STANFORD UNIVERSITY E EU


 STANFORD UNIVERSITY E EU

 Engenharia de uma vida

 

 O Boeing 747 da American Airlines fez uma gigantesca volta sobre a cidade de San Francisco e direcionou seu rumo para Nova York. A ponte Golden Gate ia sumindo na janela. Na minha bagagem de alma, eu levava a experiência e os conhecimentos acumulados na vida em Stanford. Na minha bagagem de mão eu levava meu diploma de Master of Science em Engenharia Industrial, aposta no direcionamento do rumo de uma então insipiente carreira profissional. Os acordes de I left my heart in San Francisco faziam a trilha sonora daquela despedida.

http://www.youtube.com/watch?v=5peh4JdbX-4

                

Quase um ano e meio antes, o mesmo Boeing 747 da mesma American Airlines fez uma volta gigantesca nos procedimentos de descida e aproximação do aeroporto de San Francisco. A ponte Golden Gate surgiu na janela. Depois de seis horas atravessando de costa a costa uns Estados Unidos gelados pelo inverno, o sol da California vinha me acolher no coração da Universidade de Stanford. Ansioso, sim, mas protegido por aquela irresponsabilidade e curiosidade marcantes da juventude, percebi os acordes de If you’re going to San Francisco na trilha sonora daquela chegada.

http://www.youtube.com/watch?v=eKeXkhxiq6I

O início dessa história está na minha infância e juventude. Aulas de Inglês, ainda de pijama, nas alvoradas de Copacabana, com meu pai, antes de ele sair para trabalhar; catequese de minha mãe, plantando a idéia de eu estudar nos Estados Unidos.  Quando chegou a hora de me mexer para isso, estava no 4º. ano de Engenharia da PUC/RJ e já tinha Stanford no radar. Seria uma longa corrida de obstáculos. Montagem de plano para pós- graduação, applications (processos de solicitação de vaga diretamente com as universidades), provas e entrevistas de admissão para universidades americanas, busca de solução financeira para estudo e vida no exterior, aceleração da fluência oral e escrita no Inglês.

Comecei conversando com um ex-aluno de Stanford.  Daquele papo, ficou uma frase que guardo até hoje: “Se você realmente quiser ir estudar lá, tente, e tente de novo, nunca desista, pois vai acabar conseguindo”. Acreditei nele. Num mundo sem Internet, enfiei-me na biblioteca do consulado americano no Rio de Janeiro e passei semanas consultando catálogos e currículos de universidades, procurando endereços, instruções para application. O primeiro catálogo consultado foi o de Stanford. O primeiro application postado na agencia de Correios da Praça Serzedelo Correa tinha o endereço de Stanford.

                     

                                          

Mas, pelo sim pelo não, escrevi para outras 46 universidades. Apresentava meu plano de estudo e trabalho, boletins de notas e recomendações de professores, solicitava admissão e pedia fellowship  (bolsa de estudos). Um ano depois, minha busca tinha afunilado para 3 instituições: University of Miami, Kansas State University e Stanford University. Em paralelo, praticava uma aeróbica pesada de Inglês  com Mrs. Blunt, uma adorada little old lady americana, especializada em exames para admissão às universidades; o mesmo aplicado em todos os países, inclusive nos Estados Unidos. Concorrência pesada. Atolado de negativas de fellowship por todas as universidades contatadas, comecei a prestar concursos para bolsa de estudos. No IBEU – Instituto Brasil-Estados Unidos, haviam 3 vagas. Fui o 4º. colocado. Na Comissão Fullbright, terminei em 5º. na competição por 4 bolsas; e na General Electric fui vice na busca da única vaga. Não desanimei, nem desisti. Lembrava e relembrava do conselho do veterano ex-aluno de Stanford e da abertura do LP com os gols do Brasil na Copa de 62 “A vida é uma luta que aos fracos abate e aos bravos e fortes só sabe exaltar”. Voltei para outra largada.  Um ano adiante, lá estava eu concorrendo outra vez por bolsa de estudos no IBEU e na Fullbright, e na inédita oportunidade oferecida pela OEA – Organização dos Estados Americanos.  Bingo. Simultaneamente à aprovação de admissão pelas três universidades escolhidas, vieram as concessões de bolsa nos três concursos prestados. “Mamãe, eu vou estudar nos Estados Unidos!”. A bolsa da OEA havia colocado a chave de Stanford na minha mão. Estava terminando meu primeiro ano de trabalho como engenheiro formado e ia me casar.

Duas sorridentes senhoras, faces rosadas pelo frio, boina, cachecol, luvas e casacão nos esperavam no portão de desembarque do aeroporto de San Francisco. Eram voluntárias do Stanford International Center e estavam ali para ajudar calouros estrangeiros a começarem sua jornada na busca de novos sonhos na subida por desconhecidos degraus. Com um mês de casado, não tinha idéia do que vinha pela frente. 

Nossas malas não chegaram naquele vôo. Na primeira noite no Palo Alto Hotel, com a roupa do corpo, jantar na residência de uma das voluntárias, Mrs. Brown, viúva de ex-aluno. Comida americana “Deus me livre”  e informações de sobrevivência. Onde e como supermercado, luz, gás, telefone, seguro saúde, mapas. E, pânico!  Não havia mais vagas para hospedagem no campus. Escondido Village, a área residencial da Universidade para estudantes casados estava lotada.

 

O reencontro com a bagagem perdida foi o despertador de uma nova e gelada manhã de dezembro. Com Mrs. Brown veio um apartamento off-campus, na comunidade de Menlo Park, cidade a 3km das salas de aula. Semi mobiliado, 2 dormitórios, 2 banheiros, terraço e piscina, aquecimento e ar condicionado centrais, lavanderia, lavadora de pratos e triturador de alimentos, aluguel 250 dólares. Em  24 horas, as concessionárias de serviços públicos ligaram água, eletricidade, gás e telefone. Com meu novo Chevelle Malibu 1965 de 900 dólares, entrei para sócio da AAA – American Automobile Association e enfiei nos bolsos mapas e carteirinha para socorro e assistência de emergência rodoviários. No Alec’s Supermarket e no Stanford Shopping Center, foi abastecido o novo lar. No International Center, surgiu um imenso depósito de móveis e eletrodomésticos deixados por ex-alunos para uso, sob comodato, dos novos alunos. Isso aumentou o mobiliário original do apartamento com escrivaninha, cadeiras, luminárias e uma TV Zenith branco e preto 14 polegadas . 806 Coleman Avenue, Apt. 23, Zip Code 94301, Menlo Park, California, estava pronto para acolher a intensa travessia de seus novos moradores.  

 

Foi um sonho entrar na Disneyland pela primeira vez. Depois de 3 meses de inferno, haviam chegado as férias de primavera: 10 dias para sacudir o stress do Winter Quarter, recuperar a auto-estima e fazer alongamento psicológico e emocional para o Spring Quarter. Sobrevivente, mais preparado, estava até ligeiramente otimista, ainda mais depois que o meu velho Malibu 65 agüentou bravamente a viagem de ida e volta a Los Angeles e as aventuras com a turma do Mickey.

                                           

No modelo de ensino de uma universidade americana, o ano letivo começa em Setembro, é dividido em trimestres sinônimos das estações do ano, e prevê um intervalo para descanso entre cada período. As matérias são auto-contidas dentro de cada trimestre. E, para cada uma, é dado um grau definitivo: A, B, C, D, ou F de fail, de fracasso. O grau é a avaliação atribuída, pelos professores  titulares de cada  disciplina, ao aproveitamento do aluno em seus trabalhos de casa, seus exames midterm, em sua prova final e em sua participação em discussões em sala de aula. Ou seja não há distinção entre desempenho de americanos e o de estrangeiros. A competição é permanente, acentuada pelo fato de o grau final individual ser o reflexo comparação da produtividade do estudante com a performance  da turma. Por exemplo, se todos os estudantes de uma certa disciplina tivessem tirado 10 em uma prova, um tivesse obtido 9 e outro, alcançado um 8, esses dois coitados ficariam com graus B e C, respectivamente, enquanto que aos demais caberia o glorioso  A. Com cada matéria valendo 3, 4 ou 5 créditos, cada faculdade tinha suas regras para conceder diplomação. Na pós graduação da School of Engineering, no Departamento de Engenharia Industrial, eram necessários 45 créditos e média B nas matérias cursadas para obtenção do grau de M.ScMaster of Science. E outros 45 e uma defesa de tese para o de PhD. As matérias selecionadas deveriam ser aprovadas por um orientador, sendo possível fazer disciplinas em outros departamentos, como Business School, Operations Research, Civil Engineering, Computer Science, etc.  

         

Carioca malandro, cursando as tardes da Engenharia Mecânica da PUC/RJ nas praias de Copacabana e Ipanema e sempre com boas notas, não respeitei aquelas novas leis da nova Natureza com que passava a me defrontar. No Registration Day do Winter Quarter, dia de matrícula nas aulas, “espertamente” escolhi cinco matérias para meu primeiro trimestre em Stanford.  Não só era esse era o número de matérias que haviam me proporcionado tantos praiões, mas porque vinha acompanhado por uma programação de horários que novamente me deixava a tardes livres, a partir das 14hs. Que beleza, já na largada, partia com 20 dos 45 créditos necessários para a chegada, para o diploma de M.Sc.

