STANFORD UNIVERSITY – A jornada de uma antiga fazenda


 

STANFORD UNIVERSITY
A jornada de uma antiga fazenda

Nas primeiras horas daquela manhã de primavera, as atividades da fazenda já estavam em ritmo de produção.  Os cavalos de competição circulavam pelas pistas de trote, atiçados por seus treinadores. Trabalhadores agrícolas pingavam  suor cuidando das plantações. Hortas e pomares coloriam as colinas da Califórnia, ajudados pela aquarela de flores que, sob a brisa rodopiante da Baía de San Francisco perfumavam, em cumplicidade com altíssimos pinheiros, a propriedade de Leland Stanford. Tudo isso sob a coreografia voluptuosa de milhares de palmeiras.

Coches de Stanford em movimento

Fazenda de Stanford preservada

Cavalos de Stanford em movimento

Cento e vinte anos depois, a mesma geografia, a mesma latitude e longitude, ferviam com o silêncio ou com o alarido de cerca de dezenove mil estudantes de todo o mundo. A antiga fazenda desaparecera para dar lugar a um magnífico e gigantesco campus universitário. Stanford University é um centro de excelência em educação e formação de pessoas, destino de sonhos de futuros empresários, cientistas, líderes políticos, salvadores de vidas, campeões olímpicos.

Stanford University

Nas primeiras horas daquela manhã de abril de 1868, o aroma do “breakfast” servido no salão da fazenda despertava o Senador Leland Stanford e sua esposa, Jane, para a realidade de seu devaneio de felicidade. Após 23 anos de casamento, estavam a apenas algumas semanas do nascimento de seu primeiro filho.

Jane Stanford

Leland Stanford

 

Senador Stanford era um multimilionário. Governador da Califórnia, político respeitável, engenheiro e empresário de estradas de ferro, liderou a construção da Union Pacific, ferrovia transcontinental pioneira que interligou o Leste com o Oeste americanos. O encontro dos trilhos das duas frentes de trabalho, uma no sentido leste-oeste e outra, no sentido inverso, mudou a história dos Estados Unidos, integrando, para sempre o país. Leland Stanford martelou o último rebite no último dormente. Cravou o “Golden Spike”.

Encontro de trilhos

"Golden Spike"

Cerimonial transcontinental

  

Leland Stanford Junior nasceu em berço esplêndido, em 14 de maio de 1868. Sempre teve de tudo; os melhores professores particulares, todo tipo de brinquedo, as melhores roupas e até uma coleção de objetos de arte. Conforme a estação do ano, passava seus dias em uma das magníficas residências da família, em Washington, Boston, Denver, San Francisco ou até mesmo na Europa, por onde viajava todo  verão. Mas, o lado duro do Destino atingiu a família em uma dessas viagens. Em visita às pirâmides do Egito, o menino adoeceu. Vítima de febre tifóide, Leland Stanford Junior morreu a poucos dias de completar dezesseis anos. Devastados pela dor, seus pais nunca mais se recuperaram da tragédia. E decidiram que “as crianças da Califórnia seriam agora as suas crianças”.  Então , sete anos após a morte do filho, Leland e Jane Stanford inauguraram, em 8 de outubro de 1891, Leland Stanford Junior University. Stanford University.

Transição de fazenda para universidade

A família Stanford

Leland Stanford Junior

 

As instalações da fazenda deram lugar a edifícios de arquitetura colonial espanhola, emoldurados por arcadas em arenito e com vias de acesso margeadas por palmeiras, praças e jardins. O contraste dos edifícios contra o céu azul da Califórnia é absolutamente espetacular.  

