de um incomparável mestre especialista e estudioso em Hastings, meu pai.

                      

                                                  A batalha de Hastings em trechos da Tapeçaria de Bayeux

  

                   

                             Sala da tapeçaria, no museu                                                           Musée de la Reine Mathilde, Bayeux

            

Durante a Renascença, enquanto as artes bocejavam depois da escuridão da Idade Média, o pau comia em seu berço, as cidades-estado italianas. Os Médici e os Bórgia dominavam a Toscana sem interferir nas aventuras marítimas, nas fofocas ducais e nos suspiros dos infelizes condenados de Veneza. O campeonato italiano de futebol não deixa de ser uma continuação desses embates, com um cidade jogando contra a outra. Milan x Roma, Fiorentina x Siena, Torino x Napoli, etc. Um dos mais sangrentos combates da Renascença foi a tomada de Pisa pelo exército florentino de Cosimo Médici. A tentativa de Pisa em tornar-se independente de Florença levantou a fúria de Cosimo. Seu exército, liderado pelo condottieri Ercole Bentivoglio di Bologna, cercou Pisa e derrotou fragorosamente as defesas da cidade na manhã de 15 de agosto de 1505, nas proximidades da Torre de San Vincenzo. No Palazzo Vecchio, em Florença, não há como não se extasiar com as proporções e os detalhes do afresco “La Battaglia di Torre San Vincenzo” na imensidão do Salone dei Cinquecento. Obra de Giorgio Vasari, pupilo de Leonardo Da Vinci, que ilustra a vitória florentina contra os defensores de Pisa.Todas as vezes que estive em Florença investi tempo revendo e escarafunchando o afresco de 1569, até a beira de um torcicolo. A cada visita, a descoberta de um detalhe provocava o convite para novo retorno.  

 

        

    Palazzo Vecchio – Florença   Salone dei Cinquecento e o afresco de Vasari                                     A batalha de Florença contra Pisa

 

Mas foi na Belle Époque do século XIX, na sociedade aristocrata e ociosa dos cavalheiros, das damas, dos gentlemen, dos meussieurs dammes, que explodiu a Guerra Civil Americana, episódio decisivo na formação dos Estados Unidos como nação. Apaixonado pelo assunto, tenho sido um peregrino dessa história nos últimos 13 anos, principalmente no que se refere à Batalha de Gettysburg. Durante os 3 primeiros dias de julho de 1863, 150 mil soldados americanos representando os exércitos inimigos do Norte e do Sul se confrontaram nas cercanias da pequena vila agrícola de Gettysburg para a maior batalha da história americana. Com a última gota de sangue, vitória do Norte, após um ataque suicida do Sul atravessando 1 milha de campo aberto contra defesas fortificadas e fogo cruzado. Gettysburg traz um balanço de 53 mil mortos, quase o mesmo número de vítimas americanas em toda a guerra do Vietnam. Sou um visitante freqüente de Gettysburg, hoje novamente uma pacata cidade de 2.000 habitantes, no interior da Pennsylvania. No Visitor Center, o Viajante na História poderá apreciar o Gettysburg Cyclorama. Óleo sobre tela gigantesco, pintado pelo francês Paul Dominique Philippoteaux, retrata , em 360 graus, os momentos finais da batalha, o ataque suicida dos confederados, imortalizado pela História como “Pickett’s Charge”. O trabalho foi concluído em 1883 e percorreu diversas cidades americanas até chegar a seu destino final, um prédio próprio, cilíndrico e grande o suficiente para abrigar as dimensões da pintura: 8,2 m de altura e 109 m de circunferência. Philippoteaux começou o trabalho a partir de fotografias tiradas de vários ângulos e posições topográficas e de entrevistas com centenas de sobreviventes do combate; oficiais e soldados dos dois exércitos e até civis. O grau de realismo da pintura foi tamanho que existem registros da emoção incontida e lágrimas de veteranos que lá combateram e que retornaram como visitantes. Nesse momento, o Cyclorama está fechado ao público devido a trabalhos de restauração da pintura, mas já está prestes a ser reaberto. Voltarei.