O choque de realidade foi devastador. A esbórnia universitária nacional, proclamada pelos Diretórios Acadêmicos, pela utopia da UNE, pelas passeatas sexuais de José Dirceu, pelas tardes sem estudo e sem trabalho, mas com peladas na areia e peladas na traseira de fuscas envenenados, alienada pelo criminoso bordão político “Ninguém segura esse país”, bateu no muro a 300km por hora. Protestos incendiários no campus de Stanford contra a Guerra do Vietnam, com agressões policiais contra grevistas, professores e até contra os coloridos hippies paz e amor de plantão. Cães acompanhando seus donos dentro das instalações acadêmicas. E uma carga brutal de estudos, leituras e trabalhos, case studies, engolfada por uma competição desenfreada por notas altas, potencializada por escancarado individualismo e por disfarçados  preconceitos sociais. Calouro no Winter Quarter, em meio a veteranos do Fall Quarter, fui colocado de joelhos pelas leis dessa nova Natureza. Fui tomado por uma crescente sensação de incompetência e burrice, atestada pelos primeiros boletins. Tudo seguido pelo pavor de uma volta prematura ao Brasil, com o rabo do fracasso entre as pernas. Mas, toda crise traz oportunidades. Num reflexo, tomei uma das minhas primeiras decisões solitárias de vida. Abandonei a matéria em que estava pior, que exigia debates em sala, mas que poderia ser retomada no futuro. Coloquei foco nas sobreviventes. Um estudante diferente renascia ali.

                 

Os resultados foram imediatos. Os dias e semanas foram ficando leves. Cheguei até a ir a San Francisco me apaixonar pela cidade. O Winter Quarter terminou com a contabilização de 15 créditos em quatro matérias, respectivamente com três graus B e um grau A. Cair, para depois levantar. Isso me acompanha até hoje. 

Conseqüentemente, com os pés no chão, pude viver Stanford, a California e até Nevada e o Arizona. Voltei a rir muito, passei a curtir minha casa e a decantar aquela overdose de experiências. Aos poucos, foram chegando visitantes muito queridos. Meus pais, minha sogra, uma adorável tia. Investi mais tempo nas bibliotecas, dei meus primeiros passos em Informática usando um moderníssimo IBM System/360-67, com perfuradoras e leitoras de cartão espalhadas pelo campus. A tecnologia da universidade era outro diferencial. Saído dos quadros negros com giz, agora entrava em sala de aula com alunos participando em viva voz, diretamente de suas empresas. Na época, chamávamos esse povo de “As vozes do Além”. Dos termofax para reprodução de documentos em Copacabana, passei a ter um self-service de máquinas Xerox nas bibliotecas, a 5 centavos a cópia. Admirava o momento de silencio no campus durante as aulas e o tráfego barulhento de conversas apressadas e de pedais de bicicletas no deslocamento entre um prédio e outro, nos intervalos.

     

   

Alternando notas cada vez mais positivas com turismo nas paradas entre trimestres, naveguei pelo Spring Quarter com dois A’s e dois B’s, pelo Summer Quarter com três A’s e, finalmente, pelo Fall Quarter, com três A’s e um B (um dos A’s foi na disciplina abandonada no período do terror). Em paralelo, conheci Lake Tahoe no verão e no inverno, a fazenda Ponderosa do seriado Bonanza e Virginia City, cidade fantasma do Velho Oeste. Nas máquinas de dinheiro de Las Vegas, ganhei não só minha temporada por lá, mas também no Grand Canyon e no espetacular parque de Yosemite.  Em Carmel-by-the-Sea, cidade do prefeito Clint Eastwood, encontrei a pintura viva de um vilarejo litorâneo europeu. Nunca deixando, é claro, de vez por outra dar uma escapada para abraçar San Francisco.

                                                           

Aproveitei o que a Universidade proporcionava além da vida acadêmica. Inesquecíveis concertos de Credence Clearwater Revival e de Sérgio Mendes & Brazil ’66, ingressos a 4 dólares. Estive no monumental estádio de futebol americano para ver os Stanford Indians vencerem San Jose State University e UCLA. Aprendi a gostar e a entender esse esporte de gladiadores ali, naquelas arquibancadas. Mergulhei no Museu da Família Stanford, repassando a história de seus personagens e as primeiras pegadas da Universidade. Fiz grandes amigos lá, e recebi outros tantos quando estava para voltar ao Brasil. Todos brasileiros. A transferência de experiência entre gerações de alunos não tem preço. Um antigo colega da PUC, solteiro, passou pelos mesmos traumas que eu. Chegou se convidar para o Natal em minha residência, tal era sua solidão. Deixei com ele meu velho automóvel Malibu ’65. Quando terminou seu doutorado, cinco anos depois, a relíquia ainda funcionava.

       

Com 53 dos 45 créditos acadêmicos necessários e mestrado no bolso, deixei Stanford numa radiante manhã de primavera, apenas para virar abóbora assim que acabaram as festas familiares de parabéns e de boas vindas ao Brasil. Das entrevistas de emprego no campus, nada de conclusivo. Minha função de engenheiro na empresa familiar que me recebera no 5º. ano de Engenharia não cabia mais em mim. Pois é, eu me “achava”. Afinal, falava Inglês (um diferencial na época). Era Master of Science, com diploma e anel. Outro choque de realidade. Estava de volta para um futuro insatisfatório.

                                

                            

Meses depois, um anúncio do Jornal do Brasil, em domingo de vitória de Emerson Fittipaldi na Fórmula1, mudou minha vida. Era a IBM buscando gente com o meu currículo. Participei do concurso e fui contratado para trabalhar em um departamento chefiado por um ex-aluno de Stanford, o Roger. Guia dos meus primeiros passos na Big Blue, Roger foi decisivo na minha carreira. Paradoxalmente, produzi trabalhos equivalentes à dissertação que não havia sido necessária em Stanford. Primeiro, uma monografia de Gerencia de Projetos, numa época em que não existiam ciência e método de gestão no desenvolvimento de sistemas de computação. Os cursos de Construction Planning e Construction Costs que ele e eu fizemos com o Professor John Fondhal, em Stanford, foram fundamentais para esse trabalho. John Fondhal, um craque falecido em 2008, foi o criador do método universal de gestão de projetos com PERT-CPM. Mais tarde, Roger e eu vencemos um concurso nacional do Ministério da Educação com o livro APX-Avaliação e Planejamento de Sistemas de Informação. Grandes momentos no início de uma maravilhosa carreira de 27 anos na IBM.

 

Professor John Fondhal

                

Revendo esse texto, seu desfecho torna-se cristalino. Devo a meus pais a trilha para Stanford. Por conta de Stanford, cheguei à IBM. Por conta da IBM tive e continuo tendo uma maravilhosa vida profissional, intelectual e material. A IBM me levou a 24 países. O Professor Astromar só existe em função dessas viagens. A IBM me deixou em meu último porto, São Paulo, junto a clientes muito queridos e onde criei família e pude desenhar minha vida após a IBM. A IBM me proporcionou regressar a Stanford cinco vezes. Partindo de coordenadas tão distintas quanto Cidade do México, Cidade do Panamá, New Orleans, Toronto e San Francisco, retornei à origem de meu destino. Vou voltar a Stanford uma última vez. Quero mostrar a meus filhos onde tudo começou.

                                

P.S. Gosto de música. Canções marcaram muitos instantes de minha vida. Na passagem por Stanford, ouvia e gravava do rádio as músicas mais tocadas, os maiores sucessos daquela época. Muitos deles são eternos. Atemporais. Com a ajuda do Youtube, aí estão eles (e mais os dois dos primeiros parágrafos desse texto). Espero que gostem.

STANFORD SOUNDTRACKS

 IMAGINE

http://www.youtube.com/watch?v=IxLnIRVVwIM

AMERICAN PIE

http://www.youtube.com/watch?v=MCnmEX9LAdM

COUNTRY ROADS

http://www.youtube.com/watch?v=ukUL_I14GPw

THE NIGHT THEY DROVE OLD DIXIE DOWN

http://www.youtube.com/watch?v=nnS9M03F-fA

AGAINST THE WIND

http://www.youtube.com/watch?v=e2efTlU36Tw

CLOSE TO YOU

http://www.youtube.com/watch?v=6inwzOooXRU

OYE COMO VA

http://www.youtube.com/watch?v=XIYAwd7dtZQ

THE BOXER

http://www.youtube.com/watch?v=zPRc9KByM2E

HAVE YOU EVER SEEN THE RAIN?

http://www.youtube.com/watch?v=Gu2pVPWGYMQ

MASSACHUSETTS

http://www.youtube.com/watch?v=4XWYefe9EzI

PEACE TRAIN

http://www.youtube.com/watch?v=7sjSHazjrWg

MOONSHADOW

http://www.youtube.com/watch?v=UtgXus3eiII&feature=related

WILD WORLD

http://www.youtube.com/watch?v=DHXpnZi9Hzs

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STANFORD UNIVERSITY – A jornada de uma antiga fazenda


 

STANFORD UNIVERSITY
A jornada de uma antiga fazenda

Nas primeiras horas daquela manhã de primavera, as atividades da fazenda já estavam em ritmo de produção.  Os cavalos de competição circulavam pelas pistas de trote, atiçados por seus treinadores. Trabalhadores agrícolas pingavam  suor cuidando das plantações. Hortas e pomares coloriam as colinas da Califórnia, ajudados pela aquarela de flores que, sob a brisa rodopiante da Baía de San Francisco perfumavam, em cumplicidade com altíssimos pinheiros, a propriedade de Leland Stanford. Tudo isso sob a coreografia voluptuosa de milhares de palmeiras.

