ACAPULCO …


CADÊ ACAPULCO ?

  

  

 

Glamouroso, tropical, estelar, milionário e hollywoodiano balneário mexicano, Acapulco sumiu do mapa turístico internacional. Desaparecido companheiro de ícones luxuosos d’outrora, como o Cadillac Rabo de Peixe ou as viagens transatlânticas de navio. Sumiço comprovado toda semana nos cadernos turísticos de jornais de grande circulação, como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo. Em cerca de 15 páginas semanais de cada edição, nenhum chamado, nenhum pacote, nenhuma citação a Acapulco.

 

Os flamingos, os papagaios, a verdejante flora de Sierra Madre, os 5km de praia em ferradura, os suntuosos hotéis, os imaculados tapetes de grama dos campos de golfe  e as margueritas que embalam a vida noturna continuam lá. La Quebrada com seus 75 anos e o penta-centenário Forte San Diego, também. Mas pouca gente fala de Acapulco. Talvez com nostalgia, como a amiga que me pediu esse texto.

  

                                                                                                 

  

    

              Baía de Acapulco                                                  Mergulhadores em La Quebrada                                                                       Forte San Diego

  

O magnetismo do lugar fez de Acapulco personagem de filmes de Hollywood durante 45 anos; começando com “Los Tres Caballeros”, desenho animado de Walt Disney de 1944, passando por “Seresteiro de Acapulco (Fun in Acapulco)” com Elvis Presley e Ursula Andress em 1963, para terminar com “007- Licence to Kill”, um James Bond de 1989. Como estive lá numa convenção de vendas da IBM, em 1987 e tendo passado pelo México uma dúzia de vezes, até recentemente, descobri argumentos para explicar essa quase extinção.

  

                         

 Panchito, Zé Carioca e Pato Donald em Acapulco                                  Elvis em Acapulco                                       James Bond em Acapulco

  

Acapulco foi descoberta em 1521 por Hernán Cortés, o espanhol exterminador de aztecas e aparentados. Seu nome significa, no idioma de seus ocupantes de 3.000 anos A.C., “lugar das grandes plantas marinhas”. Ali os antigos habitantes viviam da agricultura, caça e pesca. O primeiro estágio predatório chegou com os conquistadores espanhóis que, diante da sua localização e seus recursos naturais, fez de Acapulco porto e estaleiro de galeões d’El Rey, que navegavam entre o México e a Ásia, em rotas comerciais. Dali eram embarcados então e até hoje, algodão, frutas tropicais, cana-de-açúcar, café, tabaco. O fluxo comercial espanhol trouxe riquezas a Acapulco. E, atrás delas, piratas ingleses, franceses e holandeses. O Forte de San Diego, traz, no silêncio de seus 400 anos, marcas de combates de piratas multinacionais e conta sua própria história em um museu muito bem cuidado, protegido por agora velhos e inúteis canhões de bronze.

  

      

                  Gravura de Acapulco, 1628                                             Forte San Diego Século XVIII                                               Porto de Acapulco

 

O Pedro Álvares Cabral de Acapulco como resort foi o ator Errol Flynn, em 1933. Começava a segunda onda predatória da então apenas vila Acapulco. Em seu magnífico iate, lotado de rapazolas, descia em festa contínua pelo litoral, desde a Califórnia, para perturbar a paz dos sossegados pescadores e daquela baía mexicana. Logo apareceram hotéis em torno de La Quebrada, o altíssimo penhasco de onde jovens mergulhadores se atiram com a precisão matemática necessária para atingir a água quando as ondas alcançam seu ponto mais elevado e distante do fundo de rochas. Atrás de Errol Flynn despencaram México abaixo o Tarzan Johnny Weissmuller, John Wayne, Elizabeth Taylor, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Dean Martin, Lana Turner, Robert Wagner, Natalie Wood e, até mesmo, Sylvester Stallone. Tanto como hóspedes dos inacreditáveis hotéis que brotavam na cidade, como proprietários de mansões redundantemente cinematográficas. Lá estiveram também, em lua de mel, John Kennedy e sua Jackie K. (depois O.), Bill e Hillary Clinton (antes do nascimento da estagiária Monica) e até Rod Stewart  travestido em traje de flamingo. Marca registrada de Acapulco, o Hotel Las Brisas, com suas suítes cravadas na montanha, tinha fila de espera de 2 anos para uma vaga, enquanto o gigantesco Acapulco Princess viu os últimos dias do recluso bilionário Howard Hughes (personagem vivido por Leonardo di Caprio em “O Aviador”). Em 1967, um artigo de capa da revista Life proclamava a cidade como balneário favorito das celebridades internacionais e um dos lugares mais tranqüilos e sofisticados do mundo. Em 1968, sediou as provas de iatismo da Olimpíada do México.

