ANO NOVO


SETE MARAVILHAS DO ANO NOVO (PARTE 1)

  

 

Tenho pororoca de sentimentos em relação à passagem do Ano Novo. E o resultado traz sabor amargo. Passada a suavidade (mesmo comercial) do Natal e adiantada a contagem implacável de meu mais novo e mais velho aniversário, chego a 31 de dezembro inseguro, enxergando um panorama invisível. Sempre foi assim, desde a adolescência. Alguém querido vai partir? Que capricho poderei alcançar? E como ficará a saúde? Quantas viradas de ano novo restam para mim? O que pedir a quem pode e acredito? Coquetel de angústia e ansiedade. Mas, dentre as incontáveis passagens de ano que enfrentei até agora, tenho sete maravilhas bem guardadas. Nenhuma delas foi evento tradicional padrão  TV Globo, replay do ano anterior; também não tem foto de socialites bêbadas e dadivosas, travestidas com photoshop e botox, que jornais e revistas não se cansam de publicar. Pois então, para neutralizar essa impressão deprê dessas primeiras linhas, me antecipo a informar que vi Times Square e Champs Elysées explodirem, fui testemunha do Ano Novo Chinês iluminando San Francisco, vivi um garoto de 22 anos no réveillon a bordo de um transatlântico italiano, conheci Copacabana ainda princesinha do mar limpíssima em manhãs de 1º. de janeiro, enfrentei o Bug do Milênio na virada para o ano 2000 e escancarei 15 sorrisos ao atravessar a linha de chegada da São Silvestre em 15 participações.

 

1.Times Square, Nova York

Times Square é o triângulo formado pelo cruzamento da 5ª. com a 7ª.avenida, entre as ruas 42 e 47. Um dos prédios lá fincado desde 1904 era a sede do New York Times, que mudou de endereço depois, mas deixou seu nome no lugar. Desde 1907 uma bola luminosa desce do alto do prédio para celebrar a chegada do Ano Novo, diante de centenas de milhares de pessoas em contagem regressiva sonora. Os anúncios luminosos e animados da Times Square são um dos principais cartões postais de Nova York, equivalem à densidade luminosa de Las Vegas e permanecem lá por obrigação contratual com a prefeitura. Durante o ano, é concentração de caçadores e garimpeiros de ingressos para shows da Broadway.  O cancelamento de um vôo da Pan Am, no final de 1977, me presenteou com uma virada de ano em Times Square. Meio alheio àquilo tudo e já peregrino da História, entrei no túnel do tempo para ver, em dois dias da primavera/verão de 1945,  naquele naquele exato lugar, multidões ensandecidas  com o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas tudo em preto e branco, naturalmente.

   

                                                        

           Times Square no Ano Novo                                16/08/1945 – Times Square celebrando o fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico

 

2.Avenida dos Champs Elysées, Paris

Da Place de l’ Étoile, com o Arco do Triunfo, à Place de La Concorde, onde a guilhotina funcionava sem parar durante a Revolução Francesa, encontram-se os 1.900 metros mais sofisticados e caros da Europa.

Sua história segue o roteiro da montagem de um quebra cabeças secular. Em 1616, Maria de Médici, abriu nos jardins do Louvre uma alameda arborizada. Em 1724, foi estendida até a Place de L’Étoile, ladeada por parques e bosques onde árvores e vegetação eram dispostas em fileiras e dividiam espaço com suntuosas mansões. Maria Antonieta, antes de, em todos os sentidos, perder a cabeça, teve aulas de música no Hôtel Crillon. Napoleão foi responsável pelos monumentos nas extremidades da Avenida: Arco do Triunfo e Obelisco Egípcio. Durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1940, a França ocupada via uma parada militar nazista diária descer os Champs Elysées;  e a França libertada viu as tropas francesas do Marechal Leclerc e a Infantaria Americana fazerem a mesma coisa, em agosto de 1944. Grandes griffes mundiais foram ocupando a avenida que, desde 1975, é o ponto final da última prova do Tour de France. Sua esplendorosa iluminação de Natal premiou- a com o encerramento público das festas de fim de ano. O réveillon de Paris é a Champs Elysées obscenamente acesa, ocupada por milhões. Foi assim quando a França venceu o Brasil e levou a Copa do Mundo de 1998. Foi quase assim quando a França venceu a Croácia na semifinal, provocando um rodamoinho tresloucado de luzes e de bleu-blanc-rouge, que me sufocava enquanto eu tentava chegar ao aeroporto após uma semana difícil de trabalho técnico e comercial, em plena Copa do Mundo. O Brasil perdeu a Copa e a IBM perdeu a concorrência. Daquela época prefiro ficar com a lembrança da Torre Eiffel e sua contagem regressiva para o ano 2000.