 

     

                                         Cenas do Cyclorama e detalhe do estrago de 140 anos

 

      

                                                Cenas do Cyclorama e detalhe da restauração

 

         

                                       Cyclorama em restauração e prédio cilíindrico da exposição

 

Chegando à nossa Idade Contemporânea, guerra e massacre é o que não tem faltado. Por isso, recorro ao gênio de Picasso, que pintou o painel Guernica em Paris, enquanto a Guerra Civil Espanhola ceifava vidas em seu país. A enorme pintura em preto e branco, óleo sobre tela de 3,5 por 7,8 metros, contrasta com a pequenina cidade que leva seu nome, um vilarejo basco no interior da Espanha, onde tudo mudou numa fatídica tarde da década de 30. O dia 26 de abril de 1937 era uma segunda feira, dia de feira-livre na pequena cidade da Biscaia. Das redondezas chegavam às suas estreitas ruas os camponeses do vale de Guernica, trazendo seus produtos para o mercado semanal. A praça ainda estava bem movimentada quando, antes das cinco da tarde, os sinos começaram a badalar. Um ataque aéreo se aproximava. A primeira leva de bombardeiros Heinkels-11 despejou sua bombas sobre a cidadezinha às 16:45. Durante as quase 3 horas seguintes, os moradores viram o inferno desabar sobre suas vidas. Estonteados e desesperados correram para aos arredores do lugarejo, onde rajadas de metralhadora disparadas pelos caças alemães geraram banhos de sangue. No fim da jornada havia um saldo de 1.654 mortos e 889 feridos,  para uma população inferior a 7 mil almas. Quase 40% haviam sido vitimados. Vitória experimental da Luftwaffe de Hitler, a serviço do Generalíssimo Franco. A escolha da pequena Guernica como objetivo da crueldade covarde deveu-se a vários motivos. A cidade era um alvo fácil, sem proteção antiaérea, e não tinha população numerosa. Além disso abrigava um velho carvalho (Guernikako arbola) embaixo do qual os monarcas espanhóis ou seus herdeiros, desde os tempos medievais, juravam respeitar as leis e costumes dos bascos, bem como as decisões da batzarraks (o conselho basco). Como o levante de Franco foi também contra a autonomia regional, a destruição de Guernica serviria como uma lição a todos os que imaginavam uma Espanha federalista ou descentralizada. Franco morreu, a Espanha se democratizou e o quadro de Picasso, após longa ausência, voltou para casa, cheio de histórias. Conta-se que, em 1940, com Paris ocupada pelos nazistas, um oficial alemão, diante de uma fotografia do painel, perguntou a Picasso se havia sido ele quem fizera aquilo. Resposta do pintor: “Não, foram vocês!”. O quadro foi transferido para o MOMA – Museum of Modern Art de Nova York durante a Segunda Guerra Mundial, com ordens expressas de Picasso para que só partisse para Madrid quando sua Espanha natal fosse um país democrático. A peregrinação de “el último exiliado” terminou em 9 de setembro de 1981. Admirador radical do acervo do Museu do Prado, acabei me rendendo à força da história e fui um dia prestar minhas homenagens a Guernica, no Centro Nacional de Arte Rainha Sofia, em Madrid. Foi de perder o fôlego, e continua sendo.

 

                                                           

 

                                            

                                                      Guernica – A tela, a exposição e o Centro Nacional de Arte da Rainha Sofia

 

Deveria terminar aqui minha narrativa sobre a travessia da arte em capítulos predatórios da história.Mas estou impedido. Como que tomando vida própria, esse texto me enfrenta com protestos furiosos, clama por uma final 360 graus, quer porque quer um desfecho olímpico. Tarefa impossível, me parecia nos últimos dias, enquanto argumentava com ninguém. Tarefa óbvia, percebo agora. OK que na Grécia Antiga as guerras eram interrompidas para a realização dos jogos olímpicos. Mas, foi depois de mais uma vitória impossível contra a superioridade persa, no ano 490 A.C., que os gregos despacharam o soldado Feidípides, para ir até Atenas anunciar o inacreditável triunfo grego. Após correr, sem parar, os 42 km que separavam Atenas do campo de batalha na planície litorânea de Maratona, Feidípides chegou ao destino com fôlego suficiente apenas para gritar “Vencemos!”, antes de cair morto. As Olimpíadas da Era Moderna incorporaram a Maratona aos jogos. Fizeram dela a prova mais nobre da competição, a prova que encerra os jogos olímpicos. Paradoxalmente, de um evento de guerra, a corrida de Maratona se transformou em momento de paz e de integração entre as nações, entre as pessoas. E popularizou-se mundo afora. Temos várias no Brasil; São Paulo, Porto Alegre, Blumenau, Brasília, Florianópolis e sei lá que outras. Nos Estados Unidos, já acontecem cerca de 5.000 maratonas a cada ano. Eu sei, eu fui lá para correr a mais famosa delas. Tive meu dia de Feidípides, mas sobrevivi.

