MEDUSA, PERSEU E BENVENUTO CELLINI


MEDUSA, PERSEU E BENVENUTO CELLINI

Pedras infelizes na mitologia grega e bronze renascentista em Florença

 

Curvado sobre sua própria sombra, o guerreiro grego Perseu avançava pelos portais da caverna, desviando-se dos esgares petrificados de infelizes heróis. Mortos em pedra, vítimas de sua própria ingenuidade cega de tentar decapitar Medusa em combate frontal. Fulminados por um único olhar daquele rosto emoldurado por serpentes, eram agora avisos do implacável destino de alvoroçados caçadores de glória. 

 

Medusa teria sido originalmente uma belíssima mulher, sacerdotisa do templo da deusa Atena, aspiração ciumenta de incontáveis pretendentes. Atraiu a maldição da deusa ao ceder às investidas de Poseidon, deus dos mares, bem sucedidas dentro do próprio templo onde servia e orava. Enfurecida, Atena transformou a cabeleira de Medusa em serpentes venenosas e deixou seu rosto tão transfigurado e medonho que a simples visão dele transformaria em pedra todos que o encarassem.

 

Familiar e politicamente ligado às divindades do Olimpo, Perseu entrou na caverna com diferenciais competitivos inacessíveis a seus antecessores colegas de pedra. De seu pai, Zeus, recebeu uma afiadíssima e indestrutível espada.  Atena forneceu um escudo metálico polido continuamente até se transformar em espelho. Hades, guardião do Inferno, produziu-lhe um capacete que tornava invisível quem o enfiasse na cabeça e Hermes, mensageiro dos deuses, emprestou-lhe suas ágeis sandálias aladas.

Foi assim que Perseu, invisível, movendo-se como asas nos pés, guiado pelo reflexo no escudo, sem olhar diretamente para Medusa, decapitou a bruxa com só um golpe de espada. Em sua glória, Perseu ergueu com a mão esquerda a cabeça infernal. Do sangue que escorria do pescoço de Medusa, surgiu Pégasus, corcel alado, filho do pecado da então sacerdotisa com Poseidon. Ou seja, no momento de sua morte, Medusa estava grávida de um cavalo voador.  

Cavalgando Pégasus nas nuvens, Perseu atravessou desertos e montanhas, chegando ao mar a tempo de salvar sua amada Andrômeda, acorrentada às rochas marinhas em sacrifício ao monstro Ketos, uma serpente oceânica meio canina. Munido de seus diferenciais competitivos (espada, escudo, capacete e sandálias), complementados por Pégasus e pela cabeça de Medusa, Perseu não deu chance à terrível fera marítima. Em sua glória, Perseu ergueu com a mão esquerda a cabeça infernal e petrificou Ketos.

 

Dali, voou com Andrômeda para sua eternidade como celebridade. Está presente na arte da Antiguidade, nas histórias de pais para filhos, em filmes de Hollywood e, até na Astronomia. Perseu, Andrômeda e Pégasus são constelações nos céus do Universo.   

Mas, sem dúvida, uma das escalas mais virtuosas da saga de Perseu aconteceu na Itália renascentista Ali, seu personagem globalizou-se para o encantamento de milhões e milhões de visitantes, artistas, turistas, transeuntes, peregrinos da história, ocupados e desocupados. Aquele que passar pela Piazza della Signoria, ponto magnético de Florença, será naturalmente imantado pela única estátua de bronze da Loggia dei Lanzi. Na primeira fila das obras primas, Perseu se apresenta no glorioso gesto do guerreiro erguendo com a mão esquerda a cabeça decepada de Medusa. 