Coches de Stanford em movimento

Fazenda de Stanford preservada

Cavalos de Stanford em movimento

Cento e vinte anos depois, a mesma geografia, a mesma latitude e longitude, ferviam com o silêncio ou com o alarido de cerca de dezenove mil estudantes de todo o mundo. A antiga fazenda desaparecera para dar lugar a um magnífico e gigantesco campus universitário. Stanford University é um centro de excelência em educação e formação de pessoas, destino de sonhos de futuros empresários, cientistas, líderes políticos, salvadores de vidas, campeões olímpicos.

Stanford University

Nas primeiras horas daquela manhã de abril de 1868, o aroma do “breakfast” servido no salão da fazenda despertava o Senador Leland Stanford e sua esposa, Jane, para a realidade de seu devaneio de felicidade. Após 23 anos de casamento, estavam a apenas algumas semanas do nascimento de seu primeiro filho.

Jane Stanford

Leland Stanford

 

Senador Stanford era um multimilionário. Governador da Califórnia, político respeitável, engenheiro e empresário de estradas de ferro, liderou a construção da Union Pacific, ferrovia transcontinental pioneira que interligou o Leste com o Oeste americanos. O encontro dos trilhos das duas frentes de trabalho, uma no sentido leste-oeste e outra, no sentido inverso, mudou a história dos Estados Unidos, integrando, para sempre o país. Leland Stanford martelou o último rebite no último dormente. Cravou o “Golden Spike”.

Encontro de trilhos

"Golden Spike"

Cerimonial transcontinental

  

Leland Stanford Junior nasceu em berço esplêndido, em 14 de maio de 1868. Sempre teve de tudo; os melhores professores particulares, todo tipo de brinquedo, as melhores roupas e até uma coleção de objetos de arte. Conforme a estação do ano, passava seus dias em uma das magníficas residências da família, em Washington, Boston, Denver, San Francisco ou até mesmo na Europa, por onde viajava todo  verão. Mas, o lado duro do Destino atingiu a família em uma dessas viagens. Em visita às pirâmides do Egito, o menino adoeceu. Vítima de febre tifóide, Leland Stanford Junior morreu a poucos dias de completar dezesseis anos. Devastados pela dor, seus pais nunca mais se recuperaram da tragédia. E decidiram que “as crianças da Califórnia seriam agora as suas crianças”.  Então , sete anos após a morte do filho, Leland e Jane Stanford inauguraram, em 8 de outubro de 1891, Leland Stanford Junior University. Stanford University.

Transição de fazenda para universidade

A família Stanford

Leland Stanford Junior

 

As instalações da fazenda deram lugar a edifícios de arquitetura colonial espanhola, emoldurados por arcadas em arenito e com vias de acesso margeadas por palmeiras, praças e jardins. O contraste dos edifícios contra o céu azul da Califórnia é absolutamente espetacular.  

Os estudantes, “as crianças de Leland e Jane Stanford”, vieram. Não apenas da Califórnia, mas de cada estado americano e, nos últimos 60 anos, de todos os continentes. Essas crianças, jovens adultos, estiveram na reconstrução da Universidade, quase destruída pelo terremoto que arrasou San Francisco em 1906,

A Capela de Stanford e o terremoto

A Capela de Stanford retornada

A biblioteca e o terremoto

  

Biblioteca retornada

estiveram em todos os jogos olímpicos de verão (obtendo 17 medalhas de ouro), criaram o Silicon Valley, presidiram o país (com Herbert Hoover e John F. Kennedy), foram vencedoras de 16 prêmios Nobel, construíram um estádio universitário para 100.000 espectadores (que recebeu jogos de futebol da Olimpíada de 1984 e o Super Bowl XIX em 20 de janeiro de 1985 – vitória do San Francisco 49ers de Joe Montana sobre o Miami Dolphins de Dan Marino, 38-16). As crianças de Stanford passaram pela School of Engineering, pela Graduate School of Business e foram criar empregos mundo afora em seus novos negócios como HP, Cisco, Yahoo!, Google, Nike, Gap, Sun.  As crianças de Stanford fizeram acontecer o Medical Center, composto pela School of Medicine, pelo Hospital & Clinics e, como não poderia deixar de ser, pelo Children’s Hospital. A medicina de Stanford se destaca em áreas como cardiologia, oncologia, neurologia, cirurgia, transplantes e… neonatologia.

Stanford Medical Center

As crianças de Stanford que foram envelhecendo formaram a Stanford Alumni Association, que ajuda a manter a ligação de todas elas com seu berço educacional e que, também, angaria fundos para manter a Universidade. As crianças de Stanford fizeram diferença na vida de muita gente, tiveram sua trajetória profissional profundamente alterada pelo que outras crianças de Stanford lhes proporcionaram. As crianças de Stanford sentem saudade de Stanford pelo resto de suas vidas. Saudade é um elogio ao passado. Saudade é a esperança do futuro. Eu sei. Eu sou uma criança de Stanford.

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MARCUS AURELIUS


LEGADOS DO IMPERADOR MARCUS AURELIUS

Sangue, mármore, bronze, ouro e 1.800 anos de ensinamentos

  

 

  

Cada país tem o Marco Aurélio que merece. No Brasil, temos o Marco Aurélio “Top-top” Garcia, aquele homúnculo, aspone do Lula, imortalizado pelo gesto “Top-top” para as vítimas do acidente da TAM em Congonhas e por ter abolido o Inglês como idioma obrigatório para os quadros do Itamaraty. Por outro lado, na Itália, aparece Marcus Aurelius, imperador que reinou de 161 a 180 D.C. O último da linhagem da Pax Romana, gestor de um império em sua amplitude geográfica máxima e um dos poucos a ressurgirem como personagem de Hollywood (representado por James Mason em “A Queda do Império Romano”, de 1964, e por Richard Harris, em “Gladiador”, de 1999). Seu legado está nas ruas e nas colinas de Roma, em nichos da História exibidos em museus “griffe” ou quase desconhecidos, em coleções de bilionários anônimos e nas livrarias de todo o mundo.

                                                                                    

                                                                                          O aspone Marco Aurelio “Top-top” Garcia, terrorista do idioma Inglês

                                                                                      

                                                                                               O imperador Marcus Aurelius

                                                                  

                                 Mármore – Colecionador suiço            Mármore – Munich Museum          Mármore – Metropolitan Museum, New York

 

Marcus Aurelius passou os últimos 12 anos de sua vida fora de Roma, com suas legiões em combates sanguinários para abafar revoltas dos bárbaros germânicos. E não morreu assassinado por seu filho e herdeiro Commodus (como apregoado por Hollywood), mas sim pela peste que, durante mais de 10 anos, dizimou cerca de 5 milhões de pessoas em todo o império. Que peste? Especula-se, varíola ou sarampo. Assolado pela doença, longe de casa e da família, Marcus Aurelius começou a colocar no papel suas experiências, seu aprendizado. Escrevia em grego, contando para si mesmo grandes lições passadas pela sua vida. Em conversa definitiva com seu general vitorioso, mostrada no filme “Gladiador”, aparece escrevendo. Sua obra sobreviveu aos séculos, foi traduzida aos quatro ventos e está disponível na Livraria Cultura, na Amazon, na Barnes & Noble, na Librairie Scribe, na Libreria Feltrinelli, na Atlandida Librerias e por aí afora. São as “Meditações do Imperador Marco Aurélio”. Última linha abandonada no leito de morte, em Vindobona, Germania, em 17 de março de 180. Cidade hoje conhecida como Viena.

                                  

 

Marcus Aurelius nasceu em 26 de abril de 121, era sobrinho adotivo do Imperador Adriano, que não deixou herdeiros diretos, mas designou seu filho adotivo Lucius Verus e o sobrinho Marcus Aurelius como co-imperadores. Amigos de juventude, Lucius e Marcus governaram harmonicamente até que a peste acabou com a dupla, deixando Marcus Aurelius como único imperador. Sua educação esmerada, com os melhores pensadores de seu tempo, proporcionou a ele um conhecimento diferenciado, tendo se destacado na arte e na ciência da tomada de decisões. Uma das mais conhecidas foi fechar o Coliseu, reaberto após sua morte pelo sucessor Commodus, único filho homem junto às 12 filhas que teve com a  Imperatriz Faustina. Commodus, uma espécie de Calígula em escala reduzida de insanidade, durou pouco; foi assassinado na banheira por Narcissus, um profissional de luta greco-romana.