  

     

             A Batalha de Maratona                                                      A corrida de Feidípides                                                  “Vencemos!”

  

                      

                 Maratona Olímpica                             Largada da New York City Marathon                    Astromar completando a New York City Marathon

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23 respostas para ANTI-OLIMPÍADAS

  1. Professor Astromar disse:

    Oi meu irmão, dessa vez você foi MUITO ORIGINAL! Achei seu texto cheio de estilo próprio, liberdade e muita cultura. Claro que você me conquistou quando menciona a História da Humanidade sendo contada pela arte. Me conquistou.Amei o final com com a guinada 360º, desfecho olimpico. Baci, C. Outros destaques:  
    1.Citius, Altius, Fortius (Mais Rápido, Mais Alto, Mais Forte). Aprendi que, nos jogos olímpicos da Antigüidade, guerras eram interrompidas para que as competições acontecessem.
    2.Por outro lado, nas trilhas de minhas viagens mundo afora fui reconhecendo a História da Humanidade sendo contada pela Arte – pinturas, esculturas. Imagens à frente das palavras. E foi percorrendo a História na contramão da pacificação exigida pelas Olimpíadas que acabei destacando um conjunto de obras de arte magníficas, responsáveis por desvios no curso de civilizações em capítulos onde a natureza predatória da humanidade explodia em graus inimagináveis de violência.
    3.Deveria terminar aqui minha narrativa sobre a travessia da arte em capítulos predatórios da história.Mas estou impedido. Como que tomando vida própria, esse texto me enfrenta com protestos furiosos, clama por uma final 360 graus, quer porque quer um desfecho olímpico. Tarefa impossível, me parecia nos últimos dias, enquanto argumentava com ninguém. Tarefa óbvia, percebo agora. OK que na Grécia Antiga  as guerras eram interrompidas para a realização dos jogos olímpicos. 
    4.Tive meu dia de Feidípides, mas sobrevivi.

  2. Patrícia disse:

    Elaboradíssimo e minucioso trabalho vemos aqui, digno de um maratonista, de um escolhido dos deuses.
    Medalha de ouro, Professor. Mereces ouvir o hino e ver subir tua bandeira.
    Uma honra ler um texto teu, sempre.

  3. Inacio Shibata disse:

    Caro Professor, como sempre lindas fotos e histórias interessantes e instigantes. Pelo resultado visual, tendo a pensar que, de alguma forma, todos, além da competição e hegemonia buscavam a imortalidade, onde alguns poucos conseguiram…Abraços,Inácio

  4. Professor Astromar disse:

    Mon cher professeur, o melhor das olímpidas, sem dúvida, foi o seu texto. Mais uma vez nos premiou com a arte de percorrer (coisas de maratonistas…) pela história e contar estórias interessantes, inteligentes. Medalha de ouro para o Professor!

  5. Professor Astromar disse:

    Professor,
    Foi assim mesmo que abri o "Anti-Olimpíadas" : "imagens à frente das palavras". Fui descendo até o final, encantada com a pesquisa de ilustração.  Volto lá para cima e começo a leitura. Aprendo muito sobre uma história tão distante que vai chegando perto da atualidade,  Ao fim e ao cabo, de encantada, passo a ficar extasiada! Bravo! Astromar Senior está sorrindo de orgulho!

  6. Professor Astromar disse:

    Belíssimo e original seu blog . Sempre o considerei uma pessoa de grande talento. 