               

Benvenuto Cellini, nascido em Florença, em 1500, é o autor desse Perseu da Renascença. Ourives, escultor, espadachim, portador de pavio curto, encrenqueiro e baladeiro sem freios, viveu até 1571 e deixou um legado ímpar para a humanidade. Seu Perseu (Il mio Perseo  – como ele se referia ao seu mais reverenciado trabalho) é, sem dúvida, um dos maiores monumentos da Renascença. O menino Benvenuto teve infância e juventude confortáveis. Sua família possuiu propriedades rurais por três gerações; seu pai projetava, construía e tocava instrumentos musicais, influenciando Benvenuto no manuseio de metais.  Alternou anos na profissão de ourives com estrepulias juvenis, que lhe custaram exílios para Siena, Pisa e Roma. Aos dezenove anos, flautista e mestre em metais, foi trabalhar com o Papa Clemente VII, encantado com seus destacados talentos. Em Roma, desenvolveu grande habilidade no uso de armas, participando em duelos, batendo-se contra inimigos do Papa e fugindo de pais e esposos desonrados. Acusado de ter trocado pedras preciosas da tiara papal por outras sem valor, foi preso no Castelo de Sant’Angelo, até então inexpugnável fortaleza romana, construída sobre o túmulo do Imperador Adriano. A invencibilidade da fortaleza chegou ao fim, de dentro para fora, com a humilhante fuga de um Cellini pendurado em lençóis. Tão espetacular escapada valeu-lhe o perdão papal, encomendas de peças artísticas e o retorno a Florença pelo portão principal, diretamente para um estúdio na agora imortal Ponte Vecchio, reduto secular de ourives.

 

Envolvido em politicagem, beberagem e concorrências públicas para produção de mimos ducais e nobiliárquicos, tornou-se amigo e fornecedor do Duque Cosimo I de Médici, principal autoridade florentina, déspota e homem sem palavra. Uma espécie de Lula do Renascimento – nunca antes e depois na história de Florença falou-se tanto de um governante. Foi de Cosimo a idéia da estátua de Perseu em bronze. Obcecado pela produção de uma obra prima, Cellini exigiu uma casa para executar os trabalhos e uma equipe de ajudantes selecionados por ele mesmo. Foco total em Perseu. Só pensava naquilo. Distraído, diversas vezes foi emboscado nas espiraladas ruelas florentinas. Inimigos políticos, concorrentes e invejosos profissionais inconformados com sua ligação com o Duque, com seu sucesso artístico e suas noitadas baladeiras de celibatário conquistador não lhe davam sossego e vice versa. Em uma ocasião, viu seu irmão tombar travessado por espadas e punhais; noutra, foi sua vez de escapar no último instante, salvo por um amigo.

 

Perseu foi projetado em cera, para aprovação de Cosimo que, cinicamente, desqualificou Cellini em público, argumentado que bronze não era massa, o que fazia de todos ali admiradores de um devaneio inverossímil. Devastado por tamanho desafio, o artista reagiu com a força da lenda que retratava e provou sua qualificação também como genial engenheiro metalúrgico. Perseu foi fundido noite adentro, iluminado pelos clarões dos fornos da usina renascentista e pelos raios de aterrorizante tempestade florentina. Trovões e tsunami celeste compuseram a moldura correta para uma obra prima em produção. Durante três longos dias, Cellini esperou o bronze esfriar. Então, retirou os moldes de areia. Perseu e, até a Medusa, surgiram absolutamente lindos.

 O duque ficou extasiado com o que viu. No entanto, mesmo com a derrota do achismo para a genialidade do binômio Arte e Ciência, humilhou Cellini mais uma vez. Condicionou a aceitação da obra à aprovação popular. Durante dias, milhares de pessoas se apresentaram para ver Perseu e a Medusa, ainda na penumbra do estúdio. Ao partir, deixaram a casa de Cellini transbordando de bilhetes com todo tipo de elogio, de exclamações. Uma verdadeira aclamação. E foi assim que, numa gloriosa manhã de primavera azul italiana em 1554, nove anos depois de ter rabiscado os primeiros esboços do momento mitológico, Benvenuto Cellini levou seu Perseu para a Piazza della Signoria. 

