BRAUNSCHWEIG – DA ALEMANHA MEDIEVAL À VIZINHANÇA COM A VOLKSWAGEN


BRAUNSCHWEIG – DA ALEMANHA MEDIEVAL À VIZINHANÇA COM A VOLKSWAGEN

…passando por Hitler e pela Guerra Fria

Acordei de um sono profundo e, na janela do quarto de hotel, só conseguia enxergar a silhueta negra das flores na jardineira. Já era noite. Vestido contra o frio, passei pela recepção ecoando um “guten tag” e avancei escuridão adentro. Sombras cinzas e sombras úmidas cortadas por tímidos fachos de luz adornavam meu percurso, no piso irregular de granito torneado pelo tempo. Percebi ruínas de uma muralha, atravessei o arco de uma ponte de pedra que cobria um riacho cansado de tanto escorrer por ali séculos afora.  Um arrepio de frio avisou que eu havia voltado a um passado.  A praça do mercado, vazia, o castelo, uma coluna coroada por um leão coroado e a bruma de final de inverno pareciam não deixar dúvidas que aquele passado era medieval.  Braunscheweig fica no Norte da Alemanha, mas também  fica na Idade Média. Encontrei a pequena cervejaria mal iluminada por velas, atravessei a porta torta e baixa e encontrei meus colegas da IBM Germany que, todas noites, tomavam umas canecas pós-expediente naquela birosca secular. Diante dos colegas gigantescos, as dimensões do estabelecimento afirmavam que o alemão medieval era muito baixo. A certeza veio quando uma lanterna na escadinha para o segundo andar incendiou meus cabelos.

 O túnel do tempo que me levara até ali partira naquela manhã do aeroporto de Hannover, prosseguiu por uma autobahn  vertiginosa, no BMW de meu colega Frank Gündel e me largara na porta daquele simpático hotelzinho estilo enxaimel com jardineiras floridas na janela. Enquanto a robusta e rosada recepcionista me cobria de sorrisos e de willkommen’s, Frank me recomendou repouso pela longa viagem e marcou o encontro na cervejaria logo após o trabalho. Quando a recepcionista finalmente me entregou a chave do quarto e parou de falar, um banho me projetou no meio daquele mar de penas de ganso em forma de travesseiros, colchão e edredon. Nocaute imediato de sono.

Aquela viagem no tempo foi uma surpresa. Corria o ano de 1986 e eu estava na IBM Brasil como Gerente da Conta Volkswagen (interessante como o verbete “gerente” desapareceu das carreiras modernas, hoje todos são “executivos” de alguma coisa, com excesso de peso na pose e de vácuo de conteúdo), responsável pelos negócios da Big Blue com a montadora alemã em território nacional. A viagem tinha cunho político e comercial. Por um lado, estávamos negociando a modernização do parque de informática em três fábricas brasileiras, por outro, o relacionamento junto aos tomadores finais de decisão era fator crítico de sucesso. Em Braunschweig ficava o endereço da Unidade de Negócios da IBM junto à sede mundial da Volkswagen, em Wolfsburg. Duas cidades vizinhas, interdependentes, mas separadas por séculos em suas fundações.

Braunschweig vem do século VII, foi palco de lides medievais e até capital do império alemão. Já Wolfsburg foi fundada em 1938, para abrigar a então pequena Volkswagen, que logo virou engrenagem importante na produção industrial da Alemanha de Hitler. Braunschweig foi sede da 31ª. Divisão de Infantaria da Wermacht e recebeu milhares de prisioneiros do leste europeu para trabalhar nas linhas de montagem da Volkswagen. Essa unidade do exército nazista participou das invasões da Polônia, Bélgica, França e União Soviética e foi praticamente destruída na retirada da estepes russas geladas. Com esse papel na guerra e com sua vizinhança industrial, Braunschweig sofreu muito com bombardeios aliados. Sua parte mais antiga foi bastante atingida. Milagrosamente, ficaram de pé algumas igrejas, residências, parte do principal castelo e a praça do mercado.