 

Marcus Aurelius aparece hoje em Roma, aqui, ali. Sua campanha contra a Germania é mostrada em detalhes na coluna de mármore da Piazza Colonna. Ali surge a impressionante crueldade das guerras da Antiguidade: aldeias incendiadas, mulheres e crianças aprisionadas, matança, desgraça exposta nas expressões de cada indivíduo – vencedor ou derrotado. 

                                                            

                                                                                      Coluna de Marcus Aurelius na Piazza Colonna, em Roma

 

Na piazza central da colina Capitolina, atrás do Forum Romano e próxima ao Circus Massimus  está a mais conhecida estátua de Marcus Aurelius, uma obra prima equestre em bronze, tamanho natural, encontrada intacta, em 1880, no fundo do Rio Tibre (atualmente o original está preservado e resguardado dentro do Museu Capitolino, enquanto uma cópia fiel o substitui na piazza, exposta aos elementos da Natureza e à fúria de mísseis fecais detonados por milhares de pombos enciumados com a concorrência à atenção dos turistas de massa).

                                                                   Bronze equestre de Marcus Aurelius na colina Capitolina

                                                  

                                                                   Cópia                                                     Original

 

Outros artefatos de Marcus Aurelius se espalharam pelo mundo após a queda do Império Romano, durante a Renascença e também em decorrência da pilhagem nazista na Segunda Guerra Mundial. Foram para museus ou para coleções particulares e entraram no fluxo de leilões. Esta é a fronteira onde entra o olho clínico dos peregrinos da História. Existem legados de Marcus Aurelius perceptíveis apenas a tais estudiosos. Por exemplo, quase sempre vitoriosas, as legiões romanas não eram invictas. Perdiam batalhas. Quando isso acontecia, era hábito romano enterrar valores, armas, objetos pessoais, estandartes das legiões, etc. Programas inteiros do Discovery Channel e do History Channel abordam situações específicas onde isso ocorreu. Na campanha germânica de Marcus Aurelius, não foi diferente. Um acampamento militar foi queimado na Gália e artefatos da legião ficaram cobertos por cinzas, destroços e lama; uma outra derrota nas margens do rio Danúbio deixou riquezas enterradas para (quase) sempre.

 

Em 18 de abril de 1939, na cidadezinha suíça de Avenches, no cantão de Vaud, próximo a Genève,  trabalhadores em obra de drenagem de um terreno, encontraram um objeto brilhante surgindo do entulho. Retirado da lama manualmente, surgiu como um tesouro inconcebível: era um busto de ouro puro de Marcus Aurelius, absolutamente intacto. Com inscrições em latim que identificavam o imperador, estava em um local onde as tropas romanas haviam sofrido uma derrota na Gália, a caminho da campanha germânica. Limpo e restaurado, o busto de ouro desde então encontra-se em exibição, exceto por um curto período, no Musée Cantonal d’Art et Histoire de Lausanne.

     

                                            

                                                                                                              Descoberta do busto de ouro

 

Em 1974, uma escavadeira a serviço da municipalidade de Pécs, às margens do Rio Danúbio, na Hungria, enquanto abria espaço para um reservatório de água, arrastou terra, pedras e um objeto metálico. Mesmo danificada pelo equipamento moderno, a relíquia de bronze, uma obra prima da Antiguidade, mais uma vez resistiu e sobreviveu. Aquele local havia sido um antigo acampamento militar romano, atacado e incendiado pelos bárbaros da Germânia. Queimada e trincada, a magnífica peça foi para uma UTI arqueológica e, após quase 20 anos de restauração, o busto de bronze do imperador Marcus Aurelius retomou seu imortal esplendor. Desde então, exceto por um curto período, o retrato em bronze está em exibição no Museu de Belas Artes de Budapeste,

 

Negociações entre os curadores do museu suíço e do museu húngaro promoveram o encontro de Marcus Aurelius em bronze com Marcus Aurelius em ouro. Em 1996, o Musée d’ Art et Histoire de Genève exibiu a mostra especial Bronze et Or – Visages de Marc Aurèle – Empereur, Capitaine, Moraliste.

                                                                                                                   

                                                                                                              Catálogo da exposição do Museu de Genève

  

As rotas misteriosas das Viagens na História me colocaram em Genève naquele verão, para testemunhar um encontro que jamais se repetiu. Nunca mais aquele bronze e aquele ouro estiveram juntos, ficaram frente a frente apenas no curto período em que deixaram seus museus originais, na Suíça e na Hungria. Ou, quem sabe, quase 2.000 anos antes, eram inseparáveis, marchando com as tropas do imperador. Estive diante dos bustos de bronze e ouro, de moedas de bronze e ouro, de armamento centurião e legionário.

                                                                     

                                                     Marcus Aurelius em moedas de bronze                                                     Marcus Aurelius em moedas de ouro  

  

                                                          

                                                                   Marcus Aurelius em ouro                                                              Marcus Aurelius em bronze

  

Vi também a primeira edição dos escritos do imperador: datada de 1559, em grego, lá estavam as páginas de “Meditações do Imperador Marco Aurélio”. Trata-se de um “best seller” da Antiguidade para os tempos modernos. Como a Bíblia. E lá, o leitor, o historiador, o filósofo, o psicólogo, o administrador, o professor, o profissional, o estudante, encontra os diamantes de Marcus Aurelius, suas lições para si mesmo. Das 200 páginas do livro elegi minhas linhas preferidas:

  1. Retire suas opiniões e as queixas desaparecerão. Com o sumiço das queixas, as feridas estarão curadas.
  2. Não se surpreenda com o aparecimento de pessoas gratuitamente ofensivas. 
  3. O melhor modo de vingar-se de um inimigo é não se assemelhar a ele.
  4. O líder deve não apenas comandar, mas também criar as condições para que seus comandados triunfem. É muito forte a dor de obrigações sem direitos ou de responsabilidade sem autoridade.
  5. Antes a crítica de um genio do que um louvor de um idiota. 
  6. Nada de desgosto, nem de desanimo; se acabas de fracassar, recomeça.
  7. A nossa vida é aquilo que os nossos pensamentos fizerem dela.
  8. Muitas vezes erra não apenas quem faz, mas também quem deixa de fazer alguma coisa.
  9. A experiencia é um troféu composto por todas as armas que nos feriram.
  10. Mais penosas são as consequencias da ira do que as suas causas.

 

Dentre meus estudos e viagens pelo Império Romano, esse é um dos capítulos preferidos. Tendo em comum apenas o personagem do Imperador Marcus Aurelius, as trilhas da História me permitiram montar um quebra-cabeças com peças de Hollywood, escavações arqueológicas, exposições em diferentes países, monumentos da Antiguidade em avenidas modernas, instalações industriais do século XX em acampamentos e campos de batalha milenares e, principalmente, com o pensamento de uma dos maiores personagens da humanidade. Para um peregrino da História, isso não tem preço.

 

                                                                                

 

CONCURSO: Celebrando a marca de 60.000 visitas ao blog, lanço um desafio ao querido público. Dentre as 10 pensamentos relacionados acima, apenas 9 são realmente de Marcus Aurelius. Pergunto: qual é o pensamento intruso e quem o escreveu? O vencedor, vencedora ou vencedores ganharão um prêmio, que poderá ser o DVD “Gladiador”, o livro “Meditações de Marco Aurélio”, ou um DVD de sua escolha.

As respostas para esse concurso deverão ser enviadas ao email pfastromar@hotmail.com até a sexta feira 13 de fevereiro de 2009. O resultado será publicado em comentário a esse artigo.

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ANO NOVO


SETE MARAVILHAS DO ANO NOVO (PARTE 1)

  

 

Tenho pororoca de sentimentos em relação à passagem do Ano Novo. E o resultado traz sabor amargo. Passada a suavidade (mesmo comercial) do Natal e adiantada a contagem implacável de meu mais novo e mais velho aniversário, chego a 31 de dezembro inseguro, enxergando um panorama invisível. Sempre foi assim, desde a adolescência. Alguém querido vai partir? Que capricho poderei alcançar? E como ficará a saúde? Quantas viradas de ano novo restam para mim? O que pedir a quem pode e acredito? Coquetel de angústia e ansiedade. Mas, dentre as incontáveis passagens de ano que enfrentei até agora, tenho sete maravilhas bem guardadas. Nenhuma delas foi evento tradicional padrão  TV Globo, replay do ano anterior; também não tem foto de socialites bêbadas e dadivosas, travestidas com photoshop e botox, que jornais e revistas não se cansam de publicar. Pois então, para neutralizar essa impressão deprê dessas primeiras linhas, me antecipo a informar que vi Times Square e Champs Elysées explodirem, fui testemunha do Ano Novo Chinês iluminando San Francisco, vivi um garoto de 22 anos no réveillon a bordo de um transatlântico italiano, conheci Copacabana ainda princesinha do mar limpíssima em manhãs de 1º. de janeiro, enfrentei o Bug do Milênio na virada para o ano 2000 e escancarei 15 sorrisos ao atravessar a linha de chegada da São Silvestre em 15 participações.