 

A partir daquele momento foi deflagrada uma romaria progressiva para conhecer o Perseu de Benvenuto Cellini. Inicialmente, chegaram os curiosos da Itália, gradativamente expandidos para todo tipo de gente, de todos os cantos do mundo, séculos afora. Eu me incluo nessa fila. Ao longo de quarenta e dois anos, estive com Perseu e a Medusa três vezes. Eu mudei, e muito. Eles, não.

                              

Benvenuto Cellini deixou para as gerações um outro legado incomparável. Em 1558, começou a escrever um livro de memórias autobiográficas. Seu texto, de aproximadamente 500 páginas, mostra, em idioma renascentista, um retrato por escrito do autor. Paixões, prazeres, arte, intrigas, encrencas, aventuras, brigas, personagens, desfilam diante dos olhos do leitor, do peregrino da História.  A produção de Perseu se apresenta em riquíssimos detalhes. Técnicos, políticos, econômicos e emocionais. A relação de Cellini com Cosimo de Médici surge marcada pelo stress, pela angústia, pela dúvida, quase pelo flagelo. Cellini praticamente não recebeu pagamento por seu Perseu. Mas a História lhe fez justiça. Seus trabalhos aparecem nos principais museus do mundo, é tema de ópera, de filmes de Hollywood, de musical da Broadway, de incontáveis obras literárias (Alexandre Dumas, Victor Hugo, Agatha Christie, Salvador Dalí entre outros). Seu livro, Autobiografia de Benvenuto Cellini é best seller desde o século XVI. Seu busto em bronze é uma homenagem secular dos ourives da Ponte Vecchio ao colega mais célebre. E o estúdio onde foi projetado e produzido seu Perseu, é objeto de peregrinação. Não por muitos, pois seu endereço está escondido entre as páginas da autobiografia do artista, Via del Rosaio, entrata da Via della Pergola no. 6527, Firenze.

     

Todos os dias, ao entrar em meu escritório, reparo na estante ao lado de meu computador, onde guardo minha coleção de objetos históricos. Tenho ali uma reprodução do Perseu de Cellini, adquirida em Florença, em 2006. Invariavelmente, sou tomado por um coquetel de emoções. Admiração, saudade, orgulho. Na mesma estante está um exemplar da Autobiografia de Benvenuto Cellini, em inglês. Edição de 1940, datada com a caligrafia de meu pai, naquele mesmo ano. Antes de minha primeira viagem à Itália, a Florença, ele me apresentou àquele livro. Narrou o que procuro reproduzir nesse artigo, e mostrou uma passagem de poucas linhas. Ali, Benvenuto Cellini conta que, uma noite, ao voltar para casa pelas ruelas de Florença, foi cercado e atacado por espadachins desconhecidos. Achou que ia morrer. Mas, do meio do nada, surgiu o socorro de seu amigo Berlinghier Berlinghieri, armado de punhal e espada. Juntos, puseram os assaltantes a correr. Ou seja, se um antepassado deste professor Astromar não tivesse salvo Cellini da sanha assassina, não haveria nem Perseu nem Medusa na Piazza della Signoria.

   

 

 

 

Caderno de Anotações

 1. Os épicos de Hollywood “Fúria de Titãs – Clash of the Titans”, homônimos de 1981 e de 2010, retratam a saga de Perseu.  

http://www.youtube.com/watch?v=rKgGGYyelx0

http://www.youtube.com/watch?v=otBlnETm32o

2. O filme “Room with a View”, de 1986, premiado com quatro Oscars da Academia, traz uma sequencia de assassinato na Piazza della Signoria, durante um dia de verão no século XIX. Dos 21min5 seg aos 25min11seg do filme, Perseu de Benvenuto Cellini aparece como pano de fundo em trechos que, somados, totalizam 38 mágicos segundos.

http://www.imdb.com/title/tt0091867/ 

3. ”Benvenutto Cellini” é o título de uma ópera de Hector Berlioz (1803-1869)

4. ”The Firebrand of Florence” é o título de um musical da Broadway de Ira Gershwin (1893-1986) cujo personagem central é Benvenuto Cellini.