O primeiro registro sobre Braunschweig aparece em um documento encontrado numa de suas igrejas. Datado de 1031, fala da fusão de duas aldeias, uma liderada pelo Duque Bruno II e a outra, pelo Conde Dankward. Seu primeiro nome, Brunswick homenageava Bruno e os rios que conectavam ao região ao Mar do Norte. Com tal localização, a vila logo se transformou em centro comercial, onde produtores e comerciantes se encontravam para beber cerveja, descansar e fazer negócios. Em torno do castelo Dankwarderode, do Duque Henry the Lion surgiu a praça do mercado e a coluna de Henry como leão coroado. Braunschweig passou a ser conhecida como Cidade do Leão, principalmente quando o filho de Henry, coroado imperador Otto IV, a fez centro da Europa, em 1209, ao torná-la capital e Cidade do Imperador.

Nos intervalos das negociações técnicas e comerciais sobre os data centers da Volkswagen do Brasil, numa época sem internet e sem celulares, meus colegas alemães me apresentaram à Ala 54, então uma das mais modernas linhas de montagem do mundo, totalmente robotizada, à cerveja escura Mumme, produzida há 600 anos em Braunschweig, tentaram –sem sucesso – me fazer comer joelho de porco gelatinoso, e me levaram até à antiquíssima Hornburg, ali na beirada da fronteira com a Alemanha Oriental. A vila de Hornburg surgiu no ano 994 e cresceu em velocidade inferior à passagem do tempo.

Suas construções centenárias de 400, 600 anos, com estrutura de madeira e paredes de massa parecem obra de arquitetos e pedreiros bêbados. Deformadas, embarrigadas, tortas, com janelas quase niveladas com a rua, são o resultado de guerras que nunca passaram por ali, de séculos de paz em plena Alemanha.

E disfarçam suas arestas da Guerra Fria, pois estradas rurais que chegam e partem de Hornburg exibiam temíveis placas de ACHTUNG!  Foi assim minha apresentação à Alemanha dividida de 1986. Vi cercas de arame farpado, imensos campos minados, com torres de observação e até bunkers, e tive minha curiosidade retribuída pelos binóculos de guardas armados de metralhadoras, e cães pastores alemães.

Dar as costas à Alemanha comunista ao voltar a Wolfsburg foi uma sensção de alívio acompanhada por prosits pelo sucesso das negociações. Se havia chegado à Alemanha dirigindo-me a todos, como de praxe, formalmente, por Herr,  parti liberado para dirigir-me a eles (e vice versa) pelo primeiro nome. E, naturalmente, trouxe na bagagem uma belíssima coleção de miniaturas de veículos Volkswagen/Audi e a autorização para formalizar a proposta da IBM.

Lá se vai mais de um quarto de século desde essa viagem. O muro de Berlim caiu, as Alemanhas se unificaram, a Ala 54 se obsoletou, a Volkswagen de Wolfsburg ganhou prêmios de arquitetura pelos seus novos e belíssimo edifícios de vidro, eu me aposentei da IBM, minha vida mudou, a sociedade mudou e Hornburg entrou em Hollywood (detalhes abaixo, no Caderno de Anotações).

Mas duas coisas permaneceram. Tive a Volkswagen como cliente por 27 maravilhosos anos e ainda mantenho amizades que lá cultivei. Aliás, são poucas as vezes em que eu entre ou saia de minha residência sem voltar àquela primeira noite na Braunschweig medieval. Uma gravura alemã, pendurada junto à porta está sempre me chamando.

Caderno de anotações

1.A moderníssima sede da Vokswagen A.G. pode ser vista em cenas do filme “Trama Internacional” (The International), com Clive Owen e Naomi Watts. É um thriller de ação em alta velocidade, com personagens como Audis, Passats e Touaregs. Fora o edifício principal da montadora, que faz o papel da matriz de um banco em Luxemburgo.   http://www.imdb.com/title/tt0963178/

2.A antiquíssima Hornburg entrou para Hollywood. Foi cenário do segundo filme da trilogia “O Senhor dos Anéis”. A fortaleza fictícia de “Helm’s Deep” é inspirada no Castelo de Hornsburg. No filme aparece na sequencia “A batalha de Hornburg”, conforme projetada por J.R.R. Tolkien, autor de “Lord of the Rings”.