 

1.Times Square, Nova York

Times Square é o triângulo formado pelo cruzamento da 5ª. com a 7ª.avenida, entre as ruas 42 e 47. Um dos prédios lá fincado desde 1904 era a sede do New York Times, que mudou de endereço depois, mas deixou seu nome no lugar. Desde 1907 uma bola luminosa desce do alto do prédio para celebrar a chegada do Ano Novo, diante de centenas de milhares de pessoas em contagem regressiva sonora. Os anúncios luminosos e animados da Times Square são um dos principais cartões postais de Nova York, equivalem à densidade luminosa de Las Vegas e permanecem lá por obrigação contratual com a prefeitura. Durante o ano, é concentração de caçadores e garimpeiros de ingressos para shows da Broadway.  O cancelamento de um vôo da Pan Am, no final de 1977, me presenteou com uma virada de ano em Times Square. Meio alheio àquilo tudo e já peregrino da História, entrei no túnel do tempo para ver, em dois dias da primavera/verão de 1945,  naquele naquele exato lugar, multidões ensandecidas  com o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas tudo em preto e branco, naturalmente.

   

                                                        

           Times Square no Ano Novo                                16/08/1945 – Times Square celebrando o fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico

 

2.Avenida dos Champs Elysées, Paris

Da Place de l’ Étoile, com o Arco do Triunfo, à Place de La Concorde, onde a guilhotina funcionava sem parar durante a Revolução Francesa, encontram-se os 1.900 metros mais sofisticados e caros da Europa.

Sua história segue o roteiro da montagem de um quebra cabeças secular. Em 1616, Maria de Médici, abriu nos jardins do Louvre uma alameda arborizada. Em 1724, foi estendida até a Place de L’Étoile, ladeada por parques e bosques onde árvores e vegetação eram dispostas em fileiras e dividiam espaço com suntuosas mansões. Maria Antonieta, antes de, em todos os sentidos, perder a cabeça, teve aulas de música no Hôtel Crillon. Napoleão foi responsável pelos monumentos nas extremidades da Avenida: Arco do Triunfo e Obelisco Egípcio. Durante a Segunda Guerra Mundial, a partir de 1940, a França ocupada via uma parada militar nazista diária descer os Champs Elysées;  e a França libertada viu as tropas francesas do Marechal Leclerc e a Infantaria Americana fazerem a mesma coisa, em agosto de 1944. Grandes griffes mundiais foram ocupando a avenida que, desde 1975, é o ponto final da última prova do Tour de France. Sua esplendorosa iluminação de Natal premiou- a com o encerramento público das festas de fim de ano. O réveillon de Paris é a Champs Elysées obscenamente acesa, ocupada por milhões. Foi assim quando a França venceu o Brasil e levou a Copa do Mundo de 1998. Foi quase assim quando a França venceu a Croácia na semifinal, provocando um rodamoinho tresloucado de luzes e de bleu-blanc-rouge, que me sufocava enquanto eu tentava chegar ao aeroporto após uma semana difícil de trabalho técnico e comercial, em plena Copa do Mundo. O Brasil perdeu a Copa e a IBM perdeu a concorrência. Daquela época prefiro ficar com a lembrança da Torre Eiffel e sua contagem regressiva para o ano 2000.

 

       

                     Champs Elysée, 1890                                                          Agosto de 1944 – Desfile militar na Champs Elysée de uma Paris libertada

  

                                       

                                         Ano Novo na Champs Elysées                                             Champs Elysées depois da final da Copa do Mundo de 1998

   

                                                                                                            Contagem regressiva para o ano 2000

 

3.Ano Novo Chinês, San Francisco

Primeiro eu vi, só depois entendi. Há poucos meses cursando a Universidade de Stanford, fui a San Francisco em um sábado para almoçar no Fisherman’s Wharf. Ao final da tarde, loucura oriental para turista desinformado: fogos de artifício, buscapés, metralha de bombinhas, constelações de lanternas vermelhas e um dragão psicodélico rodopiando como uma porta-bandeiras da Portela.  Era a festa do Ano Novo Chinês, celebrado mundialmente, durante duas semanas, entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro, conforme o ciclo lunar  e sempre associado a um animal. Por exemplo, 2009 é o ano do Touro e começa em 26 de janeiro como ano 4707. O novo milênio trouxe 2000 como o ano do Dragão. O World Trade Center veio abaixo em 2001, significativamente o ano da Cobra.  E Lula começou seu segundo mandato, em 2007, seguido do mensalão, dos aloprados do desbaratamento da quadrilha do Zé Dirceu e do fantasma ambulante da Dona Marisa, em pleno ano do Porco. O Ano Novo é a mais importante celebração chinesa. Diz a lenda que Nian, um dragão mitológico, atacava as pequenas cidades, devorando rebanhos, colheita e até pessoas. Certo dia, na correria para escapar do monstro, uma criança perdida, vestida de vermelho, fez a fera estancar e fugir. Voilà ! Nian entrava em pânico diante do vermelho. E assim nasceu a tradição do festival de lanternas vermelhas no Ano Novo Chinês. Igual em todo o mundo, em qualquer comunidade chinesa, seja nos Estados Unidos, no Canadá, na Austrália ou até mesmo no Brasil. No nosso caso, mantidas as devidas proporções e uma pitada de esculhambação natural local, o terror de Nian se agiganta diante das bandeiras vermelhas do PT.

 

      

                 Chinatown, San Francisco                                     Festival de lanternas vermelhas                                                Dragão Nian

  

4.Corrida de São Silvestre, São Paulo

A corrida de São Silvestre marca o último dia do ano em São Paulo, desde 1924. Tenho 15 delas no peito. Decidi correr a prova ao ver a vitória de Carlos Lopes em 1982. Excepcional corredor português, campeão olímpico de Maratona. Tudo a ver com o meu tradicional azedume de Ano Novo e minha paixão pelas corridas de rua. No ano seguinte, atravessei a linha de chegada, na Avenida Paulista, pela primeira vez, carregando um implacável cálculo renal, minutos antes do foguetório da meia noite. Era uma corrida noturna, de 12.600 metros, depois transformada pela TV Globo em 15 km de banho turco às 17 hs de um dia especial de verão paulista. Entre a primeira e a última São Silvestre, em 2003, vi de tudo. Larguei no pelotão de elite, larguei em último, fui ultrapassado por índios, por um cangaceiro puxando um jegue e por uma noiva. Até mesmo tomei respingos de xixi anônimo minutos antes da largada, advindos de um ou mais participantes acometidos de agoniamento da uretra. Devo confessar que retribuí o refluxo em algumas ocasiões. Mas estou aposentado da prova. Troquei a subida da Brigadeiro Luiz Antonio pelo meu sofá. Nele, corro junto dos primeiros colocados diante de uma TV muda, como a voz de cada quilômetro percorrido. O trajeto é feio e sujo. As subidas gargalham com requintes de crueldade. Os melhores corredores do mundo sumiram daqui há tempos. Mas a prova não pára de crescer, pois seu sucesso vem da participação de milhares de zé-manés. Alguns fantasiados, outros, heróis de si mesmos.  A largada é de arrepiar, com os helicópteros sobrevoando o MASP, aguardando a buzina de partida. Momento de reflexão, de pedidos. E a chegada, naqueles 350 metros de arquibancadas lotadas na Avenida Paulista adentro, torna obrigatório o sorriso escancarado de uma celebração individual gloriosa.

 

     

                       Vitória e glória                                                 Largada dos zé-manés                                                           Celebração dos zé-manés

  

                                                                                       

                                                                              31/12/1983 e 31/12/1984 – Astromar em suas duas primeiras São Silvestres

  

  

                                                                                (CONTINUA A SEGUIR, LOGO ABAIXO, NA PARTE 2)

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ANO NOVO


SETE MARAVILHAS DO ANO NOVO (PARTE 2)

  

5.A bordo do Augustus, em alto mar

Teve cadeira quebrada e mesa virada. Teve bofetada, voadora, rabo de arraia e muita pancadaria. Que delícia é ganhar dos argentinos, ainda mais na porrada. O réveillon corria solto no transatlântico Augustus, estudantes de engenharia brasileiros e argentinos disputavam espaço no salão e a atenção das gatas naquela primeira noite no rumo de 45 dias na Europa. A banda italiana atacou de “Cidade Maravilhosa” e os argentinos provocaram a brasileirada com o coro de “macaquitos, macaquitos”. Mas nosso grupo tinha alguns tenentes da reserva da Marinha que haviam estado em Buenos Aires a serviço um ano antes. Eu era um deles. Sabíamos de uma das maiores ofensas para enfurecer un hermano e retrucamos aos berros, “maricones, maricones, maricones”.  Pronto, o pau comeu solto. Chegou a segurança de bordo italiana, flagraram um cucaracho com maconha, levaram todos os argentinos presos, bateram continência para os tenentes brasileiros e estes, imediatamente ordenaram à banda italiana um sonoro “Mamãe eu quero”. Sobraram hermanitas no salão, e a Marinha brasileira desembarcou de novo em Buenos Aires. Eu tinha 22 anos e me encantei com o sotaque e com o aroma Hermotés da loirinha Beth. Brasil 3×0.