  7. Professor Astromar disse:

    Instigante, claro e didático e, como sempre, delicioso de se ler. Mais uma vez, caro Professor, você conseguiu tratar tema complexo com leveza, deixou o pesadelo dos alunos, a Antiguidade, facinho, facinho…  
    Sorte do mundo que ainda existem pessoas que gostam das histórias, que tanto nos poupam de cometer os equívocos no nosso presente e futuro. 
    Dentro desse questionamento dos alunos por que estudar história, pra que saber quem ganhou a guerra do Peloponeso, de que interessa saber quem foi Alexandre, o Grande, Dario I, II, III, Péricles, e tantos outros nomes esquisitos e, aparentemente, sem importância, fui abordado por um aluno do tipo engraçadinho, daqueles que adoram fazer a classe rir, que me perguntou: "Paulo, pra que eu preciso saber quem foi o cretino que mandou no Império Persa, prá que perder tempo com toda essa bosta? Eis que eu, no alto da minha finesse e sobriedade de ex-aluno de colégio de padres jesuítas, respondi: "Prá você fazer menos cagada no seu presente e no seu futuro!!!" 
    Fim da conversa, nunca mais me fizeram perguntas "inteligentes".

  8. Professor Astromar disse:

    Professor,
    Aprender ou reviver história da maneira como vc escreve,é muito gostoso e gratificante.Garanto que a maioria dos atletas do mundo nem sabe como surgiu a maratona.Vc consegue dados incríveis que devidos a sua peculiaridade de bom historiador nos fascina cada vez mais.Tenha a certeza de que como bom maratonista que vc é,sua medalha nesta reportagem foi de OURO!!!!Obrigada por existir e peço que sempre tenha vida longa para poder continuar a nos proporcionar momentos históricos inenarráveis.

  9. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Enquanto rolava as Olimpíada lá na China, nós tava fazendo a noss tar quar aqui. Teve Os 100 metros fundos, onde os cabra tinha que nadá 100 metros no fundo do Açude da Piranha Tarada. Teve o Salto cum Vara, aquele rodeio onde as cumadi fica pulando em cima dos cumpadi qui nem vaca brava. Tene a Maratona de Peidípides, onde os cangaceiro tomava purgante com sarapatel de rato do riacho com escorpião menstruado e saía em disparada peidando que nem só; medalha de ouro pro ultimo que se borrassse todo. E terminava com o heptatlo, prova de sete etapas, sete carcadas: primeiro, na Verona do Buraco Fundo; depois, na cabrita Julieta; em seguida, de carreirinha, numa galinha cisca cisca caipira, numa jaca rachada, na vaquinha Mimosa e na Beata Sinira. Finalmente, o combate épico mortal: carcar o Touro Manivela. Num carece de detalhes, mas esse seu pupilo ganhou mais medalha de ouro que o Máikéu Féupis.
    Mas a turma aqui que lavrá um protétio: nessa sua lista de capitro precatório da deseumanidade, num podia faltar a grande obra de cordel que todo o sertão conhece: A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO. Obra de José Pacheco com uma ajudinha aqui desse seu capitão. Para suprir essa falha, transcrevo a obra agora, ao mesmo tempo em que coloco suas ilustrações no álbum de fotos que o sinhô fez preu, logo ai acima, chamado CAPITÃO RAIMUNDO NONATO". Muito obrigado, mstre. O sertão agradece e o Padim Padi Ciço benze tu.
    Sua bença, meu professô.
    Capitão Raimundo Nonato.
     