Os estudantes, “as crianças de Leland e Jane Stanford”, vieram. Não apenas da Califórnia, mas de cada estado americano e, nos últimos 60 anos, de todos os continentes. Essas crianças, jovens adultos, estiveram na reconstrução da Universidade, quase destruída pelo terremoto que arrasou San Francisco em 1906,

A Capela de Stanford e o terremoto

A Capela de Stanford retornada

A biblioteca e o terremoto

  

Biblioteca retornada

estiveram em todos os jogos olímpicos de verão (obtendo 17 medalhas de ouro), criaram o Silicon Valley, presidiram o país (com Herbert Hoover e John F. Kennedy), foram vencedoras de 16 prêmios Nobel, construíram um estádio universitário para 100.000 espectadores (que recebeu jogos de futebol da Olimpíada de 1984 e o Super Bowl XIX em 20 de janeiro de 1985 – vitória do San Francisco 49ers de Joe Montana sobre o Miami Dolphins de Dan Marino, 38-16). As crianças de Stanford passaram pela School of Engineering, pela Graduate School of Business e foram criar empregos mundo afora em seus novos negócios como HP, Cisco, Yahoo!, Google, Nike, Gap, Sun.  As crianças de Stanford fizeram acontecer o Medical Center, composto pela School of Medicine, pelo Hospital & Clinics e, como não poderia deixar de ser, pelo Children’s Hospital. A medicina de Stanford se destaca em áreas como cardiologia, oncologia, neurologia, cirurgia, transplantes e… neonatologia.

Stanford Medical Center

As crianças de Stanford que foram envelhecendo formaram a Stanford Alumni Association, que ajuda a manter a ligação de todas elas com seu berço educacional e que, também, angaria fundos para manter a Universidade. As crianças de Stanford fizeram diferença na vida de muita gente, tiveram sua trajetória profissional profundamente alterada pelo que outras crianças de Stanford lhes proporcionaram. As crianças de Stanford sentem saudade de Stanford pelo resto de suas vidas. Saudade é um elogio ao passado. Saudade é a esperança do futuro. Eu sei. Eu sou uma criança de Stanford.

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20 respostas para STANFORD UNIVERSITY – A jornada de uma antiga fazenda

  1. anacarolina disse:

    quero ver a continuaçao, sobre a criança Astromar Stanford rsrss

  2. Hercules disse:

    Meu caro professor, obrigado pelo retorno e obrigado por nos brindar com mais uma história espetacular e emocionante que só você poderia narrar.
    Forte abraço…

  3. Luz de Pedra disse:

    As páginas estão espetaculares! Você se ultrapassou.

  4. Capitão Raimundo Nonato, Chefe de Bando disse:

    Mestre dos Mestres
    Nessas vespas de Ano Novo, seus ditames de cordel fizeram o foguetório festejento dispará mais cedo. A turma aqui no acoito do Buraco de Belzebu quase acabou c’ a munição dos fuzível disparando pra riba, pras dereita e pras esquerdia. Até a volante dos macaco que tarra de tocaia foi um sebo nas canela qui só. Os abestado tarra achando que era nóis no ataque de peixeira, baioneta e tudo. Mas meu professô, tinha um aqui outro aculá que ficô meio sem jeito pois deixaram escapá umas lagriminha. Permero pruquê tu voltô, Astromar, arrente tarra miudim miudim sem os teus causo de aprendizado das istória e inda pru cima com esse pisódio do minino da fazenda que morreu pra nacê esse lugá de estudo importante e nome difícil. E tumém porque tu é criança de lá. Num é à toa que tu é bão mesmo, cabra danado! Mas agora nóis qué sabê que foi que tu fez lá na Califórnia quando tu virô criança dos americano. Num era lá que era o faroeste? Tinha bando que nem nóis pra metê bala nos xerife e ajudá as loura peituda a arrumá moço decente?
    A bença, meu professô.
    Seu criado,
    Capitão Raimundo Nonato, chefe de bando

  5. Sou demais ASS:gi disse:

    Eu acho que voce sempre teve jeito pra isso.
    Adorei a parte que você disse que,você foi um aluno de Stanfor.
    Você tenque ter uma memória muito grande para lembrar de tanta coisa.
    ASS:sua fã numero 1

  6. Sou demais ASS:gi disse:

    Você usa palavras muito difíceis, que eu ainda não aprendi.
    Mas eu sei que é para dar um charme.
    Eu queria conhecer estas palavras,mais tudo bem eu aposto que devem ser micro-detalis. ASS:sua fã número 1

  7. Noblesse Oblige disse:

    Espetacular! uma beleza de apresentação!