http://en.wikipedia.org/wiki/The_Firebrand_of_Florence 

5. O filme “How to Steal a Million”, com Audrey Hepburn e Peter O’Toole gira em torno do roubo de uma obra de Benvenuto Cellini.

http://www.imdb.com/title/tt0060522/

6. A história completa da lenda mitológica de Perseu pode ser encontrada em dois clips produzidos por Gabriella, uma pesquisadora italiana anônima, em sua série Miti Greci. Belíssimas imagens e trilha sonora, com texto em italiano. Parte 1, Perseu e Medusa; Parte 2, Perseu e Andrômeda.

 http://www.youtube.com/watch?v=tRAyCeLgPa0

http://www.youtube.com/watch?v=W4DDnOZQsoA 

7. Clip da obra de Benvenuto Cellini, com 1 minuto sobre Perseu (1:44 a 2:50). Atenção para os detalhes, as feições, as expressões faciais, o olhar.

http://www.youtube.com/watch?v=XIKor3nBqsM

8. Lembrando, Berlinghieri é o nome original de família deste dito professor.

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27 respostas para MEDUSA, PERSEU E BENVENUTO CELLINI

  1. anacarolina disse:

    Fundamental alguém que nos diga “como” olhar🙂
    “Uma espécie de Lula do Renascimento – nunca antes e depois na história de Florença falou-se tanto de um governante”. Adorei.
    “Ou seja, se um antepassado deste professor Astromar não tivesse salvo Cellini da sanha assassina, não haveria nem Perseu nem Medusa na Piazza della Signoria”. rsrsrsrs.

  2. luz de pedra disse:

    Simplesmente DELICIOSO!
    Gostei demais de você narrar mitologia grega e biografia da Renascença de forma tão contemporânea.
    DIFERENCIAIS COMPETITIVOS: espada, escudo e etc…..
    Lindo você assinalar: eu mudei muito, eles não. VIVA a ARTE.
    E ainda nos dá o endereço em Florença no final, que cadeau maravilhoso!

  3. luz de pedra disse:

    Mais um detalhe: sutil essa imagem das “pedras infelizes”.

  4. Roger disse:

    Parabéns! Muito bom. Mandei o link para amigos, com recomendação enfática.
    Realmente muito bom, muito agradável de ler.

  5. Paulo disse:

    Muito boa história de Benvenuto Cellini, adorei a parte do amigo Lula do Renascimento.
    Seria Benvenuto o inventor da “teresa”?
    (Infelizmente não a Teresa da Praia ou a Teresa do Sergio Endrigo, como você imaginou, e sim aquela “teresa” usada pra fugir da cadeia. Aquela corda feita de lençóis que as vítimas da sociedade usam para escapar da injustiça a que são acometidos.
    ________________________________________

  6. Primo Fogão disse:

    LINDO, EMOCIONANTE, POIS QUE DESENVOLVIDO POR MEU PRIMO-GÊNIO. PARABÉNS, MIMINHO!

  7. claudia teresa rios cardoso disse:

    Estamos, neste momento dando os deuses do Olimpo em Mitologia, no Jockey. Na última aula contou-se a História de Hades, que levou Persefone para o Hades apesar do amor intenso que Demeter, mãe de Persefone nutria pela filha a ponto de deixar de cultivar os campos que ficaram resecados. Mas Persefone se apaixonou por Hades e foi cada vez mais se afastando da mãe e se adaptando a viver no escuro com Hades.
    Adoro esta história, semelhante a tantas histórias da vida.
    Acho que o professor Astromar daria grande contribuição se participasse das aulas ou se desse um curso no Jockey.

  8. Alexandre Hercules disse:

    Meu caro,
    que história maravilhosa. Quando vi em Firenze a estátua do Perseu jamais poderia imaginar tantos detalhes que a fizeram existir.
    Parabéns pela pesquisa e pelo texto.
    abs

    • Caro Alexandre
      Obrigado por mais um comentário. Este confirma a razão de ser deste espaço – “Viagens na História, fugindo do turismo de massa e entrando nos detalhes das civilizações”. Quanto ao assunto Perseu, está no sangue há décadas. Em termos de pesquisa, ficou limitada às imagens e aos links. Fora o detalhe especial do endereço do estúdio de Cellini. Esse está no rodapé do livro de meu pai.
      Grande abraço.