  

 Despedida de uma época das viagens à Europa em transatlânticos como Claude Bernard, Federico C, Enrico C, Conte Grande, Giulio Cesare e Augustus

                     

                        31/12/1968-Augustus atracado na Praça Mauá

                                                                                                      

                                                                   31/12/1968 – Revéillon no Augustus, minutos antes de Brasil x Argentina

 

6.Copacabana, Rio de Janeiro

Sou carioca de Copacabana e passei metade da minha vida lá. A segunda metade, pelo mundo afora. Minha Copacabana é a Princesinha do Mar. Além de Itapoã, única praia homenageada com uma canção eterna.  Praia linda de areia branca povoada de tatuís, caranguejos e arrastões, com mar dia bravo, dia manso. Todos os dias eram iguais na praia infantil.  Até dia 1 de janeiro, era banhado sem alterações. Na praia juvenil, as ofertas a Iemanjá lançadas ao mar retornavam à areia como lixo. Na Copacabana jovem adulta, o Hotel Méridien fazia sua cascata de fogos enquanto a macumba rolava solta na areia. Montanhas de imundície surgiam na madrugada. Agora, vejo de longe uma Copacabana arrasada, tomada por milhões de pessoas para ver um espetáculo de fogos que, em 2008, durou 22 minutos e deixou a praia marcada por toneladas de detritos. Entrou para o calendário turístico mundial e me afastou ainda mais de lá, pois perde de goleada para a minha Copacabana Princesinha do Mar.

  

    

01/01/1949 – Astrominho e seu pai na Princesinha do Mar           Saravá, Iemanjá                        Cascata de fogos no finado Méridien 

  

                      

                                                   Ano Novo em Copacabana – Século XXI

 

7.O Bug do Milênio, São Bernardo do Campo

De meados de 1995, até dezembro de 1999, o “bug do milênio” (Y2K-Ano 2000) foi ficando mais e mais aterrador. Expectativa medonha, como se zumbis fossem dominar o mundo, ou se nosso planeta viesse a ser tomado por legiões de belzebus, lobisomens, vampiros e chupacabras. Cenários apocalípticos incluíam até o Monstro da Lagoa Negra. Na verdade, tudo se resumia a um problema de data. Ao longo de décadas, a turma da informática e dos dispositivos eletrônicos adotou o hábito de representar o ano por dois dígitos apenas. Assim, 1946 era 46, 1970 era 70 e assim por diante, levando centenas de milhares de programas de computador, máquinas robotizadas, sistemas e equipamentos eletrônicos a pirarem com o dilema do 00: seria 2000 ou 1900 ? Risco altíssimo de comprometimento das operações de empresas e negócios. Como numa repetição da Arca de Noé, muitas companhias se prepararam, enquanto outras deixaram pra lá. A dois dias da minha saída da IBM, a Volkswagen América Latina, um cliente de muitos anos, me contratou para criar, montar e divulgar um plano de contingência de negócios para neutralizar o Bug Y2K antes, durante e depois de 31/12/1999. Além disso, todos os endereços da VW deveriam estar conectados à Matriz, na Alemanha, por meio de salas de comando, para comunicação durante a chegada do ilustre desconhecido.  Modéstia à parte, a solução do Astromar foi adotada pelo mundo VW. A sala de comando da fábrica Anchieta, que centralizava as operações na América Latina, tinha telas de plasma ligadas à CNN e à Internet, uma bateria de micro-computadores conectados a todos os endereços da Volks e equipes de plantão e socorro para revezamento em turnos de 8 horas, a partir das 14hs de 31/12/1999. Me escalei para o turno do bug, o das 22hs de 31/12/1999 às 6hs de 1/1/2000. Mas, antes disso, acompanhei o noticiário da TV à medida que 2000 começava a atravessar o mundo, a partir da Ásia, corri a São Silvestre, tomei banho e cheguei à fábrica de São Bernardo do Campo debaixo de relâmpagos e trovões. O bug se anunciava … Mas foi tudo um sossego. Deu para ver “O Resgate do Soldado Ryan” no meu notebook, com intervalo para um gole de champagne, sem bug, à meia noite. Nos dias subseqüentes, enquanto nos revezávamos nos plantões, a imprensa noticiava vitória esmagadora das corporações, por W.O. contra o Bug Y2K. Nada mais falso. Dentro da sala de comando da VW América Latina, enfrentamos 49 ocorrências. Ètica profissional me impede de fornecer detalhes. Mas posso garantir que, em uma certa fábrica vizinha ao Boca Juniors, carros ficaram no pátio aguardando faturamento e um banco parceiro embaralhou um saco de duplicatas. E 2009, vai trazer uma tsunami econômica ou apenas uma marolinha? Quem acredita em políticos, aspones, analistas e porta-vozes?

 

     

       Apocalipse tecnológico ????                           Poster VW Mundial                                                 Sala de Comando VW América Latiina

  

                                                       

                                                    

                                  Equipe Anti-Bug Volkswagen & Corporação Astromar – Ilustração de Jayme Perlingeiro, 2000

              

Não posso deixar meu Anjo da Guarda fora de um texto sobre Ano Novo. Estava no colo dele na minha primeira virada de ano, passei o réveillon da travessia da adolescência para a juventude (1964 para 1965) com ele. O ano de 1964 trouxe a Revolução da Ditadura Militar, o Fluminense campeão e minha preparação para o vestibular de Engenharia. Sendo c.d.f. de carteirinha, naquele segundo semestre abandonei festas e diversões para me dedicar apenas aos estudos. Enquanto isso, o Rio de Janeiro se preparava para as festas de seu 4º. Centenário. Avesso a revéillons cruzei aquela meia noite estudando trigonometria ao lado de meu anjo, casa vazia, enquanto aviões sobrevoavam Copacabana despejando papelotes aluminizados com o logotipo do 4º. Centenário. Passei no vestibular, peguei a trajetória profissional, senti a dor da partida do meu anjo, mas apenas para continuar falando com ele, silenciosamente, todos os dias. Muitas vezes com um pedido de socorro, sempre atendido em menos de 24 horas. Meu Anjo da Guarda, minha avó e madrinha, tão presente em minha vidinha.

  

                                                             SOUVENIRS DO 4o.CENTENÁRIO DO RIO DE JANEIRO

                                                                                                            

  

                                                                                                                      

                                                                                     01/01/1948 – Rua Inhangá 19, Copacabana – Astrominho  e seu Anjo da Guarda

 

  

  

 

                               FELIZ ANO NOVO PARA VOCÊS TODOS.

 

 

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NATAL


SETE MARAVILHAS DO NATAL

  

             

Presépio, Árvore de Natal e Papai Noel. Desde os meus primeiros passos, esse trinômio se fez presente. Principais símbolos do Natal, são pontos de referência para tanta gente miúda, hoje graúda, Auto-estrada de Memórias e Saudades Eternas.

Décadas de vida e incontáveis milhagens mundo afora vieram me trazendo situações e experiências natalinas que se destacaram diante de tantas outras que já vivenciei.  Mesmo com o risco de reacender a dor da ausência de tantos queridos que já partiram, preferi recordar e mergulhar na Auto-estrada das Memórias e Saudades Eternas. Nessa jornada, segui ícones do Natal em um trajeto certamente mágico, acelerando em algumas passagens, apenas para quase parar, em outras, e finalmente voltar para onde nunca tinha saído; trazendo na bagagem uma coleção de sete pérolas de 80 quilates e de alta octanagem.

1.Rockefeller Center, Nova York.

Aquela praça cercada de penhascos comerciais mais altos que o céu e iluminada por milhares de minúsculos arco-íris noturnos acesos em torno da estátua de um titã dourado (talvez coreógrafo dos patinadores da pista de gelo mais famosa do mundo) foi duas vezes ponto de parada em minha auto-estrada. Na primeira vez, voltava ao Brasil da ditadura com anel e diploma de Mestre da Universidade de Stanford, mas sem emprego. Na segunda oportunidade, após três meses em um projeto mundial que me deixou fora do casamento de minha irmã caçula, voltei para a decolagem definitiva de minha carreira na IBM. O Rockefeller Center é formado por 19 prédios que ocupam quadras entre as ruas 48 e 51 e a 5ª. e a 7ª. avenidas. Patrimônio Histórico Nacional e Símbolo do Capitalismo Selvagem é ofuscado pela estátua dourada do titã (nada a ver com a banda de rock paulista) Prometeu, personagem da mitologia grega que deu à humanidade o acesso ao fogo e, paradoxalmente, hoje paira sobre dançarinos no gelo.

                     

2.Torre Eiffel, Paris.

Se Paris é a Cidade Luz, a Torre Eiffel é sua Árvore de Natal, resplandecente todos os 365 dias do ano, desde a sua inauguração, em 1889, quando Gustav Eiffel provou a excelência de sua desacreditada Engenharia. O currículo da torre registra mais de 200 milhões de visitantes, o que a torna o monumento recordista mundial em acessos pagos. Com seus 325 metros de altura, ficaria olhos nos olhos com o nosso Pão de Açúcar ou com qualquer edifício de 81 andares. Fui apresentado a ela aos 22 anos mas, a partir de então, em todos os nossos encontros, enquanto eu ia envelhecendo, ela permanecia a mesma. Mas foi numa viagem de trabalho, em dezembro de 1994, que a Torre Eiffel me pareceu mais linda do que nunca. Da janela daquele quarto de hotel, ela contrastava, ouro iluminado, contra a negritude do céu de inverno francês. Luz e escuridão. Era a mesma torre, mas parecia diferente. Talvez vestisse algum traje de gala invisível, preparado apenas para aquele Natal. Luz e escuridão me aguardavam no ano seguinte: o melhor período de minha trajetória profissional, o encontro com a doutora da minha vida e o primeiro Dia dos Pais sem o meu.