  8. Tatiana disse:

    Eu sabia que 2011 traria muita coisa boa, a começar pelo Professor!!!! Welcome back…

  9. Voyeur de Wayzata disse:

    Prezado Profe,
    Bem-vindo retorno. Muito interessante narrativa, para variar. Suponho que Gigi e Juju já estão esquentando as turbinas para seguir a tradição.
    Um saudável 2011.

    • Caro Voyeur
      Gigi e Juju já estão estudando Inglês e estiveram recentemente em Orlando, Fla. Nesse momento, o grande atrativo para irem estudar em Stanford é a proximidade com a Disneyland.
      1 abraço.
      Professor Astromar.
      P.S. Tati já acenou ao novo blog, lá das Rockies.

  10. Mario Andraus disse:

    Grande Professor!
    Voltando em grande estilo. Esperamos a continuação.
    Parabéns e um abraço.

  11. Claudia Baggi Gonzalez disse:

    Caro amico,
    Nonostante aver già sentito di persona questa bella storia, alla fine mi sono commossa.
    Le ultime frasi tu le hai scritte col cuore.
    Che bello parlare di un passato che ti è sempre vicino, indimenticabile !!!
    Tu adesso stai aprendo una finestra piano, piano, dove noi in ansia aspetiamo per mezzo delle tue parole leggere una pagina ( la tua storia) del grande libro chiamato STANFORD.
    Per quello che hai scritto fino adesso ho solo una parola: complimenti!!!!!

    • Cara e speciale insegnante
      Grazie tante per il tuo comentario in questo umile spazio. Sono molto contento perché tu m’hai scritto delle cose belissime e anche con la tua percezione que le mie parole sono uscite del cuore. Veramente Stanford ha cambiato la vita mia; magari io sarei un altra persona invece di quello que tu conosci dopo 186 lezioni d’italiano. Ci vediamo a Martedi. Buon fine di settimana.
      Studente Astromare.

  12. paulo disse:

    Caro Professor, dizem q se desenvolve um país, dentre outros fatores, através da escola de qualidade, mas acredito muito mais que um bom lugar pra se viver se faz com pessoas gratas pelas oportunidades que a vida lhes dá e pela retribuição que estas pessoas oferecem à sociedade que vivem. Belo exemplo dado pelas crianças de Stanford, que sabemos se repete em outras universidades americanas, ajudando-as com dinheiro, tecnologia e, principalmente, com a propaganda que estes homens bem sucedidos fazem delas.
    Aqui a escola é mal tratada, aviltada e seus profissionais desvalorizados. Pobre país que não enxerga na educação a entrada para o real mundo melhor.
    Viva o futebol, o BBB, as musas do carnaval carioca e os nossos Ronaldos, ótimos exemplos para nossos jovens…

    • Paulo
      Obrigado pelo retorno de valor agregado. Concordo 100% com você que a Educação no Brasil, no seu sentido mais amplo, acabou. Dentro das instituições acadêmicas, você disse tudo. Vou além, depois desse apedeuta que fez a apologia dos sem estudo e rachou o país com a elação de si mesmo, o que vejo é uma sociedade (principalmente nos níveis mais altos) cada vez mais sem ética, sem apegos a não ser a si mesmo, sem cultura, sem educação, sem ética, sem civilidade. Entram de carro na contra mão, em restaurantes só falam aos berros, estacionam em lugares proibidos, furam fila, dão propina, etc etc etc. Minha célula desse tipo de “estudo” concentra-se no colégio de meus filhos. Há 9 anos, era um símbolo de civilidade; foi mudando, mudando e a conclusão é uma só: a raiz está no comportamento dos pais. Pais mal educados, egoístas produzem filhos idem, por mais que a escola se esforce em sua formação. Por isso tudo e muito mais, acho o Brasil um país inviável, laderia abaixo, e me preocupo em que Brasil meus filhos menores irão contruir sua vida.
      Abraços
      Professor Astromar