  9. luz de pedra disse:

    Carminha, obrigada !
    Você herdou a coragem desse seu antepassado!!!
    Parabéns pelas materias desse irmao, um mestre e
    tanto, heim!!
    Gilce – de olhos verdes

  10. luz de pedra disse:

    Obrigada Carminha!
    Texto lido e apreciado!
    Beijos
    Jussara – de Nyon

  11. Helena Dodsworth de Barros disse:

    Como sempre ADOREI a reportagem. A história de Medusa e Perseu ficou impressionante e maravilhosa com a riqueza de seus detalhes.Aprendi muito sobre Benvenuto Celilini e fiquei admirada.Quisera todos os turistas aprendessem também.
    Vc é incrível.Bjs
    Leninha

  12. Mário disse:

    Grande Professor,
    eu vi a estátua do Perseu quando estive em Florença, mas não imaginava toda essa história por trás.
    Parabéns!
    Mais uma aula.
    Um grande abraço.
    Mário

  13. Covas disse:

    Professor, meus parabéns!! Uma deliciosa costura histórica de fazer inveja a Umberto Eco. Me remeteu prazerosamente ao tempo do primeiro contato com Perseu, através da leitura de Monteiro Lobato na infância…bons tempos!
    O detalhe da fundição da estátua foi marcante…se o meu diploma de metalurgista ainda não foi devorado pelas traças, devo endossar que a fundição perfeita daquela rebuscada peça, foi uma façanha notável!
    Um grande abraço
    Covas

  14. Claudia Baggi Gonzalez disse:

    Non avrei mai immaginato quanto rappresenta questa statua per te , ma anzi tutto quanto rappresenta anche per Firenze . Attraverso il tuo racconto dettagliato abbiamo conosciuto delle particolarità sul rapporto tra Benvenuto Cellini e Cosimo I dei Medici . …… e anche su un tuo famoso antenato Berlinghieri. Senza di lui, nessuna statua !!! Bravo Berlinghier Berlinghieri.!!!
    Rende visibile per mezzo dell’ accaduto nel XVI secolo che l’invidia, l’orgoglio e l’egemonia sempre c’è stata fra gli uomini.
    Una cosa che mi è stupita davvero è la propria storia della Medusa ( non la conoscevo nei dettagli). Questi greci avevano una immaginazione stupenda.
    La prossima volta che vado a Firenze vedrò questa scultura con altri occhi. Con certezza!!!

  15. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos Mestres
    Óie seu minino, tenho muitio respeitcho por vosmecê, tu sabe. Mas essa história do moço Perseu com a peruquenta peçonhenta que faz tudim virá pedregulho e mais esse tar de cavalo voador, o sinhô me adiscurpe, mas é plágio sévérgonho. Nóis tem aqui em literatura de cordel, pra tudim podê vê, publicado pra sê lido de carrerinha o épiconto nordestino “O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM A NÊGA DUM PEITO SÓ”, do emboladeiro Zé Costa Leite, lá de Condado, sertão de Pernambuco. O causo é marromeno assim: lá na caatinga tinha uma macumbeira piriguete que fazia os hômi ficá doidim pru ela, pió que caixa de Viágura, as coisa deles ficava dura que nem pedra e ela passava a noite no ralê rolê, inté di madrugada. Quando os hômi ia embora, as parte pudenta dele, dura que nem pedra, quebrava e caía, e nunca mais eles pudia fazê nheco nheco c’as rapariga. Foi aí que Capitão Virgulino Ferreira, nosso comandante Lampião, ficou sabendo das malvadeza bruxuleante, pegô da peixeira e lá se foi tê um cunversê c’a bruxa. Era uma negona azulada, c’os oião regalado, e duas peitaria tar quar a da cumadi Maricota das Jaca Grande. Coisa de endoidá quarqué um, inté sacristão de sacristia. Capitão Virgulino foi se achegando, a bruxa começô a cantoria da paudurecença pedregosa, mas nem pôdi entuá a terceira estrofóra. Com um golpe só da peixeira, Virgulino decepou um peitão da morenona e foi-se embora. Tu num vá achá que Lampião tarra de fulerage e largou o selviço pela metade. É que ele era zarôio e só viu um peitio. E pois foi que cortou fora o que viu. Mas o servicim foi bão e arresorveu o problemis. Que cabra abestado ia querê fazê maculelê cuma dona dum peitio só? Pois fique tu sabendo que ela virou devota do Padim Padi Ciço e os cabra tiveru tudim que passá a se aliviá na fia do jegue do cumpadi Luizinaço, a jeguinha Sabiá. A danada num tinha asa que nem o cavalo do Perseu, mas sortava um rilincho que mais parecia trinado de passarim quando os moço ia se arrefrescá com ela lá nas Barranca do Buraco Quente.
    E agora, sabichão? Essa tu inguinorava, né? É que nóis agora entramos na Internética e achemo tudim lá no Gúgou. Óia só. Mata a prova e mostra o crau.
    http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=369&Itemid=189