 

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25 respostas para BRAUNSCHWEIG – DA ALEMANHA MEDIEVAL À VIZINHANÇA COM A VOLKSWAGEN

  1. Marcia disse:

    Mas que deslumbre é este que não estou podendo ver agora???????????????

  2. Ana disse:

    Sensacional Prof.Astromar!Merecia ser publicado…voltou inspirado! Como sempre me dando um banho de cultura. Parabéns.

  3. Miriam disse:

    Amei este texto Professor! Obrigada por compartilhar.

  4. Alexandre Hercules disse:

    Meu caro Professor,
    deixei para ler com calma nesta manhã de domingo.
    As histórias são sempre muito boas e com uma riqueza de detalhes impressionante.
    Mas o que mais me impressionou nesta sua volta foi a qualidade descritiva do texto.
    Você se aprimorou muito na arte da escrita descritiva.
    Parabéns pelo retorno.
    Abraços

    • Professor Astromar disse:

      Caro Alexandre.
      Nada como um intervalo, um sabbatical, para a gente se preparar melhor para uma próxima fase. Obrigado pelo comentário, qualificado pela presença neste espaço desde o primeiro artigo, em 2007.
      1 abraço,
      Astromar

  5. Ana Cristina Ribeiro disse:

    Professor, eu adoro a relação passado/presente; sabia da ligação da Volks com Hitler/WW II, mas sem detalhes. Me encantou a descrição da cidade medieval porque me lembrei da fortaleza/cidade de Chinon, na França. Você dá o toque da história do lugar sem ser muito didático, misturando sempre suas sensações/emoções pessoais, o que dá um tom mais acueillant ao seu texto! Adoro saber o que as pessoas sentem e o que as tocam…As suas viagens foram especiais por isso…tipo você se envolve com o lugar e Europa é isso! Ou deveria ser…
    Amei as miniaturas! Você tem tesouros em casa, pode ensinar a seus filhos a dar valor!

  6. Wow! ADORE! Na mosca! Eu não tinha percepção que esse vai e vem com emoção é tão bonito. Sai daqui de dentro naturalmente. Não é à toa que eu tenho a regra de só escrever sobre onde estive. MUITO OBRIGADO! Bjão!

  7. Miriam Gelinski disse:

    Gostei muito! Eu conheco a fabrica de vidro da Volkswagen em Dresden, simplesmente marailhosa!

  8. Luz de Pedra disse:

    Grande volta do Astromar!

  9. Roger disse:

    Astro, acabo de repassar esse seu anúncio de artigo ao Nelson Pacífico que está contente por constatar que vcs têm origens comuns. Ele não conhece seu blog mas, ligado como ele é nas raízes italianas, acho que vai gostar. Mesmo que neste e-mail específico o assunto sejam os tedescos.
    Abraço.

  10. Luz de Pedra disse:

    Grandioso relato, memória profunda. Gostei das referencias aos filmes contemporâneos.
    Adorei o mergulho nas penas e plumas, e a relação da escala na arquitetura medieval – seus cabelos chamuscados.
    Viva o professor de volta!

    • Querida irmã Luz de Pedra
      Aqui vai um complemento ao sarapatel medieval hollyoodiano e automotivo. De Braunsachweig voltei a Hannover e, de lá, voei até Genève, onde conheci sua nova casa e de onde levei neve da Salève para Campinas, para satisfazer a curiosidade de sua sobrinha. Março de 1986.
      Astro.