      • Paulo disse:

        Caro Professor, hoje o aluno é “cliente”. É o cara a ser tratado com reverência, pois é ele quem sustenta a escola. Na minha escola isso não acontece. Tudo bem que a realidade de onde eu moro é bem diferente das grandes cidades e, Graças a Deus, ainda tem muita gente que abomina escola com essa conduta.
        Infelizmente vivemos numa sociedade imediatista, do consumo rápido, da “não” frustração. Hoje não se admite a frustração, a tristeza. Toda felicidade está vinculada a sua capacidade de consumo e a um bom psiquiatra pra prescrever certralina, rivotril, lexotan, sibutramina…
        abs

  13. Stanford brother disse:

    Amigo Astro, ótimo ter você de volta. Eu queria escrever sobre a belíssima apresentação que vc fez mostrando nossa “alma mater” mas, à medida que fui lendo os comentários, o foco mudou e agora só consigo pensar no país que somos. Ainda há quem diga que somos uma jovem democracia e houve um tempo em que eu acreditei nisso. O tempo passou, os escândalos e as tragédias se sucederam, os mortos e feridos se acumularam, os políticos hipotecaram sua solidariedade, pegaram seus passaportes diplomáticos e foram torrar na Europa o aumento de salário que eles concederam a si próprios. Tem gente que diz que esse o preço da democracia… que democracia é esta? Já não somos nem jovem nem democracia. Recebi de um colega nosso um e-mail com uma citação que explica muito bem a enganação de que somos vítimas: “A lot of countries have found that it’s easier to hold an election than it is to build an effective government that can provide people with the services they need in a way that’s fair and honest.” É mais fácil ter eleições de vez em quando do que criar instituições que, em vez de proteger governantes incompetentes e corruptos, garantam o progresso e o bem estar do povo. É mais fácil fingir que somos uma democracia do que ser de fato. É duro passar por Stanford e ver como nosso País poderia ser, e depois ter que se conformar com o país que somos e com nossa impotência para mudá-lo. Talvez as gerações futuras consigam mas, como diz um amigo comum, “não será na nossa gestão”. Abraço do seu Stanford brother.

    • Caro Stanford bro
      Obrigado pelas boas voltas. Diante da queda livre das instituições e civilidade de nosso país, adotei o conselho da Tia Marta, “Relaxa e goza”. É uma ótima não ler jornais e ser seletivo nas informações destrincháveis. Então, por aí, abre-se um autoestrada para o conhecimento, que é a navegação pela História e suas lições. Priceless. Ainda mais quando navego pela própria vida. Como no casos de Stanford. Aguarde o segundo capítulo.
      Abcs
      Professor Astromar

  14. Monica disse:

    O primeiro texto do professor Astromar foi simplesmente fantástico! Uma viagem no tempo além de agregar conhecimento. Não fazia a menor idéia da história e origens dessa instituição de ensino tão conceituada no mundo. ADOREI! Depois ainda fui pesquisar mais… fotos antigas e histórias… “é comigo mesmo” !!
    Beijocas,

  15. Marcita disse:

    Nada como ler Prof. Astromar para tomar conhecimento de fatos de que não se tinha a mínima idéia.
    Não sei se todos os americanos daquela época fariam o mesmo, só sei que, por aqui, com certeza, ninguém o faria, ou talvez eu não tenha conhecimento.
    Lendo seus relatos, me vem à mente, como se um pai estivesse contando uma história para um filho na hora de dormir. Tão bom…… E o seu estilo de escrever.
    Continue, e não pare. Dê prazer para “sis” e para aqueles que TE ADORAM LER.
    Só não estou muito familiarizada com o Capitão Nonato. Deve ser por isso que
    A SOU DEMAIS disse que são palavras difíceis, entretanto MICRO-DETAILS.
    Esta menina vai longe. Deve ter puxado, quem?????
    Beijo Grande de estou encantada

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