 

       

                     Champs Elysée, 1890                                                          Agosto de 1944 – Desfile militar na Champs Elysée de uma Paris libertada

  

                                       

                                         Ano Novo na Champs Elysées                                             Champs Elysées depois da final da Copa do Mundo de 1998

   

                                                                                                            Contagem regressiva para o ano 2000

 

3.Ano Novo Chinês, San Francisco

Primeiro eu vi, só depois entendi. Há poucos meses cursando a Universidade de Stanford, fui a San Francisco em um sábado para almoçar no Fisherman’s Wharf. Ao final da tarde, loucura oriental para turista desinformado: fogos de artifício, buscapés, metralha de bombinhas, constelações de lanternas vermelhas e um dragão psicodélico rodopiando como uma porta-bandeiras da Portela.  Era a festa do Ano Novo Chinês, celebrado mundialmente, durante duas semanas, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, conforme o ciclo lunar  e sempre associado a um animal. Por exemplo, 2009 é o ano do Touro e começa em 26 de janeiro como ano 4707. O novo milênio trouxe 2000 como o ano do Dragão. O World Trade Center veio abaixo em 2001, significativamente o ano da Cobra.  E Lula começou seu segundo mandato, em 2007, seguido do mensalão, dos aloprados do desbaratamento da quadrilha do Zé Dirceu e do fantasma ambulante da Dona Marisa, em pleno ano do Porco. O Ano Novo é a mais importante celebração chinesa. Diz a lenda que Nian, um dragão mitológico, atacava as pequenas cidades, devorando rebanhos, colheita e até pessoas. Certo dia, na correria para escapar do monstro, uma criança perdida, vestida de vermelho, fez a fera estancar e fugir. Voilà ! Nian entrava em pânico diante do vermelho. E assim nasceu a tradição do festival de lanternas vermelhas no Ano Novo Chinês. Igual em todo o mundo, em qualquer comunidade chinesa, seja nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália ou até mesmo no Brasil. No nosso caso, mantidas as devidas proporções e uma pitada de esculhambação natural local, o terror de Nian se agiganta diante das bandeiras vermelhas do PT.

 

      

                 Chinatown, San Francisco                                     Festival de lanternas vermelhas                                                Dragão Nian

  

4.Corrida de São Silvestre, São Paulo

A corrida de São Silvestre marca o último dia do ano em São Paulo, desde 1924. Tenho 15 delas no peito. Decidi correr a prova ao ver a vitória de Carlos Lopes em 1982. Excepcional corredor português, campeão olímpico de Maratona. Tudo a ver com o meu tradicional azedume de Ano Novo e minha paixão pelas corridas de rua. No ano seguinte, atravessei a linha de chegada, na Avenida Paulista, pela primeira vez, carregando um implacável cálculo renal, minutos antes do foguetório da meia noite. Era uma corrida noturna, de 12.600 metros, depois transformada pela TV Globo em 15 km de banho turco às 17 hs de um dia especial de verão paulista. Entre a primeira e a última São Silvestre, em 2003, vi de tudo. Larguei no pelotão de elite, larguei em último, fui ultrapassado por índios, por um cangaceiro puxando um jegue e por uma noiva. Até mesmo tomei respingos de xixi anônimo minutos antes da largada, advindos de um ou mais participantes acometidos de agoniamento da uretra. Devo confessar que retribuí o refluxo em algumas ocasiões. Mas estou aposentado da prova. Troquei a subida da Brigadeiro Luiz Antonio pelo meu sofá. Nele, corro junto dos primeiros colocados diante de uma TV muda, como a voz de cada quilômetro percorrido. O trajeto é feio e sujo. As subidas gargalham com requintes de crueldade. Os melhores corredores do mundo sumiram daqui há tempos. Mas a prova não pára de crescer, pois seu sucesso vem da participação de milhares de zé-manés. Alguns fantasiados, outros, heróis de si mesmos.  A largada é de arrepiar, com os helicópteros sobrevoando o MASP, aguardando a buzina de partida. Momento de reflexão, de pedidos. E a chegada, naqueles 350 metros de arquibancadas lotadas na Avenida Paulista adentro, torna obrigatório o sorriso escancarado de uma celebração individual gloriosa.

 

     

                       Vitória e glória                                                 Largada dos zé-manés                                                           Celebração dos zé-manés

  

                                                                                       

                                                                              31/12/1983 e 31/12/1984 – Astromar em suas duas primeiras São Silvestres

  

  

                                                                                (CONTINUA A SEGUIR, LOGO ABAIXO, NA PARTE 2)

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