  11. Claudia Baggi Gonzalez disse:

    Caro Professor Astromar,

    Come al solito un bellissimo racconto.
    Leggendo il primo paragrafo mi è venuta l’impressione che Lei non si era svegliato e che stava ancora sognando con la testa sul cuscino di piume d’oca: ombre grigie, luci spente, piazze vuote, nebbia, leoni. Ma Lei era sveglio? addormentato? o aveva forse preso proprio una macchina del tempo?
    Comunque, camminare in Europa è così, ogni tanto si inciampa contro un castello, contro dei ponti vecchi, delle rovine o anche contro una birreria dove se non si fa attenzione si bruciano i capelli. (anche i romani avevano la statura piuttosto bassa).
    La Germania, raccontata così da Lei, mi sembra una vecchia signora, con i piedi inchiodati nella terra, ma con lo sguardo avanti, al di là della modernità. Possiamo vederla raffigurata in un disegno in cui abbiamo l’illusione ottica di vederle tutte e due allo stesso tempo., la vecchia e la giovane. La conosce?
    Complimenti per aver avuto successo negli affari ( quindi era ben sveglio ! ).
    Grazie per la bella lezione di storia.

    Arrivederci
    Claudia

  12. Eingefroren disse:

    Alter Freund,

    Nochmals vielen Dank für die Einladung, ihre Erfahrungen zu teilen
    als Bürger der Welt durch
    Das ist die interessanten Erzählungen dieser Reise des Lebens.
    Jedoch diesmal, ich wage nicht zu glauben in ihre robuste Definition von der Hotel-Rezeption: Es war sicherlich eine lateinische Fleisch und Loiraça lockte viele Gans sollte in diesem Bett geflogen haben…
    Brüderliche Umarmung,
    Voyeurish

    • Mein lieber Freund des Voyeurismus
      Nicht zu verwechseln Braunschweig nach München. In Braunschweig, war ich in den Dienst von IBM in München, während ich frei, leicht und locker war. So ist das robuste Rezeption Nachbarn Volkswagen so real wie die Brüste der bayerischen Birgit verstopft Flüsse und Seen im Sommer nackt südlichen Deutschland.
      Brüderlichen Umarmung.
      Herr Doktor Astromar

  13. Sensacional Professor Astromar…. viajei no tempo ….estávamos sempre juntos na IBM para suportar o grande negocio na VW! Adorei o texto, a forma e a sua habilidade nas descrições dos lugares, hotel, etc..é fechar os olhos, soltar-se e viajar junto no tempo e nos lugares!
    Parabéns e Obrigada pela primeira oportunidade de conhecer o Professor Astromar!!!
    Saudações, Aurora Bertolaci

  14. Cara Victoria
    Obrigado por seu comentário. Pegou a essencia do meu pensamento sobre História. “Apender a gostar de aprender”. O conhecimento é atemporal. Meus artigos começaram a sair nesse blog em 2007. Não escrevo desde 2012. E os comentários continuam a chegar. E a lista de futuros artigos vem sendo atualizada desde o primeiro dia.Depois deste artigo sobre a VW, já estive na Costa Oeste dos EUA, Canadá, Nordeste, Italia e França. A lista de possíveis temas agora ocupa páginas.
    Bom fim de semana e um grande abraço.
    Pf A.

    • Maria das Victórias Chianca disse:

      Aguardo novas publicações História/Geografia, no seu estilo, adoro estas matérias.Conhecí algumas partes deste planeta maravilhoso:a Terra.Continuo curiosa por suas pesquisas.Abraços Victória Chianca.Maria das Victórias Chianca

      • Maria das Vitórias
        Obrigado por seu comentário. Escrevia desde 2007 e, sinto satisfação em ver que, mesmo tendo parado de publicar em 2012, os comentários continuam chegando. Afinal, A História é atemporal. Minha vida sempre foi orientada a agregar valor. Profissionalmente, sou executivo aposentado pela IBM e agora, viajo muito atrás de detalhes da História para meu público. Como cada artigo meu tomava cerca de 30 horas para produção, fui para o Facebook. Me encontre lá como ASTROMAR BERLINGHIERI.
        Grande abraço
        Pf A

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