  

        

              La Quebrada                                                            Acapulco, 1920                                                                                                Acapulco, 1940

  

     

                       Acapulco moderna                                      Forte San Diego, 1920                                                             Hotel Las Brisas

                    

                                                                                                 

                                                                                                   Transporte exclusivo e acesso ao Hotel Las Brisas

  

Mas, como uma Sodoma e Gomorra à beira mar, a festa tinha os dias contados para terminar. As primeiras discotecas do mundo surgiram em Acapulco. Grace Jones inaugurou lá a filial do nova-iorquino Studio 54 com uma festa literalmente de arromba. Do alto do palco, em trajes de tigre de bengala, puxava bêbados frenéticos para requebrarem com ela, arrancava suas calças e, talvez insatisfeita com o que pululava do zíper, atirava-os de volta ao piso do inferno. Uma onda de turismo em massa e a falta de planejamento urbano em cumplicidade com uma expansão imobiliária descontrolada, deixaram as praias majestosas arruinadas por uma selva de espigões de concreto. A tsunami predatória irresistível da combinação criminalidade e drogas fechou o caixão daquela decadente maravilha. Agravada ainda por um furacão devastador, em 1997.

  

                                                                                 

                                                                                                        Concreto e o mar de Acapulco

 

Nos três dias que passei em Acapulco, em 1987, fiquei na proteção do Acapulco Princess. A partir de minha suíte naquela gigantesca pirâmide azteca, usava a praia particular e as piscinas tropicais do hotel de sol a sol, saindo apenas para ver os mergulhadores de La Quebrada e ter a visita ao Forte San Diego interrompida pelo socorro a um colega da IBM, esfaqueado no braço por dois “guias” locais em tentativa de assalto. Na Discoteca Baby-O, que sobrevive até hoje, resisti ao assédio alcoolizado de balzaca canadense em pleno embalo de turismo sexual. Assim, a melhor lembrança que tenho de Acapulco foram os três treinos de 10km corridos na grama impecável do campo de golfe do Princess.

 

     

       Hotel Acapulco Princess – panorama                            Hotel Acapulco Princess, 1987                                      Forte San Diego, 1987

  

                                                                                                               

                                                                                                                      Campo de golfe do Acapulco Princess, piso dos sonhos de um corredor 

 

Acabo de saber que existe um esforço do governo mexicano e da prefeitura de Acapulco para recolocar o balneário no mapa turístico internacional. Começando com shows do pianista grego Yanni, falam em condomínios, shoppings e hotéis a 2km do aeroporto. Só pode ser coisa de mariachi encharcado com tequila. A concorrência hoje é brutal, variada e de muita qualidade. Cancún é a melhor referência no México; mas, aqui no Brasil, temos agora uma enxurrada de resorts Nordeste acima que ganha disparado em conforto, preço, distância e serviço. São essas opções que enchem as páginas dos cadernos de turismo dos jornais brasileiros.

 

Em 1997, na cidade do México para dar um curso de consultoria ao pessoal da IBM, passei a eles um exercício em que pedia uma proposta comercial e técnica para as férias de um executivo solteiro em seu país. No dia seguinte, assisti a 4 apresentações maravilhosas, em forma e conteúdo, com sugestões de lazer de alta qualidade. As recomendações ficavam em torno da própria capital, um gigantesco sítio arqueológico, Mérida e Cancún. Nenhuma referência a Acapulco, coitada.  Em 1999, obediente, lá estava eu em Cancún e, dali, a um pulinho do império maia de Chichén Itza. Mas isso é história já contada em artigo anterior. Para Acapulco, sobraram os estudantes mochileiros originários dos EUA e do Canadá, nas férias da primavera, que buscam turismo barato a 400km da cidade do México. Mas, com certeza, nenhum deles jamais ouviu falar de Errol Flynn, Johnny Weissmuller ou Ursula Andress.

 

Carioca exilado do Rio de Janeiro desde 1979, pergunto: não teria acontecido algo semelhante com a Cidade Maravilhosa ?