    A CHEGADA DE LAMPIÃO NO INFERNO
    (José Pacheco e Capitão Raimundo Nonato)
    Um cumpadi de Lampiãopor nome Pilão Deitado,que morreu numa trincheiraum certo tempo passado,agora pelo sertão,anda correndo visão,fazendo malassombrado.
    Foi ele quem trouxe a notíciaque viu Lampião chegaro inferno nesse dia,
    Tesconjuro, Ave Maria !Vamos contar da chegadaquando Lampião bateu o sino,um moleque ainda mininono portão apareceu:-Quem é você, cavalheiro?“Moleque, eu sou cangaceiro  abra logo esse  portãosaiba que sou Lampiãoassombro do mundo inteiro”.O vigia disse assim:fique fora que eu entrovou falá com o chefe demoaqui só passa si nóis queremo.mas conforme o que disser,eu levo o senhor pra dentro.Lampião disse: vá logoquem conversa perde hora.Vá depressa e volte já!Eu quero pouca demora,se não me derem ingressoeu viro tudo asavessotoco fogo e vou embora.O vigia foi e dissea Satanás no salão:saiba Vossa Demoníaque aí chegou Lampião,dizendo que quer entrare eu vim lhe perguntarse sim ou se não.- Não senhor, Satanás disse.Manda ele ir-se embora.Só me chega gente ruim,eu ando muito caipora!Já estou inté com vontadede botar mais da metadedos que tem daqui pra fora.Disse o vigia: patrãoa coisa vai arrupiar.Eu sei que ele se danaquando não puder entrar.Satanás disse: isso é nadaconvide aí a negrada,e leve os que precisar.E reuniu-se a negrada.Primeiro chegou Fuchico,com o bacamarte velho,gritando por Cão de Bicoque trouxesse o Pau de Prensae fosse chamar Tangençaem casa de Maçarico.Veio uma diaba moçacom a calçola de meiapuxou a vara da cercadizendo: a coisa está feiahoje o negócio se dana!E gritou: êta baianaagora a ripa vadeia!E saiu a tropa armadaem direção do terreirocom faca, pistola e facãoespingarda e granadeiro.Uma negra também vinhacom a trempe da cozinhae o pau de bater tempero.Quando Lampião deu féda tropa negra encostada,disse: porra de tropa preta danada!E o chefe do batalhãogritou de arma na mão;- Toca-lhe fogo, negrada!Nessa voz ouviu-se tiros,que só pipoca no caco.Lampião pulava tantoque até parecia um macaco.Acabou-se o tiroteiopor falta de munição.Mas o cacête batia,negro rolava no chão.E por mais que sacudiaquem metia porrada era Lampião.Lúcifer mais Satanásvieram olhar do terraço:todos contra Lampião,de cacee, faca e braçoo comandante no gritodizia: briga bonitonegrada, acaba cum cangaço!Lampião pôde apanharuma caveira de boi.Sacudiu na testa dumele só fez dizer: oi!…E inda correu dez braçase caiu enchendo as calçasmas eu não sei dizer do que foi.Estava travada a lutaduma hora fazia.A poeira cobria tudo,negro embolava e gemia.Porém Lampião feridoainda não tinha sidodevido a grande energia.Lampião pegou umas pedraesfregou que quase quebra.Saiu fogo azuladoincendiou todo  o mercadoe o armazém de algodão.Satanás com esse incêndiotocou berrante chamandotodos os negros já fugindomais os morto se fingindo.Lampião com seu olho bão
    garrucha e peixeira nas mão,não vendo com quem brigartambém foi se retirando.Houve grande prejuízono inferno nesse diaqueimou-se todo dinheiroque Satanás possuía.Queimou-se o livro de pontos,perdeu-se vinte mil contossomente em mercadoria.Leitores, vou terminartratando de Lampião.Muito embora que não possavou dar a explicaçãono inferno não ficou,no céu também não entrou.Por certo está no sertão.Quem duvida desta história,pensar que não foi assim,querer zombar do meu sérionão acreditando em mim,vá comprar papel mudernoescreva lá pros Infernomande saber de Caim.
    A história, num sabe, foi bem essa,
    contada na caatinga, na mercearia,
    nas passarada, com muita alegria.
    Quem passa pelo acoito sem pressa,
    ouve da turma do riacho rindo à bessa…
    -Era isso que gia queria !