    Capitão Raimundo Nonato, chefe de bando

  16. Prezado amigo e oficial de patente superior à minha, Capitão Raimundo Nonato.
    Gostaria de parabenizá-lo pela descoberta de tão esfuziante panfleto sobre o encontro de Lampião com a negra dum peito só. De bravura, Lampião ganha longe. Perseu foi ajudado por um bando de divindades e carregado de armas milagrosas. Já o capitão Virgulino Ferreira, Lampião, foi sózinho, com a cara, a coragem, um olho só e sua peixeira. A maior divindade nunca antes vista neste Universo, Luizinaço, aparece apenas como um criador de jegues barranqueiros. Mas o cumpadre me perdoe por discordar da acusação de plágio. O livreto de cordel de Zé Costa Leite foi produzido no século XX enquanto que a lenda de Perseu é anterior à formação das estrelas que o senhor vê todos os dias nos céus do sertão. De qualquer maneira, encantado com sua história, presto minha homenagem aos amigos chefes de bando, Virgulino e Raimundo Nonato, apresentado a capa da publicação “Encontro de Lampião com a Negra dum Peito Só” , que vai aí abaixo, em anexo “internético”.
    Qualquer hora apareço por aí para trocar uns dedinhos de prosa. Mas aviso antes para despistar as “puliça”.
    Esteja em paz, capitão.
    Professor Astromar

    http://danbrazil.wordpress.com/2009/01/19/o-cordel-de-oliver-sacks/

  17. Capitão Raimundo Nonato disse:

    Mestre dos mestres
    Se avéxe não, quero inté agradicê seus trelelê de catá em livro importante as coisa dos teu tetrabisavô. Achie porreta ele metê pexera nos mafioso renascentista antes mesmo de sê inventada a pexera. Mas sacumé, eu fui tordia registrá mais um fi meu no cartório da Bahia, e achei uns documento importanti da minha arvre ginecológica. Eu sabia que tinha sangue português na veia, e que esse frivião de enrabichamento com muié era tradição da família. Pois foi, ói só o que achei sobre meu tribivô que era pádi de batina e fazedô di minino.

    Assunto: DOS ANAIS DA HISTÓRIA – POVOAMENTO DA BAHIA
    Torre do Tombo é o local onde se guardam todos os documentos antigos. Está situada em Lisboa, junto à Cidade Universitária.

    Sentença de 1587 – Trancoso, Portugal
    Arquivo Nacional da Torre do Tombo

    SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

    (Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7)

    “Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas.
    Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres”.
    Não satisfeito tal apetite, o malfadado prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento, que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa, infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais, completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.