  

                                                                                                                      

                                                                                                Convenção de Vendas IBM em Acapulco, 1987 – Logotipo oficial

  

 

 

 

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15 respostas para ACAPULCO …

  1. Lilly disse:

    Muito bom! Como sempre, o cuidado do bom contador de estórias em pesquisar, analisar e comentar com graça, nos faz suspirar
    quando o texto termina… 
    Caríssimo professor, a cidade maravilhosa (infelizmente) não perdeu espaço para um outro balneário… ela é vítima
    dos desgovernos estaduais e municipais… a esperança verde amarelou… 
    Adorei rever Acapulco através do seu texto e fotos!
    obrigada e abreijos,
    Lilly

  2. Adinho disse:

    Legal teu Blog !
    D+

  3. Carol disse:

    Oi Professor!
     
    Maravilhoso.Olha, eu sou meio antiquada… rsrsssss pq acho q ainda iria para Acapulco kkkkkkkk. Falando sério… adorei este texto e ainda mais aquele outro que rememora, em resumo, tua vida.Impossivel não fazer a pergunta depois de tudo que voce viu e viveu: o que falta ainda?Com certeza muita coisa, até os 120 anos… rssssssss. Qual lugar ? O que fazer?
    Adorei🙂
    Carol
    Beijos!

  4. Saketa disse:

    Professor, o artigo ficou interessante, mas a impressão que tive é que o artigo acabou no meio, já que estava criando todo o contexto e de repente “fim”.

  5. Paulo Érika disse:

    O pior, meu caro Professor, é que talvez o exemplo desta ex-bela cidade não sirva para nossos executivos do turismo nacional. Vide Florianópolis, litoral norte paulista e, infelizmente, sul da Bahia…  É realmente uma pena que o cenário paradisíaco daquele filme antológico do Elvis tenha se acabado. Belo texto, ótimas fotos. Grande abraço.

  6. Laís disse:

    Professor,
     
    Ao ver a foto "Concreto e o mar de Acapulco", sem motivo aparente, veio em minha cabeça a lembrança do Rio de Janeiro… e de repente, no final do artigo, me deparo com a sua pergunta… Sensacional!! 
     
    Abraços
     

  7. Patrícia disse:

    Sr. Encanatador de Palavras,
    Deu uma vontade tremenda de conhecer Acapulco depois de seu (como sempre) delicioso texto. É um desbunde mesmo… Vu consultar meu agente😉 Prefiro balneários menos concorridos mesmo. Não gosto muito de lotação esgotada.
    Olha, quanto ao Rio, não acho que tenha sido esquecido ou esteja menos badalado, pelo menos não é o q vejo por aqui🙂 Sou fervorosa e apaixonada defensora dessa terrinha, como bem sabes.
    Minha eterna admiração,
    S.

  8. Nelson Konno disse:

    Professor, que belo espaço esse seu blog.Também fui a Acapulco e concordo com tudo que você escreveu. Grande abraço, Nelson.
     

  9. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos mestres
    Mas que desgraceira de lugar é esse com praião e marzão, cheio de coisa linda e de gente da maió importança virá um mafuá cheio de mofo, lixo, muié dama e abestado cheiradô? Tamu sabendo que o IBAMA anda dizendo e escrevendo de carrerinha que daqui a uns ano a caatinga vai virá deserto, muitio pior que o descabelamento da Amazona. Aqui ó, nóis num vái deixá. Aliás, vai se assucedê o contrário. O sertão vai virá mar. E pra módi aproveitá o praião que isso aqui vai tê quando chegá a chuvarada do delúbio, tar e quar Noé, já tamu fazendo um jangadão lá no alto do Morro da Quebrada. Esse morro sinômio do La Quebrada de Aucapulquios. E enquanto o delúbio num chega, reforcemo a segurança do acoito contra essa fulerage dos porcalhão da natureza. O esconderijo da caatinga tá cercado por 12 regimento de jararaca cuspideira, 18 bataião de escorpião rabo de escopeta e 32 companhia de guaiamum blindado pega segura e num larga mais. No causo de algum safado consegui passá por essa muraia de veneno, nóis vai fazê ele mergulhá lá do arto da Montanha da Quebrada (qui nu num tem água pra afundá). Diga lá, mestre… Tu num acha que a gente podemos ensiná Escologia com preservativo verde da natureza, mas também do azul, do vremeio, do amarelo e inté do rosa baitola pra essas ONG que mama grana nas teta do Lula e só emporcalha o meio dos ambiente ?
    Sua bença professô.
    Capitão Raimundo Nonato  

  10. Claudio Moura disse:

     
    Olá Astromar.Vi algumas postagens do seu Blog. Muito bom mesmo. Só cheguei até a sua foto "Leblon 2008" (pura curiosidade para ver se você está "matusa" como quer parecer). Você está o mesmo garotão de sempre. Parabéns.Uns poucos cabelos brancos e uma incipiente calva só estão ajudando a dar veracidade às palavras do escritor. Unsuspected skills"!As fotos e comentários sobre Copacabana do século passado sempre trazam grandes recordações para minha geração.Valeu amigo. Um grande abraço,Claudio