            

                                Paris – Avenue des Champs Elysées                                                                        Paris – Place Vendôme

  

                                                            

                                                                                                                          Paris – Tour Eiffel e o Trocadèro

 

3.Árvore de Natal do Coliseu, Roma.

Guerra e Paz. Vida e Morte. Não há como não fugir de uma embolada de emoções diante daquela imagem tão linda e tão forte. Se todos os caminhos levam a Roma, se o poder de Roma estava no Foro Romano e no Palácio Imperial, o Coliseu se interpôs  no antigo pântano então existente na proximidade dos dois poderes e sobreviveu, de pé, até hoje. Conseqüentemente, presenciamos uma mudança na frase histórica; agora, “Todos os caminhos levam ao Coliseu e, por decorrência, à sua Árvore de Natal”. Trata-se de um pinheiro de 25 metros trazido anualmente dos Alpes Italianos e que passou a colorir a noite do Coliseu a partir de 2006. Por coincidência, eu estava em Roma naquele dezembro. Foi uma maravilhosa surpresa aquela visão surgida no meio da caminhada a partir do hotel, ao virar à esquerda na Via Dei Fori Imperiali. Quem diria, o Coliseu passava a ter, então, seu Gladiador da Paz.

                 

                              

 

4.A Estrela de Natal da Mesbla, Rio de Janeiro

Não sei se ela ainda está lá em todos os dezembros. Alguns dizem que sim; outros, que não. Mesmo que esteja, não é mais a mesma, pois a Mesbla foi pulverizada por um bilionário sacripanta de penteado capacete e colarinho branco, duro e gordurento. Além disso, as razões que me faziam passar diante dela não existem mais. Meus natais no Rio de Janeiro ficaram para trás. Permanece eterna, no entanto, aquela imagem iluminada da estrela no alto da torre do relógio da Mesbla, com sua cauda piscando como luzes dentro da Baía de Guanabara. A Mesbla, cadeia de lojas de departamentos fundada em 1912, teve falência decretada em 1999, abatida do alto de suas 180 lojas e 28.000 funcionários. Reinou absoluta no varejo durante 40 anos. Vendeu de tudo,  eletrodomésticos, brinquedos, automóveis, aviões. Veio de lá minha primeira calculadora eletrônica, uma avançadíssima Texas Instruments de 8 dígitos. Vem da minha infância a admiração por aquela estrela. Nas noites do dia 24, meu pai ou meu tio enchiam o carro com as crianças presentes à ceia da família e iam bordejar pela Avenida Beira Mar para estupor infantil generalizado diante da Estrela da Mesbla.  Na infância de minha filha moça, era o primeiro sinal do Natal carioca que avistávamos, viajantes chegados de tantos pontos cardeais para onde a vida me levou. Nosso destino era o reencontro anual de filhos, irmãos, sobrinhos, primos e netos que tivemos o privilégio de vivenciar por tantos anos. Para meus filhos crianças, a Estrela da Mesbla é um história de mágica santa que venho contando para eles: é pela cauda da Estrela da Mesbla que o trenó do Papai Noel escorrega do céu até o alto dos prédios, para começar a distribuir os presentes aguardados por tantos coraçõezinhos ansiosos.

 

     Rio de Janeiro – Edifício Mesbla, 2004                                                  Rio de Janeiro – Estrela de Natal da Mesbla, década de 50

 

5.Rua 25 de Março, São Paulo

Sei que poderão ocorrer protestos por eu não incluir, no Natal de São Paulo, a árvore e as fontes de águas coloridas do Parque Ibirapuera (na verdade, a fonte é uma ode ao logotipo de um supermercado). Ou por não descrever as decorações luxuosas dos shopping centers da cidade. Mas a Rua 25 de Março, do comércio mais informal do planeta, merece. Naquele paraíso do anonimato, sacoleiros, povão, mendigos, peruas disfarçadas, gente chegada de todos os cantos do Brasil, se enroscam num sarapatel de miscigenação sem DNA, na disputa por quinquilharias de qualquer natureza, impossível ou inimaginável. As lojas, entupidas de mercadorias de griffe européia e produção asiática, bichos de pelúcia esmigalhados, camisetas e tênis paraguaios, enfeites e bijuterias a poucos $reais$, disputam o povaréu com os camelôs. Esses, em seu reinado de total informalidade contábil e mercadológica, comandam a Corrida do Rapa. Do nada e quase com hora certa, surge dos carrinhos de som, onde se vendem CD’s e DVD’s genéricos, o grito pirata e aterrador : “Olha o raaaaaapppaaaa!!!”. As lojas cerram suas portas – quem está fora não entra, quem está dentro não sai. A freguesia sobe nas calçadas e se encosta nas paredes para o abre alas dos camelôs fugindo com seus produtos enrolados em cobertores, sacos de lixo, tabuleiros. Logo atrás, rodopiando desorientada, vem a clientela pega na subida da maré; fechando o cortejo, o batalhão de fiscais com cara de empada sem azeitona, certos da propina garantida ao final do desfile. E logo tudo volta ao seu lugar. Banheiro, só a céu aberto, com paredinha de alguma alma caridosa. Comida? Refrigerante quente e sanduíches de conteúdo mais assemelhado a retalhos. Ou talvez uma quentinha com arroz, feijão e picadinho de indefinida carne animal. No Natal, a 25 de Março muda a vida da cidade. O caótico trânsito de todo dia piora com requintes de crueldade. Mas ainda dá para ouvir aqui ou ali um distante “Feliz Natal”. 

                                                                         

                                                                                             São Paulo – Fonte supermercadológica do Parque Ibirapuera

 

     

 

6.Presépios Berlinghieri, São Paulo e Rio de Janeiro

O Presépio está, em todos os sentidos, na origem do Natal. Do nascimento de Cristo à celebração familiar, à entrega de presentes pelos Reis Magos, tudo começou no presépio de Belém. E assim foi sendo reproduzido em igrejas dos cinco continentes e retratado por grandes pintores, em obras espalhadas pelos maiores museus do mundo. Estive diante de várias delas mas, permito-me focar o tema dentro de minha própria família. O presépio mecanizado construído ao longo de seis anos por minha filha exalta tradição, criatividade, dedicação, amor, carinho e religiosidade. Sempre representou, para ela, um punhado de momentos de alegria ao construir, reformar, incrementar e exibir seu trabalho, ainda mais diante de seus irmãozinhos menores. Pena que as águas de uma cruel enchente paulista tenham-no destruído por completo. Já o Auto de Natal, foi uma simbologia diferente do presépio, que conheci através de meu pai. Tantas vezes representado por ele criança em Pádua e em Campos dos Goytacazes, o Auto de Natal chegou ao Brasil na tradição dos imigrantes italianos. É um presépio vivo, composto por crianças da família, distribuídas pelos personagens da chegada do Menino Jesus, enquanto um texto familiar é lido por um adulto. Tivemos nosso Auto de Natal em 1986; com seus sete netos formando o presépio, minha mãe lia seu texto e meu pai, sentado em sua poltrona, escancarava seu tradicional sorriso silencioso e sem fim.

                                                

                Lisboa – Presépio da Coleção de D,João VI, 1808                        Padova, Cappelle degli Scrovegni – Presépio, Giotto 1304    

          

                                                     

                     São Paulo – Presépio Berlinghieri, 2001 – 2007                                                                   Rio de Janeiro – Auto de Natal Berlinghieri, 1986

 

7.Papai Noel e as crianças, Rio de Janeiro e São Paulo

Se o presépio representa o núcleo familiar, as crianças são mensageiros da alegria inocente e incontida, diante de um presente colocado em seus sapatinhos e também são os futuros adultos que serão Papai Noel para suas próprias crianças. O sorriso infantil diante de Papai Noel reflete uma benção, mesmo que, em algumas situaçõe, seja um momento de puro pavor. Nunca foi o meu caso. De menino tímido e bem comportado, fiz a transição natural para um Papai Noel generoso, sem barba e barriga, incógnito. E quando olho para trás, na Auto-estrada das Memórias e Saudades Eternas, procuro meus primeiros natais e me vejo cantando Adeste Fidelis, em latim, no Colégio Cirandinha e fazendo fila para falar com Papai Noel na Sears Roebuck, em Botafogo. Bom menino me pareceu aquele. Dá até vontade de escrever cartinha com um pedido a Papai Noel.

                                     

                    Santa Claus e o Massacre da Serra Elétrica ?                  Rio de Janeiro, dezembro de 1951 – Astrominho, Papai Noel e Primo Adinho

  

  

                                                                               FELIZ NATAL PARA VOCÊS TODOS.