  10. Raspa do Tacho disse:

    Mestre Astromar,
    Quando nossa mãe fez 70 anos, vc disse em seu depoimento gravado em vídeo, que ela era uma maratonista. Que vivia de um lado para outro, ajudando filhos, arrumando casas,viajando de um país a outro para cuidar de netos, de casamentos de filhos.
    Sempre aproveito seus temas para falar de sentimentos que nos envolvem, os temas por si só são maravilhosos, bem escritos, explicativos.
    Falo hoje da maratonista que foi nossa mãe, que se foi há 4 anos atrás.
    Fui recentemente ao antigo Colégio Sacré-Coeur de Jésus, hoje abrigando a Casa Cor e futuramente um condomínio de apartamentos e lofts. Minha ida foi motivada mais pelo espaço que abrigou o colégio e onde estudei durante 8 anos do que para ver pessoas, muitas das quais nem me lembrava.
    Minha emoção remetia a ela mamae, que nos colocou naquele colégio de elite, preconceituoso mas lindo, que tinha jardins maravilhosos, salas lindas, grutas, bambuzais. Ela freqëntava o colégio às segundas-feiras, costurando, espremida no tempo que era sempre curto.
    Muito bom vê-la naqueles jardins, elegante, em vestidos tubinhos feitos por ela, dirigindo um carrinho com luvas especiais e fazendo uma barbeiragem atrás da outra. Ela nos trazia para casa, era o dia em que ela não se atrasava!
    Ela morreu no dia 7 de setembro, às 10 e 15 da manhã. A clínica me ligou às 9 e meia dizendo que ela estava com muita dificuldade respiratória, saí correndo com Ciça, chegamos lá, segurei a mão dela, me despedi e ela suspirou. Não houve atraso, ela estava lá me esperando chegar. E eu chorei, chorei muito.
     

  11. Lilly disse:

    Querido professor, a mensagem da Raspa de Tacho me emocionou tanto que não pude curtir os comentários do Capitão.
    Fica para outro dia. Abreijos, Lilly

  12. Professor Astromar disse:

    Caros amigos e queridas amigas
    Esse artigo das ANTI-OLIMPÍADAS, com foco na participação da arte na história da humanidade, gerou bons comentários de vocês. Não sei quantos têm o hábito de ler o chamado para um novo texto, sempre publicado no álbum de fotos ASTROLÁBIOS, logo no início do blog, antes dos artigos. O Astrolábio referente a ANTI-OLIMPÍADAS, está ilustrado por várias obras de arte. Pinturas, afrescos, esculturas. Da Antiguidade aos dias de hoje. Mas nenhuma delas está identificada. OK, pergunto a vocês o nome de cada obra e seu autor. Cada resposta certa, obra ou autor, valerá 1 ponto. Quem fizer mais pontos ganhará um DVD de sua escolha.
    Para evitar “cola”, enviem suas respostas por e-mail.  Dica: algumas obras não têm nome, algumas são de autor desconhecido.
    Respostas válidas até as 24 horas, horário de Brasília, de segunda feira, dia 15 de setembro de 2008.
    Boas pesquisas e boa sorte.
    Professor Astromar

  13. Primo Fogão disse:

    Fantástico, Professor. Quanto ao concurso, estou fora. Imagine que, além daquelas manjadas, a moça do sorriso, a boneca dançarina, aquela da Via Sacra do Vaticano e do arremessador de LP\’s, não tenho a menor idéia dos outros autores. A favor do meu intelecto ouso apostar que os afrescos gregos podem ter sido o motivo dos fundos dos pratos de sopa no "La Cage Aux Folles"…
    Abraços, Primo Fogão

  14. Luz de Pedra disse:

    Mandei algumas respostas, antes de partir para Volterra…

  15. Delicado da Kibon disse:

    OBA !!! Concurso ! Já consegui ver tudo. Até dia 15 mando minhas respostas !  Amanhã é feriado aqui em Genève, vou fazer uma caminhada de 5 horas…Bjs. DK

  16. Delicado da Kibon disse:

    Adorei a última frase do Capitão Raimundo Nonato… essa a gente nunca vai esquecer. Gia é muito metida, tá sempre querendo alguma coisa, em geral, difícil. Mas conseguiu chegar lá, metida dentro de uma viola. Tem gente que um dia vai fazer que nem ela!
    DK

  17. Faustinho disse:

    Meu caro professor,
    finalmente estou conseguindo colocar em dia minhas leituras. Mas desta vez acho que vou ficar fora do concurso. Este exige muita pesquisa e estamos em cima da hora. Mas de qualquer forma a leitura do seu texto me fez lembrar da maravilhosa experiência que tive no Museo do Prado, em Madri. Sem dúvida alguma, um dos dias mais inesquecíveis da minha vida. Cada vez que penso no que vi lá, percebo o quanto somos pequenos. Qualquer hora dessas conversamos pessoalmente sobre isso. Dizer que as suas descrições são fantásticas é pleonasmo. Abraços.