  11. Catita Saúva disse:

     
    Mestre dos mestres (como diz nosso chefe do bando). Num pode fartar os comentários de sabedoria senfim da nossa chefia, Capitão Nonato. Óia que si ele disse que o sertão vai virá mar – vira mermo. Mermo que nóis fique veinho pra vê isso acontecer, assim será. Nosso capitão tem é muito pra ensiná pra essa gente que finge que sabe tudo e é só enganação. Tamo até pensando em lançar a candidatura dele pra mudar essa situação ou então, mais mió ainda, noises botamô a nossa muraia de veneno em ação nacional…
    Com todo respeito, professô, sua fã
    Catita Saúva

  12. Leninha disse:

    Professor,
    Desculpa pela demora, mas sempre é tempo de ler e saborear seu blog. Não conheço Acapulco mas, com seu relato,tive uma excelente idéia como deve ser interessante, bonito e super descontraído.Adorei as fotos. E quanto ao meu querido Rio de Janeiro, não acho que ele está esquecido, e sim, um pouquinho maltratado pelos nossos governantes. Valeu e thanks!!!!!!
    Abs
    Leninha

  13. Monica disse:

    Professor
     
    Mais uma vez uma lindíssima narrativa e viagem ao tempo… lembrei-me – com muitas saudades – do poster da Convenção de Vendas de 87 e encantava-me com as histórias e fotos da época, quando o pessoal retornava… era trabalho duro durante o ano e depois a alegria de poder desfrutar tão disputada viagem. Era um prêmio e tanto!
    Triste pensar aonde foi parar o glamour dessa região.
     
    A cidade do Rio de Janeiro é mundialmente famosa por conta das suas belas paisagens, mas concordo com o comentário acima, a cidade sofre – infelizmente – com o descaso das autoridades… A cida possui ritmo, sabor e vida… o equilíbrio entre essas características, faz do Rio uma cidade única no Brasil. Foi berço do samba, bossa nova, chorinho e lá ouve-se música de sol a sol, seja num quiosque na Lagoa ou em redutos do samba em S.Cristovão… Mas o Rio continua lindo de qualquer jeito! E olha que sou paulista.
     
    Abraço grande.
     

  14. Ana Cristina Bento Ribeiro disse:

    Adorei!Que bom q vc achou Acapulco…Estive lá em março/1981, com duas grandes amigas da IBM, depois de fazer uma viagem coast to coast nos States, (foi nossa 1a. vez lá) programamos p o final além de 3 dias na cidade do México, uma semana em Acapulco para descansar e nos bronzear para não voltarmos para a IBM brancas e desbotadas dps das férias!Ficamos num desse hoteis enormes com praia particular onde ficávamos bebendo uns drinks servidos pelo garçon que se encantou comigo e me dava copinhos de souvenir de presente!!Minhas amigas ficavam mto despeitadas!!!Estranhamos a piscina do hotel sempre lotada e aquele marzão sem ninguém resolvemos então nos molhar quando fomos abordadas por um daqueles salva vidas nativos nos alertando q não devíamos mergulhar pq era mto perigoso a não ser se quizessemos nos suicidar!!Observamos tb q só havia muitos idosos americanos, e um casal desses nos peguntou “What three young ladies are doing here?? Afinal era tão caro!!! E nos respondemos “We work for IBM…” Como quem diz nos temos dinheiro p pagar…hehehe!Na verdade essa viagem ficou barata pq dividiamos os hoteis por tres!!Hj nem falo q fui a Acapulco pq soa tão over né??So contei p vc professor!!
    Abçs

  15. Ana, você me fez ler esse artigo quase 3 anos depois de tê-lo escrito. E, sabe de uma coisa? Gostei do que li e acho que confirmo cada palavra que o compõe. É assim que deve ser um texto, imortal. Aprendi isso num curso do IBM Consulting Group em 1993 e nunca me esqueci, nem deixei de aplicar. Foi uma amiga do CER-Gávea quem me pediu o texto. Ela havia trabalhado na convenção de 1987. Anyway, foi uma experiencia interessantíssima ver um relato de alguém que também foi lá. Nunca havia encontrado uma co-turista… Você disse muito bem, que a gente deve fazer segredo que foi a Acapulco. Mas que é uma ótima Viagem na História, lá isso é.
    Obrigado pela visita comentada.
    Bjk.
    Professor Astromar

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