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MONT-SAINT-MICHEL


MONT-SAINT- MICHEL

Patrimônio da UNESCO, cercado por ondas da História e por marés assassinas

 

 

Nos quilômetros que vão ficando para trás no trajeto leste-oeste da estrada costeira que atravessa a Normandia, depois passa pela Mancha e se ramifica para outros destinos franceses, como Orleans, Vale do Loire, Paris ou Riviera Francesa, a majestosa silhueta chama a atenção do peregrino da História. Ou, quem sabe, em contrapartida, é silenciosamente observado por ela. À longa distância, um minúsculo triângulo negro. Mais tarde, um cone manchado de sombras. E, ao atravessar o istmo que liga o gigantesco morro de granito à costa, sua imagem explode em todo o seu esplendor.  Um dos principais cartões postais da França, patrimônio mundial da UNESCO, abadia, cidadela, fortaleza, prisão e centro de romaria medieval católica e de turistas modernos. É o Monte Saint Michel ou, como prefiro chamar, mais chique, Mont-Saint-Michel.

 

       

                 Trângulo negro                                                     Cone de sombras                                     Astromar percorrrendo o istmo até o monte

 

 Com seus 170 metros de altura, medidos da estátua do arcanjo São Miguel no alto da torre da abadia, passando pela espiral da ruela de acesso ao topo, margeada por construções seculares, chegando às muralhas de proteção na base e até o nível do mar, o Mont-Saint Michel navega imóvel, fixo e imponente, por um oceano de História. Impressiona pela sua configuração de “ilha”, cercada de areia e algumas pastagens de ovelhas, em ambiente de aparente tranqüilidade, já que o mar é avistado só no horizonte, a 15 km de distância.

                        

      Fortaleza cercada de areia, com mar no horizonte        Ovelhas espertas                                         Verde, cinza e azul em volta do Monte

 

Tamanha pasmaceira de cenário esconde, no entanto, uma armadilha perigosíssima e mortal. As areias em torno do monte, fofas, quase movediças, são alcançadas em velocidade espantosa pelas mais altas marés da Europa (“à velocidade de um cavalo a galope”, segundo testemunha do século XIX). As águas alcançam até 15 metros, batem furiosas contra os muros da fortaleza e, até hoje, ceifam vidas de pessoas, famílias inteiras até, que, ao perambularem ingenuamente pelas areias, alheias ou incrédulas aos avisos multilíngües de perigo, terminam seu passeio afogadas em tragédia. As ruminantes ovelhas vizinhas, mesmo analfabetas, têm QI mais alto; desaparecem muito antes das primeiras marolinhas chegarem.

  

     

                    Seco                                                                                                 Úmido                                                                              Inundado

 

 Sinais deixados pelos antigos romanos atestam a passagem, por lá, de gente, de grupos, e até de exércitos da Antigüidade. Mas o marco inicial da história do Mont-Saint-Michel se situa em 16 de outubro de 709, quando Aubert, bispo de Avranches, atendeu a um pedido pessoal do próprio arcanjo e consagrou um pequeno santuário na parte plana da então ilha. O ano 966 mostra o lugar habitado por monges beneditinos que, durantes os séculos XI, XII e XIII construíram e expandiram um monastério, a abadia localizada no cume do morro de pedra. Paralelamente, novos moradores foram ocupando a ilha, como artesãos, pescadores, guardas ou comerciantes e construindo, morro acima, casas e estabelecimentos. Muito deles são hoje, individualmente classificados como “Monumento histórico da França”. Esses primeiros habitantes da ilha chamavam-na, sutil e subliminarmente, “Mont-Saint-Michel em perigo do mar” (Mons Sancti Michaeli in periculo mari). No século XIV, a “Guerra dos 100 Anos” entre França e Inglaterra, fez do monte uma fortaleza inexpugnável. Reforçada militarmente, suportou um cerco de 30 anos e transformou-se em símbolo da identidade nacional francesa. Entrou em decadência de 1789 até 1863, devido ao PTismo da Revolução Francesa, sendo transformada em prisão pelos sindicalistas do Terror. Passada essa negritude política radical, seu esplendor, orgulho e importância foram sendo resgatados por personagens influentes, como Victor Hugo, que liderou pessoalmente uma campanha de restauração moral do monte. Em seus discursos, repetia exaustivamente “Le Mont-Saint-Michel apparait comme uma chose sublime, une pyramide merveilleuse”. Deu certo. Se, em seus primeiros anos, Saint-Michel era um centro de peregrinação, como Roma ou Santiago de Compostela, visitado por cristãos medievais em busca da “garantia da eternidade”, fornecida pelo arcanjo “tomador do peso das almas” (peseur des ames), hoje, mais de 3 milhões de visitantes chegam anualmente até lá.

 

            

                        Abadia                                                           Clausura                                                                 Caminhos para a Abadia

       Ruelas em espiral    

 

Eu, fui duas vezes. Na primeira, com uma inquilina temporária das minhas atenções e, um ano depois, com meus pais. Foi difícil para eles subir a espiral da ruela até a abadia. Meu pai desistiu e, com isso, fez sua descoberta particular…A percepção aguda de um Viajante da História pode fazer a festa no Mont Saint-Michel. Aprendi, por exemplo que, no início dos tempos, aquela região era uma floresta imensa. Foi invadida pelo mar que, implacavelmente, destruiu a mata e escavou o terreno por erosão, fazendo surgir ilhas de granito aqui, acolá. A maior delas, por séculos conhecida como Mont Tombe, é o nosso Mont-Saint-Michel. A ponte levadiça original de acesso ao monte, obviamente utilizada somente na maré baixa, deu lugar a uma faixa natural de terra formada com o aumento da erosão e que existe até hoje.

                         Ingresso e estacionamento pela faixa de terra

 

Por outro lado, infelizmente, as edificações de Saint-Michel se avacalharam, viraram mafuá de quinquilharia turística, restaurante fast food ou motel. Mas temos exceções, existem algumas pousadas corretas, com vistas maravilhosas; a abadia é um monumento gótico espetacular; cardápios de qualidade oferecem uma carne especial de cordeiro que, por razões naturais, já vem salgada por dentro. Sem falar na descoberta de Papai. Enquanto aguardava meu retorno e o de sua eterna namorada da visita aos píncaros da abadia, ele, meu mestre de peregrinagens da História, achou o restaurante La Mère Poulard. Datado de 1879, tem suas paredes cobertas de autógrafos de celebridades mundiais, como Ernest Hemingway, Yves Saint-Laurent, Alberto Santos Dumont, Fernandel, Yves Montand, Alexandre Dumas, Mas celebridade maior é o omelete gigante da casa. Receita secular da Mère Poulard, tem 8 cm de altura e é cozido diretamente no fogo. Parece mais um empadão do que um omelete. Mas não foi possível acalmar a fome com tal iguaria. A fila de peregrinos esfaimados tinha proporções medievais ou até mesmo, tipo Bolsa-Família.

 

     

                               Restaurante La Mère Poulard                                                                   Mère Poulard e seu omelete, século XIX

  

       Omelete de lagosta e logo          

                   

Lendas pululam no Mont-Saint-Michel. Uma compilação de contos do século XII, por exemplo, fala de uma cobra gigantesca que devorava rebanhos, peregrinos e moradores, em ataques noturnos. Sem defesa, nem dó ou piedade. E foi após uma noite inteira de novena a Saint-Michel que a população encontrou a cobra imóvel aos primeiros raios de sol. Cabeça decepada, ao lado de uma espada de aço e de um pequeno escudo ali abandonados pelo misterioso guerreiro. Talvez um conhecido arcanjo… E no livro do Apocalipse, capítulo 12-parágrafos 7-8, está a narrativa da batalha entre as forças do céu e do demônio. Com lança e espada, o arcanjo Saint-Michel espetou, fez picadinho e acabou com o dragão vermelho do demo. Essa e milhares de outras histórias vão se eternizar com o Mont Saint-Michel. Sua longevidade vai continuar, sua configuração original vai retornar. O governo francês anunciou, em 16 de junho de 2006, um projeto de 164 milhões de euros para a construção de diques e canais que farão Saint-Michel voltar a ser ilha. Obras em andamento, apesar da crise do Bush.

              

                                                                      Contos do século XII

Mas dois fatos que encontrei enquanto trabalhava nesse artigo comprovam e renovam a alegria que toma de assalto um peregrino da História quando se depara com detalhes de eventos ou lugares distintos que acabam se cruzando no túnel do tempo. O Mont -Saint-Michel é personagem na Tapeçaria de Bayeux, de 1067 (objeto de artigo de junho de 2007), onde aparece em cenário de fundo, enquanto a cavalaria de Guilherme, o Conquistador, passa meio atolada na areia movediça que cerca o monte. E Henrique II, rei inglês da dinastia dos Plantagenets e pai de Ricardo Coração de Leão, patrocinou reformas da abadia em 1204. O que não deixa dúvidas quanto à sua preferência em ser enterrado na França, numa outra abadia, a de Fontevraud (objeto de artigo de maio de 2008). Credito, com emoção, essas duas descobertas como homenagem a meu pai. Afinal, nossa passagem pelo Mont-Saint-Michel aconteceu entre a partida da Normandia, onde estivemos com a Tapeçaria de Bayeux e a chegada à Abadia de Fontevraud, onde fomos visitar o túmulo de Henrique II, o Plantagenet. Deus escreve certo por linhas certas.

 

  

                                                           Mont-Saint-Michel na Tapeçaria de Bayeux                                                                  

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