    [agora vem o melhor:]

    “El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador como colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo”.
    É pouco, é? Entocis, registrei meu fi como Sacristino Duzentos e Noventa e Nove Nonato da Costa e quero convidá tu pra sê padrinho dele e cumpadi meu, de batizado na pia e tudim.

    Capitão Raimundo Nonato
    Chefe de bando

  18. Sou demais disse:

    Adorei!Adorei!
    Nossa, pai, essa da MEDUSA foi demais, amei amei!!!
    ATENÇÃO!
    Te adoro te adoro! Meu caro amigo.
    Estou louca para ver o seu próximo artigo.
    Sorte nossa que tinha um Berlinghieri nessa história, e sabe por que? Sabe porque? Porque somos DEMAIS!!!!

  19. Sou demais disse:

    Sabe pai, quem é esse tal de Capitão Raimundo Nonato?
    É só por curiosidade.
    É que ele escreve de um jeito meio engraçado, de um jeito meio caipira.
    Tem pessoa de qualquer tipo lendo esse seu blog.

  20. Abadia disse:

    Professor,
    É encantadora a maneira como voce nos conduz através da historia.
    Não só pelo delicioso conhecimento, mas pelo seu emocionante olhar, que nos revela uma visão maravilhosa da historia e da sua historia. Bravo!

    Adorei as observações do seu amigo Capitão Raimundo Nonato e sua historia. Muito bom.

    • Abadia
      Muito bonito esse seu pseudônimo. Diretamente ligado a um de meus assuntos prediletos, Abadia de Fontevraud. Tenho certeza que não foi apenas uma feliz coincidencia. Sua avaliação de meus trabalhos traz o conteúdo que me anima a caprichar cada vez mais. Obrigado.
      Quanto ao Capitão Raimundo Nonato, anda sumido. Imagino que tenha ido passar o Carnaval em Olinde e Recife. Aliá, tenho a impressão de tê-lo visto num relance, na TV, entre os 2 milhões de foliões do bloco Galo da Madrugada. Só podia ser, apereceu fantasiado dele mesmo.
      Professor Astromar

  21. Noblesse Oblige disse:

    Mon Dieu! Encore des cours extraordinaires! Merci cher Prof.

  22. Delicado da Kibon disse:

    Também gostei muito do pseudônimo Abadia. Veio a calhar. Quem será esse(a) esperto(a) ?

  23. Voyeur de Wayzata disse:

    Bro Berlingheri : mais uma fascinante viagem pela cultura universal e essa gostosa sensação de um tempo bem aproveitado, que a leitura de seus textos me proporciona. É um privilegio compartir de seu interessante mundo intelectual, um verdadeiro reprodutor de neurônios. E de graça…Mas, se me permite o atrevimento, ler os comentarios dessa coisa fôfa que é a Sou Demais, é uma delicia ! Se é jogada de marketing para atrair leitores, funcionou à perfeição.
    Com dupla admiração,
    Voyeur

    • Meu querido irmão Voyeur
      A cada artigo publicado retomo a jornada que você e Tati tanto me fizeram abraçar, lá nos idos de 2003. Troquei minha atividade profissional por VIAGENS NA HISTÓRIA. E saí ganhando. Receita $$$ zero e prazer em crescimento logarítmico. O retorno que recebo pelos comentários postados e lendo minhas próprias histórias como legado para meus filhos, não tem preço. A Sou Demais ingressou nessa estrada, migrando dos contos narrados em beirada de cama para criar seus próprios comentários, iniciados no recomeço dos meus escritos, com STANFORD UNIVERSITY. Ela já tinha essa marca “Sou Demais” estampada em vários rabiscos e até mesmo numa T-shirt de sua criação. Eu leio as histórias para ela e explico as ilustrações. Depois, em algum momento, horas ou dias mais tarde, ela dedilha suas impressões em seu próprio computador. Fico sabendo porque o sistema me avisa que tem comentário para moderar. Espero que vocês se conheçam um dia. BTW, ela está super orgulhosa com seu comentário; foi para a escola radiante, nesta manhã.
      GBY.
      Professor Astromar

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