  18. Professor Astromar disse:

    Caros amigos e queridas amigas
    O CONCURSO DE ARTE DO PROFESSOR ASTROMAR, referente à arte na história da humanidade, foi encerrado às 24:00 hs dessa segunda feira dia 15 de setembro de 2008. As respostas corretas estão postadas no álbum de fotos CONCURSOS, logo no início do blog. E, do máximo de 24 pontos, a pontuação dos participantes foi :
    1.Jurerê ………………………….. 21 pontos 
    2.Delicado da Kibon …………… 16 pontos
    3.Samothrace …………………… 12 pontos
    4.Luz de Pedra ………………….. 11 pontos
    5.Narciso Rujol ………………….. 6 pontos
    6.Capitão Raimundo Nonato ….. 0 ponto
    Obrigado pela participação e parabéns pelo esforço. Sei que vários de vocês pesquisaram fundo e com certeza aprenderam com isso. Houve respostas que nem eu tinha. 
    Aguardo e-mail de Jurerê com o nome do DVD de sua escolha.
    Professor Astromar

  19. Delicado da Kibon disse:

    Puxa vida ! Acertei só 8 e fiquei em segundo lugar !!! Quero prêmio de consolação:  6 quilos de Delicado da Kibon !!! Mas só vale do branco, vermelho e rosa, que tal?
    Obrigada, beijos! DK

  20. Jurerê disse:

    Caro Astromar, é com muito orgulho que me torno 1º lugar em Universo, no seu concurso de arte.
    Abaixo segue o nome do DVD para a premiação. Tem na Saraiva.
    1. Mulan (o primeiro)
    Bjs, Jurerê

  21. Patrícia disse:

    Fiquei feliz com o terceiro lugar, obrigada :)Pena q não tive tempo para terminar de responder, mas estou de férias, viajando. Não tenho ficado muito tempo em frente ao computador.Quem sabe na próxima…S.

  22. Ana Carolina disse:

    Oi Professor, tudo bom? Pena que nem participei do concurso :(   Mas faça outros que quero participar tá? Bom, estou  escrevendo porque viajo amanhã para Buenos Aires, catei no seu blog algum texto sobre lá. Pena…nao encontrei. Adoraria saber suas dicas, o que voce sugere de lá porque admiro teu bom gosto.Bom, se ainda tiver tempo de me indicar algo…

  23. Professor Astromar disse:

    Oi Carol
    Que legal ir pra Buenos Aires. Fui lá trucentas vezes, de 1968 (aspirante na Marinha) a 1999. Em todas as vezes, fui ao Palacio de Las Papas Fritas, restaurante antigo, servido por garçons antigos. Peça bife de chorizo com papas fritas (batata sauté, inflada). Walking distance de qualquer hotel central. Buenos Aires está na lista de artigos dest e peregrino da História, mas ainda não baixou o santo pra escrever. É assim que funciona a escolha de temas. Baixa um santo, sei lá de onde. Caminhe pelo Centro, ande pela Calle Florida (calçadão), vá bater pernas em Puerto Madero, para um sorvete durante o dia e para um jantar divino à noite. Foi lá que meu navio atracou em 1968. Hoje é um lugar de ateliers e restaurantes. Again, walking distance. Vá conhecer o colorido da Boca, vá conhecer o bairro chique da Recoleta. Passe de táxi em frente à Bombonera do Boca Juniors. Escolha uma casa de tango e deixe rolar. A mais tradicional, pero también la más turística é El Viejo Almacén. Tome vinho tinto argentino, peça sugestão. Gosto do seco. Uma vez eu fui a um passeio que a IBM organizou para visitar o delta do Rio de La Plata. Casarões com garagem de barcos. Ruas de água. Parece uma mistura de Florida com New Orleans. Imagino que artigos de couro ainda sejam a  melhor opção de compras. Veja na Calle Florida ou na Galeria Pacifico (um antigo e monumental prédio do governo transformado em um shopping espetacular, fica na Calle Florida). Saludos!

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